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Ciência

Nem cimento, nem tijolo comum: os novos materiais que prometem reinventar a construção a partir de resíduos

Resíduos agrícolas, bactérias, fungos e sobras da indústria estão dando origem a uma nova geração de materiais de construção mais leves, resistentes e muito menos agressivos ao meio ambiente.
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Tempo de leitura: 5 minutos

A construção civil convive há décadas com o mesmo dilema: como continuar erguendo casas, prédios e cidades sem ampliar ainda mais o impacto ambiental do setor. O problema é grande, porque materiais tradicionais como cimento, concreto e tijolo cerâmico estão entre os maiores responsáveis por emissões e consumo de recursos naturais. Agora, uma nova leva de soluções começa a ganhar força ao transformar resíduos e organismos vivos em blocos, placas e tijolos capazes de mudar essa equação.

Da Colômbia vêm blocos leves feitos para reduzir o impacto ambiental

Nem cimento, nem tijolo comum: os novos materiais que prometem reinventar a construção a partir de resíduos
© YouTube

Sustentabilidade, eficiência e acessibilidade deixaram de ser conceitos periféricos e passaram a ocupar o centro das discussões sobre o futuro da construção civil. Isso ajuda a explicar por que empresas, universidades e arquitetos de diferentes países vêm tentando reinventar até os materiais mais básicos de uma obra. E um dos exemplos mais interessantes dessa corrida por alternativas está na Colômbia.

Lá, a empresa Green Solutions desenvolveu os blocos Plock, uma família de peças produzidas com materiais reciclados e fibras naturais, pensadas para substituir parte dos sistemas tradicionais de alvenaria. A proposta é simples de entender, mas ambiciosa na prática: oferecer um material resistente, leve e ecológico, capaz de reduzir o peso da construção e, ao mesmo tempo, diminuir a pegada ambiental da obra.

Os blocos foram criados em três versões. Uma delas simula o tijolo comum e pode ser usada em boa parte da construção. Outra foi projetada para cantos e divisórias. A terceira atende acabamentos de muros e a formação de vãos para portas e janelas. Além disso, o sistema permite diferentes tipos de acabamento final, como estuque e revestimento cerâmico, o que amplia as possibilidades de uso sem exigir uma mudança radical na estética da obra.

Segundo a empresa, a diferença aparece também no peso. Um metro quadrado de parede feito com esse sistema pesa 21 quilos, enquanto o equivalente em tijolo cerâmico tradicional chega a 173 quilos. Na prática, isso representa 152 quilos a menos por metro quadrado. A Green Solutions também afirma que o material dispensa argamassa e enchimentos em várias aplicações, o que pode reduzir em cerca de 50% o consumo de outros insumos na construção.

Os ganhos ambientais são o principal argumento do projeto. De acordo com a empresa, a pegada de carbono do material pode ser até 97% menor que a de um tijolo tradicional de argila, enquanto a pegada hídrica cai 90%. Há ainda um aspecto social importante: por serem leves, os blocos podem ser transportados com mais facilidade até áreas remotas ou regiões com infraestrutura limitada. Desde 2016, a companhia afirma ter participado da construção de mais de 200 moradias com esse sistema.

Caña de açúcar, bactérias e biocimento entram na disputa pelo futuro das obras

Nem cimento, nem tijolo comum: os novos materiais que prometem reinventar a construção a partir de resíduos
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Se existe um vilão recorrente nas discussões sobre sustentabilidade na construção, ele atende pelo nome de cimento. O motivo é conhecido: sua cadeia produtiva está entre as mais intensivas em carbono do planeta. O concreto, que combina cimento, água, areia e brita, responde sozinho por uma parcela expressiva das emissões globais de dióxido de carbono. Por isso, qualquer alternativa que consiga manter desempenho estrutural com impacto menor desperta atenção imediata.

É nesse cenário que entra o Sugarcrete, um material criado a partir de resíduos da cana-de-açúcar, especialmente o bagaço. A escolha não é aleatória. A cana gera um dos maiores volumes de resíduos agrícolas do mundo, estimados em cerca de 2 bilhões de toneladas por ano. Em vez de tratar esse excedente apenas como descarte, pesquisadores decidiram transformá-lo em matéria-prima para a construção.

O projeto foi desenvolvido por arquitetos da Universidade do Leste de Londres, em parceria com a empresa britânica Tate & Lyle Sugars e o escritório de arquitetura Grimshaw. O resultado foi um material com emissões de carbono até 20 vezes menores do que as do concreto convencional, além de ser cerca de cinco vezes mais leve e mais barato de produzir. O Sugarcrete pode ser usado em painéis de isolamento, blocos leves de carga e lajes estruturais para pisos e coberturas, abrindo espaço para aplicações que vão muito além de um experimento de laboratório.

Outra frente promissora vem do uso de bactérias e biocimento. Um exemplo é o BioBasedTiles, considerado o primeiro ladrilho e tijolo de base biológica cultivado com ajuda de microrganismos. O projeto foi desenvolvido em colaboração com a startup americana Biomason e aposta em um processo inspirado em corais e ecossistemas marinhos. Em vez de depender de fornos de alta temperatura e processos intensivos em energia, o material é curado em 72 horas à temperatura ambiente.

Essa mudança de rota faz diferença. O biocimento usado na solução foi pensado para reduzir emissões e, segundo os desenvolvedores, o desempenho do produto seco supera o de revestimentos produzidos com concreto convencional. Em um setor acostumado a associar inovação a maquinário pesado e processos caros, a ideia de “cultivar” componentes de construção com ajuda de bactérias soa quase futurista. Mas ela mostra o tamanho da transformação em curso.

Na Argentina, o descarte da cerveja vira tijolo biológico com ajuda de fungos

A busca por materiais menos agressivos ao meio ambiente também chegou à Argentina por um caminho bastante original. Em Mar del Plata, a arquiteta Juliana Lareu decidiu investigar como criar um tijolo biológico que fosse ao mesmo tempo resistente, biodegradável e viável a partir de resíduos locais. Para isso, ela se apoiou em pesquisas internacionais, mas adaptou a ideia à realidade da cidade.

A matéria-prima veio do que normalmente iria para o lixo: bagaço de cevada descartado por fábricas de cerveja artesanal, além de serragem e maravalha geradas por madeireiras da região. O custo desse insumo é praticamente nulo, o que já torna a proposta atraente do ponto de vista econômico. Mas o diferencial do projeto está no agente que une tudo isso: o micélio de fungos como Ganoderma lucidum, conhecido como reishi, e Pleurotus ostreatus, o popular cogumelo-ostra.

Esse micélio funciona como uma rede viva que se alimenta dos resíduos orgânicos e cresce aglomerando as partículas do biomaterial. O resultado são peças de cerca de 250 gramas, com desempenho surpreendente. Segundo a arquiteta, elas podem suportar mais de 400 quilos e apresentam resistência superior à do concreto em determinados testes. A porosidade do material ainda contribui para o isolamento térmico e acústico, além de permitir que a peça flutue e resista ao fogo sem propagar chamas.

O potencial vai além da curiosidade científica. Por serem biodegradáveis e 100% compostáveis, esses tijolos podem retornar ao solo ao fim da vida útil, transformando-se em adubo em vez de virar entulho. Em um setor conhecido por gerar volumes gigantescos de resíduos e consumir quantidades enormes de recursos naturais, soluções assim apontam para um futuro em que construir não precise significar, necessariamente, degradar.

[Fonte: La Nación]

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