Uma discussão sobre o horário de buscar os filhos pode rapidamente se transformar em uma troca de ofensas pelo celular. Pensando nesse problema, uma juíza argentina desenvolveu uma plataforma de inteligência artificial capaz de identificar mensagens agressivas e sugerir versões mais respeitosas antes do envio. A tecnologia pretende reduzir conflitos entre pais separados, proteger crianças e facilitar a comunicação em famílias que enfrentam disputas judiciais.
Como funciona a inteligência artificial criada pela juíza?
A ferramenta, chamada Vínculos, foi desenvolvida por María Laura Lucchini Minuzzi, responsável pelo Tribunal de Família nº 9 de Morón, na província de Buenos Aires, Argentina.
A proposta é utilizar a inteligência artificial como uma espécie de mediadora digital nas conversas entre pais separados que enfrentam conflitos frequentes.
O sistema analisa mensagens antes do envio e identifica expressões ofensivas, acusações e outras formas de comunicação que podem agravar uma discussão.
Quando encontra conteúdo potencialmente agressivo, a plataforma sugere uma reformulação mais objetiva e respeitosa.
Por exemplo, uma reclamação sobre o atraso na entrega de uma criança poderia ser transformada em uma mensagem que solicita o cumprimento dos horários combinados, sem insultos ou ataques pessoais.
A decisão final continua sendo do usuário, que pode aceitar a sugestão, modificar o texto ou enviar a mensagem original.
Aplicativo pretende substituir o WhatsApp em conflitos familiares

Diferentemente de um corretor de mensagens convencional, Vínculos foi projetado como uma plataforma própria de comunicação.
A ideia é que famílias envolvidas em processos judiciais de alta complexidade utilizem o aplicativo no lugar do WhatsApp para tratar de assuntos relacionados aos filhos.
Segundo informações divulgadas pela Cadena 3 Argentina, a ferramenta classifica os níveis de hostilidade das mensagens como baixos, médios ou altos.
Além da troca de mensagens, a plataforma prevê recursos para organizar calendários compartilhados, despesas e informações escolares.
O objetivo é diminuir desentendimentos cotidianos e evitar que crianças sejam utilizadas como intermediárias entre adultos que não conseguem conversar diretamente.
Conversas poderão ser utilizadas como provas judiciais
Uma das características mais importantes do projeto é o armazenamento das mensagens.
O aplicativo foi desenvolvido para conservar tanto o texto original quanto a versão sugerida pela inteligência artificial e a mensagem efetivamente enviada.
Depois do envio, os registros não poderão ser alterados pelos usuários.
As conversas também poderão ser exportadas em PDF para eventual apresentação em processos judiciais, respeitando os procedimentos estabelecidos.
Isso poderia reduzir disputas envolvendo capturas de tela incompletas ou mensagens apresentadas fora de contexto.
Entretanto, a possibilidade de armazenar conversas familiares sensíveis também exige cuidados rigorosos com privacidade, segurança digital e acesso às informações.
A magistrada afirma que os diálogos privados não serão utilizados para treinar o sistema de inteligência artificial.
A tecnologia será gratuita para as famílias?

A intenção de Lucchini é disponibilizar a plataforma gratuitamente às famílias participantes.
Segundo a juíza, soluções semelhantes já existem em outros países, mas frequentemente exigem assinaturas pagas.
A gratuidade poderia beneficiar pessoas que não conseguem pagar por aplicativos especializados ou acompanhamento terapêutico particular.
O desenvolvimento contou com apoio técnico ligado à Universidade Champagnat e colaboração do engenheiro de software Pablo Cabezas.
A magistrada também realizou formação acadêmica em inteligência artificial em instituições argentinas e internacionais.
Quando o aplicativo estará disponível?
Apesar de já ter sido desenvolvido, o Vínculos ainda não foi liberado para utilização pública.
O projeto aguarda autorização da Suprema Corte de Justiça da província de Buenos Aires para iniciar uma experiência piloto.
Até agora, as demonstrações foram realizadas com situações fictícias, sem aplicação regular em processos reais.
A juíza elaborou um protocolo de 30 artigos que prevê consentimento informado dos participantes e de seus advogados.
Caso receba aprovação, o sistema poderá ser testado com famílias que enfrentam conflitos judiciais relacionados à criação dos filhos.
Inteligência artificial pode realmente reduzir conflitos?
A proposta apresenta uma aplicação diferente da inteligência artificial: em vez de acelerar tarefas ou produzir conteúdo, a tecnologia tenta melhorar a qualidade das relações humanas.
Entretanto, ainda não existem resultados de testes com famílias reais que comprovem sua eficácia.
Também é importante distinguir discussões cotidianas de situações de violência doméstica, ameaças ou controle coercitivo. Nesses casos, uma ferramenta de reformulação de mensagens não substitui medidas de proteção, acompanhamento profissional ou intervenção judicial.
A inovação está em tentar interromper a escalada verbal antes que uma mensagem seja enviada, preservando a possibilidade de diálogo e mantendo a responsabilidade pelas decisões nas mãos das pessoas.
Se os testes demonstrarem resultados positivos, a experiência argentina poderá abrir caminho para aplicações semelhantes em outros sistemas judiciais, inclusive no Brasil.