Economia, segurança e custo de vida dominaram boa parte da campanha presidencial brasileira de 2026. Mas existe outra disputa, menos presente nos discursos eleitorais e com consequências que ultrapassam as fronteiras do país. O próximo presidente herdará uma Amazônia que voltou a registrar reduções importantes no desmatamento, mas continua pressionada por pecuária, mineração, ocupação ilegal e interesses econômicos. O resultado das urnas pode determinar se essa trajetória continuará.
A floresta quase não dominou a campanha, mas está no centro da eleição

Neste domingo, 4 de outubro, os brasileiros participam do primeiro turno de uma eleição presidencial apertada. Entre os principais candidatos estão o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tenta conquistar um quarto mandato não consecutivo, e o senador Flávio Bolsonaro. Pesquisas indicam a possibilidade de um segundo turno entre os dois.
Embora a Amazônia não tenha ocupado posição central na campanha, os projetos políticos associados aos dois candidatos apontam para caminhos diferentes na gestão ambiental. Isso importa especialmente porque cerca de 60% da maior floresta tropical do planeta está em território brasileiro.
O debate vai muito além da preservação de árvores. Mudanças no uso da terra e desmatamento estão entre as principais fontes brasileiras de gases de efeito estufa, enquanto a floresta armazena enormes quantidades de carbono e participa da circulação de umidade que influencia chuvas em outras regiões da América do Sul.
Em outras palavras, o presidente escolhido pelos brasileiros também terá influência sobre uma peça fundamental do sistema climático mundial.
Os números recentes mostram uma mudança importante

Os dados oficiais ajudam a entender por que esta eleição ocorre em um momento especialmente delicado.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o desmatamento consolidado na Amazônia Legal atingiu 5.731 km² em 2025, redução de 12,07% em relação aos 6.518 km² registrados em 2024.
Dados mais recentes do sistema Deter também apontam continuidade dessa tendência: os alertas de desmatamento somaram 2.874 km² entre agosto de 2025 e julho de 2026, queda de 36% e menor resultado desde o início dessa série, em 2016.
Uma análise independente do World Resources Institute chegou a uma conclusão semelhante. Em 2025, o Brasil registrou sua menor perda de floresta primária não relacionada ao fogo desde o início da série utilizada pela instituição, resultado associado, entre outros fatores, ao fortalecimento das políticas ambientais e da fiscalização desde 2023.
Isso não significa, porém, que o problema esteja resolvido.
Lula e Flávio Bolsonaro representam caminhos diferentes
O governo Lula retomou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, o PPCDAm, mecanismo que coordena ações de diferentes órgãos federais. A administração também reforçou operações de fiscalização e colocou a proteção das florestas no centro da diplomacia climática brasileira.
A meta defendida pelo governo é alcançar desmatamento líquido zero até 2030, conceito que admite alguma supressão desde que seja compensada por recuperação florestal.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, afirmou que pretende eliminar o desmatamento ilegal até 2029 e intensificar o combate aos crimes ambientais. Mas especialistas ouvidos por veículos internacionais demonstram preocupação com uma possível retomada de políticas mais favoráveis à expansão da agropecuária e da mineração.
Uma das discussões mais sensíveis envolve as terras indígenas. Bolsonaro defende permitir determinadas atividades econômicas nesses territórios mediante salvaguardas ambientais, enquanto ambientalistas alertam para o risco de aumento da pressão de mineração e outras atividades sobre áreas que desempenham papel importante na conservação.
O presidente não decidirá tudo sozinho
Mesmo uma vitória de Lula não significaria continuidade automática das políticas atuais.
O Congresso brasileiro possui forte representação ligada ao agronegócio e pode limitar ou modificar iniciativas ambientais do Executivo. Alguns estados amazônicos também adotaram medidas que enfraquecem incentivos associados à Moratória da Soja, acordo criado para impedir a compra de soja produzida em áreas recentemente desmatadas da Amazônia.
A pecuária continua sendo outro enorme desafio. A expansão das cadeias de carne está profundamente relacionada à conversão de florestas em pastagens, e sistemas completos de rastreabilidade do gado ainda enfrentam dificuldades de implementação no Brasil.
Ao mesmo tempo, comunidades amazônicas precisam de alternativas econômicas capazes de combinar conservação e geração de renda. Experiências com cacau produzido em sistemas agroflorestais, por exemplo, mostram como atividades econômicas podem recuperar áreas degradadas, embora também dependam de fiscalização para evitar novos desmatamentos.
A decisão brasileira terá consequências muito além do país
O futuro da Amazônia também está conectado à posição internacional do Brasil.
Nos últimos anos, o país voltou a assumir protagonismo nas negociações climáticas e lançou mecanismos destinados a financiar a preservação de florestas tropicais. A continuidade dessas políticas dependerá não apenas do presidente eleito, mas também de recursos internacionais, fiscalização, Congresso e governos estaduais.
Por isso, a eleição de 2026 envolve muito mais do que uma comparação entre dois candidatos.
Depois de anos de redução do desmatamento, a questão agora é saber se esses ganhos serão consolidados ou se a Amazônia entrará novamente em um período de maior pressão.
Os brasileiros decidirão nas urnas. Mas parte das consequências dessa escolha será sentida muito além delas.