O Google pretende dar um passo importante em sua ideia de levar data centers para fora da Terra. A empresa confirmou que lançará em 1º de outubro seu primeiro satélite experimental equipado com chips de inteligência artificial, como parte do Project Suncatcher.
Chamado MVP e aproximadamente do tamanho de uma geladeira, o satélite carregará quatro unidades de processamento tensorial, as TPUs desenvolvidas pelo próprio Google para executar e treinar modelos de IA. Juntas, elas terão capacidade computacional semelhante à de um único servidor de data center.
Por enquanto, o objetivo não é processar consultas do Gemini no espaço. O experimento servirá principalmente para descobrir se os componentes conseguem sobreviver e funcionar nas condições extremas encontradas em órbita.
Google acelerou seus planos

O Project Suncatcher foi apresentado em novembro de 2025 como uma iniciativa de pesquisa de longo prazo.
Inicialmente, o Google trabalhava com a empresa de satélites Planet para colocar dois equipamentos experimentais em órbita apenas no início de 2027. Mas a companhia decidiu acelerar o cronograma.
Para ganhar tempo, os chips foram instalados em um satélite que a Planet já havia construído.
A principal motivação para o projeto está no enorme consumo energético provocado pela expansão da inteligência artificial.
Treinar e executar grandes modelos exige cada vez mais eletricidade. No espaço, o Google acredita que poderia aproveitar a energia solar de maneira muito mais eficiente.
Segundo estimativas da empresa, um painel solar em órbita baixa poderia produzir até oito vezes mais energia que um equivalente instalado na superfície terrestre. A ausência de nuvens e atmosfera e a possibilidade de maior exposição à luz solar ajudam a explicar essa diferença.
O primeiro teste será relativamente pequeno
Apesar das ambições, o MVP ainda está muito distante de ser um verdadeiro data center espacial.
Sua missão deverá durar aproximadamente um ano e terá como principal objetivo avaliar como os chips se comportam diante das vibrações do lançamento, da radiação e das grandes variações de temperatura.
Um dos maiores obstáculos será justamente o calor.
Na Terra, servidores podem utilizar sistemas de refrigeração que dependem da circulação de ar ou líquidos. No vácuo espacial, não existe ar para dissipar o calor por convecção.
Por isso, o satélite utilizará painéis radiadores capazes de transferir e liberar a energia térmica produzida pelos componentes.
Mesmo assim, existe uma limitação importante.
As TPUs poderão permanecer funcionando por aproximadamente 15 minutos consecutivos. Depois disso, precisarão ser desligadas temporariamente para esfriar.
Antes do lançamento, o Google submeteu o equipamento a testes de vibração em três eixos para reproduzir as condições que enfrentará dentro do foguete.
Os chips também foram expostos a feixes de prótons para simular os efeitos da radiação encontrada em órbita. Segundo a empresa, os resultados foram satisfatórios.
Um dia o Gemini poderá responder do espaço

A visão de longo prazo do Google é muito mais ambiciosa.
Se os desafios técnicos e econômicos forem resolvidos, futuras constelações de satélites poderiam funcionar como enormes infraestruturas de computação alimentadas por energia solar.
Travis Beals, diretor sênior de produto do projeto, chegou a imaginar um cenário em que a tecnologia se torne tão comum que usuários nem saibam se uma consulta ao Gemini está sendo processada na Terra ou no espaço.
Mas isso ainda deve demorar.
James Manyika, vice-presidente sênior de Pesquisa do Google, afirmou que a empresa não espera ter algo operacionalmente útil nos próximos anos.
Ele comparou o desenvolvimento do Suncatcher à trajetória dos carros autônomos do Google, uma pesquisa que levou cerca de 15 anos para evoluir até a atual Waymo.
A corrida pelos data centers espaciais já começou

O Google não está sozinho nessa aposta.
Outras empresas de tecnologia e do setor espacial também estudam maneiras de colocar capacidade computacional em órbita, impulsionadas principalmente pela crescente demanda energética da inteligência artificial.
A SpaceX já apresentou planos às autoridades americanas envolvendo uma grande constelação de satélites de computação que poderia atender às necessidades de IA da xAI.
A Blue Origin, empresa espacial fundada por Jeff Bezos, também trabalha em uma proposta própria envolvendo dezenas de milhares de satélites.
O principal obstáculo continua sendo econômico. Colocar equipamentos pesados em órbita ainda custa muito mais do que simplesmente construir servidores na Terra.
O Google calcula que essa diferença poderá diminuir à medida que os lançamentos espaciais se tornarem mais baratos.
Se isso acontecer, data centers em órbita poderiam começar a competir economicamente com instalações terrestres em meados da década de 2030.
Até lá, o pequeno MVP terá uma missão bem mais modesta: descobrir se quatro chips de IA conseguem sobreviver no espaço — e funcionar por 15 minutos sem esquentar demais.
[ Fonte: Infobae ]