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Navios presos no Estreito de Ormuz podem espalhar espécies invasoras pelo mundo

Centenas de embarcações paradas durante meses no Golfo podem ter se transformado em verdadeiros viveiros de organismos marinhos. Quando voltarem a navegar, elas poderão transportar espécies invasoras para portos de vários continentes.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O fechamento do Estreito de Ormuz pode estar criando uma ameaça ambiental que vai muito além da região. Um grupo internacional de biólogos marinhos alerta que navios imobilizados por longos períodos podem desencadear um evento de “superpropagação” de espécies marinhas invasoras quando o tráfego marítimo for retomado.

Segundo um relatório publicado na revista Biological Invasions, cerca de 1.500 navios ficaram retidos no Golfo Pérsico desde fevereiro. Outras centenas de embarcações permanecem no Golfo de Omã.

O problema é que um navio parado não permanece biologicamente vazio por muito tempo.

Cascos de navios podem virar verdadeiros recifes

Corais
© q u i n g u y e n – Unsplash

Quando uma embarcação fica imóvel, bactérias e outros microrganismos começam a colonizar sua superfície. Eles formam uma fina camada conhecida como biofilme.

Depois aparecem organismos maiores. Esporos de algas e larvas de invertebrados, como cracas, mexilhões e vermes marinhos, encontram no casco uma superfície perfeita para crescer.

Esse processo é chamado de bioincrustação, ou biofouling.

A situação no Golfo Pérsico é especialmente favorável porque grande parte do fundo marinho da região é formada por areia, lama e sedimentos. Superfícies rígidas são relativamente escassas.

Por isso, enormes estruturas artificiais como os cascos dos navios podem se transformar rapidamente em locais de colonização.

Em condições normais, os navios da região costumam permanecer nos portos por apenas alguns dias. Pesquisadores apontam que períodos superiores a dez dias já podem favorecer um acúmulo significativo de organismos.

Agora, muitas embarcações estão paradas há meses.

Cientistas descrevem um cenário quase perfeito para invasões

Para Mario Tamburri, ecólogo marinho da Universidade de Maryland e principal autor do estudo, a combinação de fatores é particularmente preocupante.

Além do enorme número de embarcações, o período de imobilização coincidiu com o aumento sazonal da temperatura da água.

Águas mais quentes estimulam diversos organismos marinhos a crescer e se reproduzir.

Um exemplo citado pelos pesquisadores é a Amphibalanus improvisus, uma espécie de craca altamente adaptável que já se espalhou por diferentes regiões do planeta através do transporte marítimo.

Em temperaturas próximas de 30 °C, cada adulto pode liberar dezenas de larvas diariamente. Considerando a quantidade de navios e o tempo de permanência, milhões de larvas podem ter sido liberadas na região.

O risco aparece quando essas embarcações voltarem a circular.

Navios podem transportar organismos para vários continentes

O Golfo ocupa uma posição estratégica nas principais rotas marítimas internacionais. Os navios que passam pela região seguem depois para portos da Ásia, Europa, África e outras partes do mundo.

Organismos aderidos aos cascos podem viajar junto com eles.

Quando chegam a um novo ambiente, algumas espécies não conseguem sobreviver. Outras, porém, encontram condições favoráveis e começam a se reproduzir.

É nesse momento que uma espécie transportada pode se transformar em invasora.

Esses organismos podem competir com espécies nativas, alterar ecossistemas, prejudicar atividades pesqueiras e afetar a aquicultura. Em situações mais graves, também podem provocar extinções locais.

Alguns organismos ainda conseguem bloquear sistemas industriais que utilizam água do mar, incluindo estruturas de refrigeração de usinas.

O problema também aumenta o consumo de combustível

Um navio misterioso, um cabo cortado e suspeitas que só aumentam
© Pexels

A bioincrustação não representa apenas um risco ambiental. Ela também prejudica os próprios navios.

Quanto maior a quantidade de organismos acumulados no casco, maior é a resistência da embarcação ao se deslocar pela água.

Até mesmo uma camada de biofilme microbiano pode elevar o consumo de combustível entre 2% e 5%, segundo Tamburri.

Quando a incrustação é intensa e inclui cracas e mexilhões, esse aumento pode chegar a aproximadamente 25%.

Navios normalmente utilizam tintas anti-incrustantes com substâncias capazes de dificultar a fixação desses organismos. O sistema funciona melhor quando as embarcações estão navegando regularmente.

Após meses de imobilização, porém, a proteção pode não ser suficiente.

Quais portos estão mais expostos

O estreito de Ormuz reacende temores de crise energética mundial
© YouTube

Os pesquisadores analisaram fatores como rotas marítimas, duração das viagens e condições ambientais para identificar destinos potencialmente vulneráveis.

Entre os locais destacados estão Jidá, na Arábia Saudita; Mumbai, na Índia; Colombo, no Sri Lanka; Singapura; Alexandria, no Egito; Pireu, na Grécia; Algeciras, na Espanha; e Roterdã, nos Países Baixos.

Portos com águas quentes e salinidade semelhante às condições encontradas no Golfo podem apresentar riscos ainda maiores.

Além disso, os cientistas alertam que organismos invasores podem transportar parasitas e agentes patogênicos.

As temperaturas elevadas do Golfo também poderiam favorecer organismos mais tolerantes ao calor. Caso sejam transportados para outros ecossistemas, algumas dessas espécies poderiam ter vantagens à medida que os oceanos ficam mais quentes.

Limpar milhares de navios será um desafio

Em um cenário ideal, as embarcações deveriam ter seus cascos limpos antes de deixar a região.

Na prática, isso seria extremamente difícil.

São muitos navios de grande porte, e uma limpeza adequada precisa impedir que os organismos removidos simplesmente sejam liberados novamente na água.

Também é necessário evitar a dispersão das tintas anti-incrustantes, que podem conter substâncias tóxicas e partículas de plástico.

Existem tecnologias robóticas capazes de limpar os cascos e recolher os resíduos. Porém, a infraestrutura disponível na região pode não ser suficiente para atender rapidamente uma frota tão grande.

Por isso, os pesquisadores consideram fundamental uma resposta internacional coordenada.

Portos que receberem navios vindos do Golfo poderão precisar intensificar inspeções, monitoramento e procedimentos de limpeza.

Os cientistas acreditam que a retomada do tráfego provavelmente levará organismos não nativos para outras regiões. A grande dúvida é quantos deles conseguirão se estabelecer e causar impactos.

A diferença entre um problema controlável e um evento global de disseminação de espécies invasoras pode depender, portanto, da rapidez e da coordenação da resposta internacional quando esses navios finalmente voltarem a navegar.

 

[ Fonte: BBC ]

 

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