Nas florestas densas da Patagônia, no extremo sul da América do Sul, existem árvores que começaram a crescer quando o Império Romano ainda se expandia. Algumas alcançam mais de 60 metros de altura e sobreviveram por milênios a tempestades, erupções e mudanças naturais do clima. Agora, porém, enfrentam uma ameaça sem precedentes: incêndios cada vez mais intensos alimentados pelas mudanças climáticas.
Desde o início de janeiro, focos severos de incêndio atingem a região da Patagônia argentina, especialmente na província de Chubut. Poucos dias depois, novos incêndios surgiram no sul do Chile. As chamas se espalharam pela Patagônia norte e pelos contrafortes andinos, deixando mortos, milhares de evacuados e extensas áreas de florestas nativas e parques nacionais queimadas.
O que está alimentando as chamas
Um relatório do World Weather Attribution concluiu que o calor extremo, meses de seca prolongada e ventos intensos — todos agravados pela ação humana sobre o clima — estão intensificando a crise.
Modelos climáticos indicam que tanto no Chile quanto na Argentina a tendência é de estações mais secas e condições meteorológicas cada vez mais propícias a incêndios severos.
Los Alerces sob ameaça
Entre as áreas mais afetadas está o Parque Nacional Los Alerces, na Argentina, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO. O parque abriga uma das populações mais antigas de alerces do planeta.
O alerce (Fitzroya cupressoides) é a segunda espécie de árvore mais longeva do mundo. O exemplar mais antigo conhecido na região tem cerca de 2.600 anos e pode ultrapassar os 3.000 se sobreviver aos incêndios atuais.
Essas árvores gigantes não são apenas monumentos naturais — são importantes aliadas no combate às mudanças climáticas.
Uma perigosa retroalimentação climática
Ao longo de sua vida milenar, os alerces absorvem enormes quantidades de dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera, armazenando-o em seus troncos, raízes e galhos. Pesquisas indicam que o 1% das maiores árvores concentra aproximadamente metade do carbono armazenado acima do solo em muitos biomas florestais.
Quando queimam, esse carbono é liberado de volta à atmosfera em grande escala — o equivalente a detonar uma “bomba de carbono”. O resultado é mais aquecimento global, que por sua vez gera condições mais quentes e secas, favorecendo novos incêndios.
O ciclo se retroalimenta: mais calor, mais fogo; mais fogo, mais emissões.
A perda de florestas antigas também reduz a capacidade futura de armazenamento de carbono, enfraquecendo um dos principais mecanismos naturais de mitigação climática.
Impacto na biodiversidade
Os incêndios não ameaçam apenas as árvores milenares. O relatório aponta que a destruição de habitats coloca em risco espécies vulneráveis, como o cervo andino do sul, o pudu — considerado o menor cervo do mundo — e o pica-pau-de-magalhães.
O próprio alerce é classificado como espécie ameaçada. A degradação de seu habitat compromete décadas de esforços de conservação.
Um alerta para o futuro
Segundo o World Weather Attribution, há “alto grau de confiança” de que as mudanças já observadas nas condições climáticas da região são impulsionadas pelo aquecimento global causado por atividades humanas.
Ainda é cedo para estimar a extensão total dos danos em Los Alerces. Mas a tendência é clara: sem redução significativa das emissões globais, eventos extremos como esses tendem a se tornar mais frequentes e destrutivos.
Se a trajetória atual se mantiver, a humanidade pode acabar sendo a força que finalmente derrubará árvores que resistiram por milênios.
Mais do que uma tragédia regional, os incêndios na Patagônia representam um símbolo global: quando as florestas antigas queimam, não perdemos apenas paisagens e espécies — perdemos também uma das nossas mais poderosas defesas naturais contra a crise climática.