A corrida global pela inteligência artificial está redefinindo profissões, empresas e até governos. Mas, por trás dos avanços tecnológicos, uma desigualdade antiga continua presente: a baixa participação feminina nos espaços onde essas ferramentas são criadas. Dados recentes mostram que as mulheres representam menos de um quarto dos pesquisadores de IA na América Latina e no Caribe. Ao mesmo tempo, elas aparecem entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos da automação, levantando preocupações sobre diversidade, inclusão e o futuro do trabalho.
Uma presença feminina ainda limitada na pesquisa em IA

De acordo com o Índice Latino-Americano de Inteligência Artificial (ILIA), elaborado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, apenas 23,6% dos pesquisadores que atuam com inteligência artificial na região são mulheres.
A Argentina aparece entre os países com maior participação feminina, alcançando 28%, atrás apenas do Panamá, com 30%, e de Cuba, com 32%.
Embora os números indiquem avanços em relação a décadas anteriores, especialistas alertam que a representatividade ainda está longe de refletir a participação das mulheres na sociedade e no mercado de trabalho.
Essa disparidade se torna ainda mais relevante porque a inteligência artificial está cada vez mais presente em decisões que afetam diretamente a vida profissional das pessoas.
Mulheres enfrentam maior risco de automação
Além da baixa presença na pesquisa, estudos apontam outro desafio.
Segundo o relatório Do dado à ação: IA, trabalho e gênero na Argentina, publicado pela organização Géneras, as mulheres enfrentam um risco 1,5 vez maior de terem suas funções impactadas ou substituídas por sistemas de inteligência artificial quando comparadas aos homens.
A explicação está ligada ao perfil das ocupações mais vulneráveis à automação.
Entre elas estão atividades administrativas, processamento de dados, atendimento ao cliente, suporte operacional e diversas funções da chamada economia de plataformas digitais, incluindo tradução, redação, transcrição e moderação de conteúdo.
Muitas dessas áreas possuem uma forte presença feminina, tornando os impactos da automação potencialmente mais significativos para elas.
O problema dos vieses nos algoritmos

Para especialistas, a questão não se resume apenas ao número de mulheres atuando no setor.
A presidente da Géneras, Micaela Sánchez Malcolm, argumenta que sistemas desenvolvidos majoritariamente por homens tendem a reproduzir vieses já existentes na sociedade.
Esses vieses podem aparecer em ferramentas utilizadas para recrutamento de profissionais, avaliação de desempenho, distribuição de incentivos e até definição salarial.
Quando os algoritmos são treinados com dados históricos que refletem desigualdades anteriores, eles podem reforçar padrões discriminatórios em vez de corrigi-los.
A antropóloga Agustina Kupsch, da organização Panóptico Cultural, amplia a discussão ao afirmar que muitos sistemas de IA são construídos com bases de dados que privilegiam determinadas populações, idiomas e contextos culturais.
Segundo ela, o debate não deve se limitar à inclusão de mais mulheres na área, mas também questionar quais valores e perspectivas estão sendo incorporados às tecnologias.
Educação e mercado de trabalho precisam estar mais conectados
Especialistas defendem que aumentar a participação feminina na inteligência artificial exige ações de longo prazo.
Para Lucía Mauritzen, diretora da Chicas en Tecnología, o desafio começa ainda na infância e acompanha toda a trajetória educacional e profissional das meninas.
Ela destaca a importância de criar experiências práticas, programas de mentoria e oportunidades de inserção no mercado para estimular o interesse por tecnologia desde cedo.
A aproximação entre escolas, universidades e empresas também aparece como uma das principais estratégias para ampliar a participação feminina em áreas relacionadas à ciência de dados, programação e inteligência artificial.
Auditoria algorítmica e diversidade caminham juntas
Outro ponto considerado fundamental é a auditoria dos sistemas de IA.
Especialistas defendem que algoritmos devem ser constantemente avaliados para identificar possíveis vieses e corrigir desigualdades que possam surgir durante seu funcionamento.
No entanto, há consenso de que auditorias sozinhas não resolvem o problema.
Criar equipes mais diversas, ampliar o acesso à formação tecnológica e garantir que mulheres participem das decisões estratégicas sobre o desenvolvimento dessas ferramentas são medidas consideradas igualmente importantes.
À medida que a inteligência artificial ganha espaço em praticamente todos os setores da economia, a discussão sobre gênero deixa de ser apenas uma questão de representatividade. Ela passa a ser também uma questão sobre quem constrói as tecnologias que moldarão o futuro — e quem terá voz para decidir como elas serão utilizadas.
[ Fonte: Ámbito ]