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Tecnologia

Jornalistas que nunca existiram começaram a publicar notícias e o problema vai muito além da IA

Repórteres com nomes, fotos e perfis aparentemente reais estão publicando notícias em grande escala. Uma investigação no Canadá revelou que alguns deles simplesmente não existem.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Nome completo, fotografia, cargo, cidade de atuação e uma lista interminável de matérias publicadas. À primeira vista, nada diferencia esses profissionais dos milhares de jornalistas que trabalham diariamente na internet. Há apenas um problema: alguns deles nunca existiram. Casos descobertos recentemente no Canadá mostram como a inteligência artificial está permitindo criar redações inteiras de personagens virtuais, capazes de republicar conteúdo em uma escala praticamente impossível para seres humanos.

Uma repórter produtiva demais para ser humana

Um dos casos mais curiosos envolve “Geneviève Tremblay”, apresentada como correspondente de Quebec pelo site We News. Ela publicava várias matérias por dia sobre diferentes assuntos e tinha uma fotografia semelhante às encontradas em páginas profissionais de jornalistas.

Mas Tremblay era uma personagem gerada por inteligência artificial.

E não estava sozinha. O We News apresenta uma equipe de repórteres e editores virtuais, incluindo um suposto editor-chefe chamado “Gordon Halloway”. O próprio site identifica esses perfis como produzidos por IA, apesar de utilizar nomes e retratos que imitam pessoas reais.

A operação é enorme. Segundo investigação da The Canadian Press, esses personagens produzem notícias nacionais, internacionais e locais para mais de 100 cidades canadenses.

Quando a empresa Originality.ai analisou pouco mais de 200 artigos atribuídos a Tremblay, classificou o material como gerado por inteligência artificial. Segundo a análise, muitos textos eram versões reescritas de reportagens originalmente produzidas por veículos como CBC, CTV, CityNews, Global e Montreal Gazette. A própria Canadian Press encontrou conteúdo seu entre as fontes reaproveitadas.

Outro “jornalista” conseguiu chegar a veículos reais

Jornalistas que nunca existiram começaram a publicar notícias e o problema vai muito além da IA
© Unsplash

O problema se torna ainda mais complicado quando ninguém avisa que existe IA por trás da identidade.

Em setembro, veículos canadenses começaram a remover artigos assinados por “Daniel Robson” depois que surgiram indícios de que o suposto jornalista não era uma pessoa real.

O alerta começou quando um editor do veículo Türkiye Today procurou Les Perreaux, editor-chefe da revista Policy Options, para obter referências sobre Robson. Perreaux percebeu que não conseguia confirmar sua identidade.

Uma pista particularmente estranha apareceu quando o suposto jornalista se recusou a participar de uma videochamada. Ao revisar mensagens e materiais enviados por Robson, Perreaux também encontrou características que indicavam uso de inteligência artificial.

Segundo reportagem posteriormente publicada pelo Türkiye Today, a persona aparentemente era usada para atacar dissidentes marroquinos.

Esse caso mostra que o problema não está simplesmente em usar IA para escrever. Ferramentas desse tipo já são utilizadas legitimamente em redações para transcrição, tradução, pesquisa, análise de documentos e outras tarefas. A questão muda completamente quando a tecnologia é empregada para fabricar uma identidade e enganar editores ou leitores.

Criar uma falsa redação nunca foi tão barato

A economia por trás dessas operações ajuda a explicar sua proliferação.

Antes da IA generativa, administrar dezenas de sites locais exigia contratar pessoas para encontrar notícias, escrever textos, editar material e publicar atualizações. Agora, modelos de linguagem conseguem reescrever grandes volumes de conteúdo quase instantaneamente.

Ahmed Al-Rawi, professor da Simon Fraser University, avalia que parte dessas operações busca simplesmente monetizar o trabalho produzido originalmente por jornalistas legítimos.

O incentivo é evidente: copiar informações, reformulá-las automaticamente, publicar centenas de páginas e tentar capturar tráfego de buscadores ou redes sociais.

A situação não está limitada ao Canadá. Em setembro, o site Futurism revelou uma operação ligada à Brown Brothers Media que teria adquirido veículos existentes e preenchido suas páginas com conteúdo produzido por IA. A empresa afirmava alcançar 50 milhões de visualizações mensais. Posteriormente, esses sites deixaram de publicar e foram removidos ou fortemente rebaixados pelo Google.

O Google já começou a reagir

O We News permanece acessível, mas a Canadian Press não conseguiu encontrá-lo nos resultados do Google, embora aparecesse normalmente em outro mecanismo de busca.

O Google não confirmou especificamente se havia removido o site. A empresa afirmou, porém, que suas políticas proíbem a produção em grande escala de conteúdo de baixo valor destinada a manipular os sistemas de classificação.

Essa resposta cria outro dilema.

Retirar redes de conteúdo automatizado pode proteger usuários e veículos que financiam jornalismo original. Ao mesmo tempo, entregar às grandes plataformas tecnológicas a responsabilidade de decidir quais sites merecem aparecer também concentra enorme poder sobre a circulação de informação.

E existe ainda uma dificuldade prática: produzir esse tipo de operação é barato. Investigar seus responsáveis, provar violações de direitos autorais e entrar com processos judiciais pode ser demorado e caro.

IA nas redações não é necessariamente o problema

O episódio também exige uma distinção importante. Usar inteligência artificial no jornalismo não equivale automaticamente a criar falsos jornalistas.

A Canadian Association of Journalists mantém orientações específicas sobre o uso ético da IA, enquanto diversas redações canadenses já estabeleceram políticas próprias. Entre os princípios discutidos estão transparência, privacidade, segurança, supervisão humana e responsabilidade editorial.

Ferramentas generativas podem ajudar jornalistas a analisar enormes conjuntos de documentos, encontrar padrões, realizar transcrições ou acelerar tarefas repetitivas. Mas alguém continua responsável por verificar fatos e responder por aquilo que foi publicado.

É justamente essa responsabilidade que desaparece quando o repórter também é uma invenção.

O fenômeno canadense revela, portanto, uma nova dificuldade para quem lê notícias na internet. Durante anos, a principal pergunta era se uma informação era verdadeira. Agora, em alguns casos, será necessário fazer outra antes disso: quem escreveu essa matéria realmente existe?

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