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Ciência

Não é apenas a ansiedade: a forma como reagimos a ela pode mudar tudo, aponta estudo

Sentir ansiedade faz parte da natureza humana, mas uma pesquisa sugere que aquilo que fazemos diante desse desconforto pode ter um peso surpreendente no desenvolvimento de transtornos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A ansiedade funciona como um sistema de alarme criado para antecipar perigos e nos manter seguros. O problema começa quando esse mecanismo passa a controlar decisões, comportamentos e rotinas. Uma nova pesquisa indica que a intensidade das sensações ansiosas pode ser apenas uma parte dessa história. Outro elemento, relacionado à maneira como respondemos ao desconforto, mostrou uma associação igualmente importante com o histórico de transtornos de ansiedade.

A ansiedade surgiu para nos proteger, não para nos atormentar

Não é apenas a ansiedade: a forma como reagimos a ela pode mudar tudo, aponta estudo
© Pexels

Do ponto de vista evolutivo, sentir ansiedade é uma vantagem. Enquanto o medo pode fazer alguém fugir de um predador, a ansiedade permite antecipar onde esse animal poderia estar escondido e evitar o perigo antes mesmo de encontrá-lo.

Nosso cérebro funciona, nesse sentido, como um detector de fumaça extremamente cauteloso. É biologicamente menos arriscado disparar alguns alarmes falsos do que ignorar uma ameaça verdadeira. Por isso, tendemos naturalmente a detectar possíveis perigos e procurar segurança.

Na vida moderna, porém, esse mecanismo pode produzir situações paradoxais. Uma pessoa preocupada em perder o emprego, por exemplo, pode revisar obsessivamente cada tarefa. O excesso de conferências aumenta o cansaço e pode até favorecer justamente os erros que ela desejava evitar.

Foi a partir desse paradoxo que Max Z. Roberts, pesquisador de psicologia da Universidade de Albany e da Universidade Duke, e seus colegas investigaram se a passagem da ansiedade normal para um transtorno clínico poderia estar associada não somente à intensidade do sentimento, mas também à reação da pessoa diante dele.

O trabalho, publicado no Journal of Clinical Psychology, concentrou-se em um conceito conhecido como inflexibilidade psicológica.

Fugir do desconforto sempre pode acabar alimentando o problema

A inflexibilidade psicológica aparece quando uma pessoa tem dificuldade para adaptar seu comportamento diante de pensamentos e emoções desagradáveis.

Imagine alguém que começa a ficar nervoso em uma festa. Uma resposta rígida poderia ser abandonar imediatamente o lugar sempre que essa sensação surgisse. Uma resposta psicologicamente flexível permitiria reconhecer o nervosismo e, ainda assim, permanecer no evento caso isso estivesse alinhado aos objetivos pessoais daquela pessoa.

A diferença é importante porque situações aparentemente muito distintas podem compartilhar um mecanismo semelhante.

Não é apenas a ansiedade: a forma como reagimos a ela pode mudar tudo, aponta estudo
© Kelly Sikkema – Unsplash

Uma obsessão relacionada à limpeza e um medo intenso de altura, por exemplo, parecem problemas completamente diferentes. Em ambos os casos, porém, determinados comportamentos podem funcionar como tentativas rígidas de escapar de ameaças percebidas.

Estudos anteriores já haviam identificado relações entre comportamentos de evitação e ansiedade clínica. Entretanto, alguns questionários utilizados nessas pesquisas foram criticados por misturar inflexibilidade psicológica com sofrimento emocional de maneira mais ampla.

Para reduzir esse problema, Roberts e sua equipe utilizaram uma ferramenta de avaliação mais recente e específica.

Dois grupos diferentes apresentaram praticamente o mesmo padrão

A primeira etapa contou com 265 adultos recrutados por redes sociais e organizações profissionais de saúde mental.

Os participantes responderam questionários online sobre sintomas recentes de ansiedade, níveis de inflexibilidade psicológica e diagnósticos de transtornos de ansiedade ou transtorno obsessivo-compulsivo recebidos ao longo da vida.

Como esperado, sintomas de ansiedade mais intensos estavam associados a uma probabilidade maior de relatar algum diagnóstico.

Mas surgiu um resultado particularmente interessante.

Mesmo depois de os pesquisadores controlarem estatisticamente a intensidade dos sintomas, a inflexibilidade psicológica continuou fortemente associada ao histórico de transtornos. No grupo comunitário, cada aumento de um ponto na escala utilizada foi associado a uma probabilidade quase três vezes maior de relatar pelo menos um diagnóstico.

Também apareceu uma associação com a presença simultânea de múltiplos transtornos.

Os pesquisadores então repetiram o procedimento com 853 estudantes universitários de uma grande instituição do nordeste dos Estados Unidos.

Apesar das diferenças de idade e perfil entre as amostras, o resultado geral se repetiu: pessoas que relatavam respostas mais rígidas e evitativas diante do sofrimento interno também apresentavam maior probabilidade de histórico de ansiedade clínica, independentemente da intensidade recente dos sintomas.

O estudo encontrou associações importantes, mas não prova causa e efeito

Não é apenas a ansiedade: a forma como reagimos a ela pode mudar tudo, aponta estudo
© Pexels

A pesquisa também identificou diferenças demográficas. Participantes que se identificavam como mulheres e brancos apresentaram maior probabilidade de relatar diagnósticos de transtornos de ansiedade, mesmo após alguns ajustes estatísticos.

Os próprios pesquisadores alertam, porém, que receber um diagnóstico não é necessariamente uma medida objetiva de quem sofre mais.

Acesso a profissionais de saúde mental, diferenças culturais na procura por ajuda e possíveis vieses durante avaliações clínicas podem influenciar quem recebe um diagnóstico formal.

Há outra limitação fundamental. Os dados foram coletados em um único momento. Portanto, não é possível determinar se a inflexibilidade psicológica contribui para o desenvolvimento de transtornos ou se conviver com ansiedade clínica torna uma pessoa progressivamente mais rígida diante das próprias emoções.

Além disso, os diagnósticos foram relatados pelos próprios participantes, sem confirmação por entrevistas clínicas ou prontuários médicos.

A descoberta pode mudar o foco de como lidamos com a ansiedade

Os resultados abrem uma possibilidade interessante para futuras pesquisas: talvez reduzir a ansiedade não precise ser o único objetivo das intervenções.

Aprender a responder de maneira mais flexível às sensações desagradáveis também poderia ser importante.

Abordagens como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) já trabalham justamente nessa direção. Em vez de estabelecer que pensamentos ou sentimentos desconfortáveis precisam desaparecer antes que a pessoa possa seguir sua vida, a proposta envolve desenvolver maior flexibilidade comportamental diante deles.

Isso não significa simplesmente suportar qualquer sofrimento ou ignorar sintomas que exigem atenção profissional. A questão é compreender melhor a relação entre sentir ansiedade e organizar toda a vida em torno da tentativa de evitá-la.

Estudos futuros com acompanhamento prolongado e avaliações clínicas poderão esclarecer qual é a direção dessa relação.

Por enquanto, a pesquisa acrescenta uma perspectiva relevante: duas pessoas podem experimentar níveis semelhantes de ansiedade e, ainda assim, relacionar-se de maneiras muito diferentes com aquilo que sentem.

Talvez compreender essa diferença seja uma peça importante para explicar por que um sistema de proteção presente em todos nós pode, em determinadas circunstâncias, transformar-se em algo capaz de limitar profundamente a vida cotidiana.

[Fonte: PsyPost]

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