O Vale do Silício percebeu que tem um problema de imagem. Reuniões de conselhos municipais antes praticamente vazias agora recebem moradores dispostos a protestar contra novos data centers e sistemas de vigilância. Empresas tentam melhorar sua comunicação, contratar especialistas em relações comunitárias e explicar os benefícios de seus projetos. Mas talvez o problema não seja apenas a mensagem.
Data centers viraram um problema político
A rejeição ganhou tamanha dimensão que até Donald Trump reconheceu recentemente que os data centers precisam de uma pequena “ajuda de relações públicas”.
Empresas também começaram a reagir. A OpenAI abriu vagas para profissionais de relações comunitárias em Ohio e na Geórgia, enquanto a Meta procura especialistas capazes de construir relações com comunidades próximas aos seus projetos.
O argumento tradicional é conhecido: grandes instalações tecnológicas geram empregos, investimentos e arrecadação de impostos.
Trump defendeu justamente essa ideia ao afirmar que, se fosse governador ou prefeito, gostaria de receber um data center em sua comunidade.
O problema é que muitos moradores já ouviram promessas semelhantes.
A promessa dos milhares de empregos perdeu força
Wisconsin oferece um exemplo particularmente marcante.
Anos atrás, a Foxconn prometeu construir uma enorme fábrica de telas LCD que criaria aproximadamente 13 mil empregos. O estado chegou a oferecer bilhões de dólares em incentivos fiscais.
O projeto acabou ficando muito abaixo das expectativas. Atualmente, emprega cerca de 1.100 pessoas, e muitas das vagas nem sequer correspondem ao trabalho industrial originalmente prometido.
Os data centers também apresentam uma dinâmica que alimenta essa desconfiança.
A construção de uma instalação pode mobilizar centenas ou milhares de trabalhadores temporariamente. Depois que o complexo começa a funcionar, porém, o número de funcionários permanentes costuma ser muito menor e pode ficar abaixo de 100 pessoas.
Por isso, promessas de grandes impactos econômicos nem sempre convencem os moradores.
A Flock Safety enfrenta uma reação parecida
O mesmo problema aparece no setor de vigilância.
A Flock Safety espalhou leitores automáticos de placas por inúmeras comunidades americanas. As câmeras conseguem registrar veículos e criar enormes bancos de dados utilizados por departamentos policiais.
Após críticas e episódios de destruição de equipamentos, a empresa anunciou mudanças em suas políticas.
Entre elas estão a redução do período padrão de armazenamento de informações e alterações na maneira como dados podem ser compartilhados entre departamentos policiais.
As mudanças vieram depois de relatos de uso indevido dessas ferramentas, incluindo casos em que policiais teriam utilizado sistemas de leitura de placas para localizar pessoas conhecidas.
Apesar das diferenças, a reação contra Flock e contra os data centers compartilha um elemento fundamental.
O verdadeiro problema pode ser a falta de confiança
Empresas de tecnologia frequentemente interpretam a resistência como consequência de desinformação.
Assim, a solução parece óbvia: apresentar números melhores, explicar como a tecnologia funciona e corrigir informações exageradas.
O consumo de água dos data centers é um bom exemplo.
Algumas estimativas alarmantes divulgadas sobre essas instalações podem exagerar seu impacto. Entretanto, explicar que determinado data center utilizará menos água do que os moradores imaginavam não necessariamente elimina a oposição.
Para uma comunidade preocupada com seu lago ou reservatório local, a discussão pode ser muito mais simples: ela não quer que aquela água seja utilizada pelo projeto.
Nesse cenário, números mais precisos não resolvem a questão.
Acordos secretos pioraram a situação
Outro elemento importante é a maneira como alguns projetos foram negociados.
Empresas responsáveis por data centers utilizaram acordos de confidencialidade com autoridades municipais durante determinadas negociações.
Na prática, isso pode impedir representantes públicos de compartilhar detalhes com seus próprios eleitores enquanto os projetos ainda estão sendo discutidos.
Para moradores, a sensação é de que decisões capazes de transformar suas cidades estão sendo tomadas a portas fechadas.
Essa percepção é particularmente problemática porque políticos locais costumam manter relações muito mais próximas com seus eleitores do que autoridades nacionais.
Quando um conselho municipal aprova um enorme projeto sem uma discussão pública considerada adequada, a decisão pode ser interpretada como uma traição.
Em algumas cidades, essa insatisfação já alimentou movimentos para retirar políticos de seus cargos.
Relações públicas talvez não sejam suficientes
É por isso que contratar profissionais de comunicação pode não resolver o problema.
A resistência aos data centers e aos sistemas de vigilância não depende apenas de convencer moradores de que determinadas estatísticas estão erradas.
Existe uma questão mais profunda sobre quem decide o futuro das comunidades.
Quando câmeras são instaladas apesar da resistência popular ou grandes instalações industriais são aprovadas em processos considerados pouco transparentes, cresce a impressão de que empresas possuem mais influência sobre os governos locais do que os próprios moradores.
Nesse contexto, melhorar o discurso pode até produzir resultados temporários.
Mas o Vale do Silício enfrenta um problema que nenhuma campanha publicitária consegue resolver sozinha: recuperar a confiança de pessoas que passaram a acreditar que as decisões já foram tomadas antes mesmo de elas entrarem na sala.