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Ciência

Um planeta pode ter desaparecido do Sistema Solar primitivo e deixado marcas que ainda podemos detectar

Outros sistemas planetários possuem um tipo de mundo surpreendentemente comum que não existe ao redor do Sol. Um novo modelo propõe uma explicação radical para essa ausência.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Mercúrio, Vênus, Terra e Marte ocupam a região interna do Sistema Solar. Mais longe aparecem os gigantes gasosos e gelados. A arquitetura parece familiar, mas ganhou uma característica estranha depois que começamos a descobrir milhares de planetas ao redor de outras estrelas. Um tipo de mundo extremamente comum no Universo simplesmente não aparece por aqui. Agora, um estudo sugere que talvez ele tenha existido — e que seu desaparecimento deixou marcas até hoje.

O planeta que falta pode ter terminado dentro do próprio Sol

As chamadas superterras são planetas maiores que a Terra, mas menores que gigantes como Netuno. Elas aparecem com frequência em sistemas descobertos ao redor de outras estrelas.

Nosso Sistema Solar não possui nenhuma.

Mutlu Yıldız, astrônomo da Universidade de Ege, na Turquia, decidiu investigar uma possibilidade bastante ousada: e se uma superterra tivesse se formado durante a juventude do Sistema Solar e depois caído no Sol?

O estudo, publicado no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, não afirma ter encontrado restos de um planeta literalmente enterrados na estrela.

A pergunta é diferente: se o jovem Sol tivesse engolido uma superterra, ainda conseguiríamos detectar as consequências 4,5 bilhões de anos depois?

Para investigar isso, Yıldız acrescentou aos modelos de evolução solar uma fase em que nossa estrela recebe material rico em elementos pesados proveniente de um planeta.

Curiosamente, os modelos que melhor reproduziram algumas características observadas atualmente apontaram repetidamente para um corpo com aproximadamente cinco a dez massas terrestres.

A solução preferida ficou próxima de 5,6 massas da Terra — justamente dentro da categoria das superterras.

E existem pelo menos duas características do Sol que tornam essa hipótese particularmente interessante.

Duas pistas no interior da estrela podem guardar parte da história

Apesar de ser a estrela que conhecemos melhor, o Sol ainda apresenta pequenas discrepâncias entre aquilo que observamos e o que determinados modelos teóricos preveem.

Uma delas vem da heliossismologia, técnica que utiliza ondas que atravessam a estrela para investigar sua estrutura interna.

As medições revelam diferenças na velocidade do som logo abaixo da zona convectiva em relação ao previsto por alguns modelos solares.

A segunda pista é química: a superfície do Sol contém muito menos lítio do que seria esperado considerando a composição inicial do Sistema Solar.

Nos modelos de Yıldız, parte do material de uma superterra engolida poderia se acumular abaixo da zona convectiva, alterando composição, opacidade e estrutura interna da estrela.

Sob determinadas condições de mistura, o cenário também consegue reproduzir a forte redução de lítio observada atualmente.

Mas surge uma pergunta inevitável: um planeta não seria simplesmente vaporizado ao entrar no Sol?

Talvez não imediatamente.

Os cálculos indicam que uma superterra rochosa suficientemente compacta poderia atravessar boa parte da envoltória convectiva do jovem Sol sem perder toda a sua massa, penetrando profundamente antes de depositar seu material.

A simulação considera pressão, arrasto e ablação, embora os próprios resultados indiquem que modelos hidrodinâmicos mais completos serão necessários.

A hipótese é fascinante, mas ainda está longe de ser uma descoberta

A possibilidade de planetas terem caído no jovem Sol não surgiu agora.

Um estudo de 2016 já havia sugerido que superterras poderiam ter se formado no Sistema Solar primitivo, migrado para regiões internas através do disco de gás e finalmente desaparecido dentro da estrela.

A novidade é procurar saber se o próprio Sol ainda conserva a assinatura desse acontecimento.

Isso exige cautela.

O novo trabalho não demonstra que uma superterra realmente existiu por aqui, muito menos que tenha sido engolida. Ele mostra que esse cenário consegue reproduzir simultaneamente determinadas características solares de maneira promissora.

Também não há evidência de que o desaparecimento desse hipotético planeta tenha sido necessário para o surgimento da Terra ou da vida.

O próximo passo será procurar sinais estruturais e químicos independentes previstos pelo modelo, especialmente por meio da heliossismologia.

Se essas “impressões digitais” forem encontradas, uma das grandes peculiaridades do Sistema Solar poderia ganhar uma explicação extraordinária.

Talvez não estejamos vivendo em um sistema que nunca teve uma superterra.

Talvez ela apenas esteja no único lugar onde jamais pensamos em procurar um planeta: dentro do Sol.

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