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Ciência

Nem o rosto nem a voz: cientistas encontraram outra forma de identificar emoções

Um experimento retirou rostos, roupas e contexto das cenas e deixou apenas movimentos. Mesmo assim, as pessoas conseguiram reconhecer emoções escondidas no corpo.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Podemos ensaiar uma expressão diante do espelho, controlar o tom de voz e até corrigir a postura quando percebemos que estamos transmitindo algo indesejado. Mas existe uma parte do comportamento humano que funciona de maneira muito mais automática. Pesquisadores decidiram eliminar praticamente todas as pistas visuais tradicionais e observar apenas uma coisa: como as pessoas se movimentavam enquanto caminhavam. O resultado revelou uma pista emocional surpreendentemente difícil de esconder.

Quando o corpo começa a falar sem pedir permissão

Identificar o que outra pessoa está sentindo normalmente parece depender do rosto ou da voz. Uma expressão diferente, um olhar evasivo ou uma mudança no tom podem entregar irritação, medo ou tristeza.

O problema é que essas pistas podem ser manipuladas.

Uma pessoa pode tentar sorrir mesmo quando está triste, controlar a voz durante uma conversa difícil ou manter uma expressão neutra para esconder o que realmente sente.

A pesquisa liderada por Mina Wakabayashi, do Instituto Internacional de Pesquisa em Telecomunicações Avançadas de Kyoto, partiu justamente dessa limitação.

Os cientistas queriam descobrir se existia outra forma de expressão emocional menos consciente.

Para isso, atores foram convidados a recordar situações relacionadas a emoções específicas, como raiva, alegria, medo e tristeza, enquanto caminhavam.

Seus movimentos foram registrados usando marcadores refletivos. Depois, os pesquisadores retiraram das imagens praticamente tudo que poderia influenciar a interpretação: não havia rostos, roupas ou contexto.

Para quem observava, restavam apenas pontos luminosos se deslocando pelo espaço.

Mesmo assim, os participantes conseguiram identificar as emoções em uma frequência superior à esperada pelo acaso.

Mas isso ainda não revelava exatamente o que eles estavam percebendo.

A segunda etapa do experimento trouxe a pista mais interessante.

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© Anthony Tyrrell – Unsplash

O segredo estava em um movimento aparentemente banal

Os pesquisadores modificaram digitalmente as gravações para aumentar ou diminuir o balanço dos braços e das pernas durante a caminhada.

A reação dos observadores foi bastante consistente.

Movimentos mais amplos tendiam a ser associados a emoções como raiva e agressividade. Quando os movimentos eram mais contidos, os participantes eram mais propensos a relacioná-los com medo ou tristeza.

Isso muda bastante a maneira de interpretar o resultado.

A questão não parece estar simplesmente em uma pessoa andar “de um jeito triste” ou “de um jeito agressivo”. O que os observadores captavam estava relacionado a padrões básicos de movimento e à coordenação entre diferentes partes do corpo.

Caminhar parece banal porque fazemos isso praticamente sem pensar. Mas cada passo envolve ritmo, equilíbrio, sincronização e uma série de processos motores automáticos.

É justamente essa falta de controle consciente constante que pode tornar a caminhada uma pista emocional tão interessante.

Não significa que seja possível descobrir com certeza o que alguém sente apenas observando seus passos. Emoções não possuem uma assinatura corporal perfeita e universal.

Mas o estudo sugere que nosso cérebro pode utilizar informações muito mais sutis do que imaginávamos para interpretar o estado emocional de outras pessoas.

E isso cria uma situação curiosa: alguém pode controlar deliberadamente o rosto e a voz, mas talvez seja muito mais difícil controlar cada aspecto da própria marcha durante uma interação.

A descoberta pode ir muito além da psicologia

O trabalho, publicado na revista Royal Society Open Science, também pode ter aplicações tecnológicas.

Se determinados padrões de caminhada carregam informações sobre estados emocionais, sistemas de inteligência artificial poderiam, em princípio, aprender a identificá-los.

A tecnologia poderia ser aplicada a gravações de vídeo, sistemas de monitoramento ou dispositivos vestíveis capazes de acompanhar mudanças no comportamento e no bem-estar.

Pesquisadores já exploram modelos de aprendizado de máquina capazes de relacionar diferentes padrões de caminhada a emoções como alegria e raiva. Esses sistemas ainda apresentam limitações e não podem ser tratados como detectores infalíveis de sentimentos.

Mesmo assim, a possibilidade é relevante.

Até agora, grande parte da análise automatizada de emoções se concentrou em expressões faciais, voz e linguagem. A marcha acrescenta uma camada diferente: o comportamento corporal automático.

E talvez essa seja a parte mais interessante da descoberta.

Gostamos de imaginar que controlamos aquilo que mostramos aos outros. Podemos escolher palavras, esconder uma expressão e tentar parecer tranquilos mesmo quando não estamos.

Mas o corpo participa dessa comunicação o tempo todo.

A coordenação entre braços e pernas durante uma simples caminhada pode carregar informações que não planejamos transmitir. E é justamente por ser tão automática que essa pista pode escapar dos mecanismos conscientes que usamos para esconder nossas emoções.

No fim, o estudo não mostra que a caminhada revela uma “verdade emocional” infalível. Ele aponta algo mais sutil: mesmo quando tentamos controlar o que mostramos, nosso corpo continua participando da conversa.

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