A Meta deu mais um passo para abandonar a checagem profissional de fatos em suas plataformas. A empresa começou a testar as Notas da Comunidade em 16 países de língua espanhola da América Latina, seguindo uma estratégia semelhante à adotada anteriormente nos Estados Unidos.
O sistema permite que os próprios usuários adicionem contexto a publicações potencialmente enganosas. A proposta é substituir gradualmente o programa no qual organizações jornalísticas e agências especializadas verificam conteúdos publicados nas redes sociais.
A decisão, porém, já enfrenta críticas de entidades de checagem.
Argentina e outros 15 países participam dos testes

A nova fase inclui Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.
O Brasil ficou de fora.
O país, maior mercado latino-americano das plataformas da Meta e com eleições presidenciais previstas para outubro, não faz parte dessa etapa inicial.
Segundo a empresa, a implementação completa acontecerá apenas quando houver confiança de que o sistema funciona corretamente em cada mercado.
A mudança não será imediata. Primeiro, a Meta testará o funcionamento das Notas da Comunidade. Depois, começará a publicá-las e reduzirá gradualmente o programa independente de checagem.
Como funcionam as Notas da Comunidade
O sistema é inspirado no modelo utilizado pelo X, de Elon Musk.
Em vez de depender exclusivamente de organizações profissionais, usuários das próprias plataformas podem acrescentar informações e contexto a determinadas publicações.
A Meta define as Notas da Comunidade como uma ferramenta colaborativa para contextualizar conteúdos no Facebook, Instagram e Threads.
O programa começou nos Estados Unidos em janeiro de 2025.
Segundo a companhia, mais de 1,4 milhão de colaboradores já participam da iniciativa e produziram mais de 50 mil notas desde seu lançamento.
A ideia é aproveitar avaliações de pessoas com diferentes perspectivas para determinar quais explicações são consideradas úteis.
Especialistas dizem que o sistema não é suficiente sozinho
A expansão foi criticada pela Rede Internacional de Verificação de Dados (IFCN).
Para a organização, depender apenas das Notas da Comunidade não seria suficiente para reduzir os efeitos de informações falsas potencialmente prejudiciais.
Phil Chetwynd, diretor de informação da AFP, também defendeu que os dois modelos não deveriam ser vistos como alternativas incompatíveis.
Segundo ele, as Notas da Comunidade podem funcionar melhor quando seus colaboradores conseguem utilizar jornalismo verificado e fontes confiáveis para produzir as explicações.
Na prática, a proposta seria combinar participação dos usuários com trabalho jornalístico profissional.
Para Chetwynd, o mais importante não é simplesmente aumentar o número de notas publicadas, mas garantir a qualidade das informações apresentadas.
A mudança acontece em um momento político delicado
A decisão da Meta chega enquanto as redes sociais ocupam um espaço cada vez maior nas campanhas eleitorais e na comunicação política da América Latina.
Candidatos e governos utilizam plataformas digitais para falar diretamente com milhões de pessoas, divulgar propostas e construir suas próprias narrativas sem depender dos veículos tradicionais de comunicação.
Ao mesmo tempo, essas redes também podem facilitar a circulação de desinformação, propaganda e campanhas coordenadas.
Em El Salvador, por exemplo, investigações identificaram o uso de chamadas “fazendas de trolls”, estruturas criadas para produzir interações artificiais e ampliar determinadas mensagens políticas.
O problema não está limitado à América Latina.
Políticos de diferentes países vêm criticando sistemas de moderação e checagem de fatos, muitas vezes argumentando que essas ferramentas apresentam vieses ou interferem excessivamente no debate público.
Meta está mudando sua estratégia contra a desinformação

Durante anos, o Facebook trabalhou com organizações independentes de checagem para avaliar conteúdos suspeitos.
A AFP participa desse programa em mais de 26 idiomas, enquanto dezenas de veículos de comunicação ao redor do mundo foram contratados para realizar verificações.
Nos Estados Unidos, entretanto, a Meta decidiu abandonar esse modelo e apostar nas Notas da Comunidade.
Agora, a empresa começa a preparar uma transformação semelhante em parte da América Latina.
Angie Holan, diretora da IFCN, argumenta que o sistema colaborativo pode ser útil, mas não deveria funcionar sozinho quando estão em jogo informações falsas capazes de causar danos.
O futuro da checagem nas redes está mudando
A discussão envolve duas abordagens bastante diferentes.
De um lado, está a checagem profissional, realizada por jornalistas e organizações especializadas que investigam informações e apresentam evidências.
Do outro, existe um sistema descentralizado no qual a própria comunidade ajuda a acrescentar contexto às publicações.
A Meta aposta cada vez mais na segunda alternativa.
Mas a transição latino-americana será gradual e dependerá dos resultados obtidos nos testes.
Por enquanto, a empresa ainda não eliminou completamente a verificação profissional na região.
O experimento nos 16 países servirá justamente para determinar se as Notas da Comunidade conseguem assumir uma responsabilidade que, durante anos, esteve principalmente nas mãos de jornalistas e organizações especializadas em checagem de fatos.
[ Fonte: France24 ]