Durante algum tempo, parecia uma experiência saída diretamente do universo de Silicon Valley: construir uma comunidade praticamente do zero, atrair empresas internacionais e testar novas formas de governo, negócios e organização urbana. O cenário escolhido, porém, não ficava na Califórnia, mas em uma ilha caribenha. A ideia ganhou investidores, tecnologia e ambições globais. Até que a experiência encontrou um obstáculo muito mais poderoso do que qualquer desafio empresarial.
O projeto que queria transformar uma ilha em laboratório
A história começa em Roatán, uma das principais ilhas do Caribe hondurenho. Foi ali que surgiu Próspera, um projeto ligado às chamadas Zonas de Emprego e Desenvolvimento Econômico, conhecidas como ZEDE.
Criadas por Honduras durante a década de 2010, essas zonas tinham uma proposta bastante incomum: oferecer estruturas administrativas e regras próprias para determinadas atividades, criando ambientes mais atraentes para investimentos internacionais.
A ambição era transformar esses territórios em polos capazes de competir globalmente. Menos burocracia, regras consideradas mais flexíveis e uma estrutura econômica diferenciada deveriam funcionar como um imã para empresas e empreendedores.
Próspera levou essa ideia a um nível ainda mais ousado.
O projeto começou a ser desenvolvido em 2017, sob liderança do empresário venezuelano Erick Brimen, da Honduras Próspera Inc. Aos poucos, também atraiu investidores internacionais e chamou a atenção de nomes conhecidos do setor tecnológico americano.
Entre eles estava Peter Thiel, cofundador do PayPal e fundador da Palantir, uma das figuras mais conhecidas do ecossistema de Silicon Valley.
A presença de investidores desse perfil ajudou a transformar uma iniciativa localizada em Roatán em um experimento observado muito além das fronteiras de Honduras.
Mas Próspera não queria apenas construir imóveis.
A proposta era testar uma maneira completamente diferente de organizar uma comunidade.
A parte mais ousada estava nas regras
O modelo das ZEDE permitia uma autonomia muito maior do que a encontrada em uma zona econômica tradicional. A legislação previa estruturas que poderiam abrigar cidades, centros financeiros, áreas turísticas e outros empreendimentos voltados à atração de capital.
Para investidores, a combinação era extremamente atraente.
Um ambiente regulatório estável, impostos competitivos e a possibilidade de estabelecer determinadas regras próprias poderiam reduzir obstáculos enfrentados por empresas em sistemas convencionais.
Próspera tentou combinar isso com tecnologia, empreendedorismo, serviços privados e ideias associadas ao pensamento libertário.
A visão era quase a de uma startup em escala urbana: experimentar novos modelos de administração, negócios e serviços e, se funcionassem, demonstrar que poderiam ser alternativas às estruturas tradicionais.
Mas justamente aí começou o problema.
Para seus defensores, o projeto representava uma oportunidade de mostrar que comunidades poderiam funcionar com menos interferência estatal e maior liberdade econômica.
Para seus críticos, porém, as ZEDE concediam poderes excessivos a territórios privados e criavam uma situação potencialmente incompatível com a soberania nacional.
A discussão deixou rapidamente de ser apenas econômica.
A pergunta passou a ser muito mais profunda: até onde pode ir a autonomia de uma cidade quando suas regras começam a entrar em conflito com as regras do próprio país?
A decisão que mudou o futuro do experimento
A tensão aumentou com a mudança de orientação política em Honduras. As novas autoridades passaram a questionar abertamente o modelo das ZEDE e avançaram para desmontar a estrutura jurídica que havia permitido sua criação.
No fim de 2024, veio um dos momentos mais decisivos da história de Próspera.
A Suprema Corte de Honduras declarou inconstitucional o regime das ZEDE, apontando conflitos com dispositivos da Constituição relacionados à organização territorial, à administração da Justiça e ao planejamento econômico do país.
A decisão alterou completamente o cenário.
Para os críticos de Próspera, o julgamento confirmou os riscos de permitir que territórios privados acumulassem poderes tão amplos. Para os responsáveis pelo projeto e seus apoiadores, entretanto, a decisão ameaçava investimentos realizados e colocava em xeque o próprio modelo que haviam construído.
E havia um detalhe que tornava a situação ainda mais complexa: a sentença não significou simplesmente o desaparecimento de Próspera.
Mesmo depois do revés judicial, o projeto continuou operando em Roatán, enquanto seus responsáveis afirmavam que seus direitos e acordos deveriam continuar sendo respeitados.
Foi assim que aquilo que começou como uma experiência de urbanismo, tecnologia e liberdade econômica se transformou em uma disputa sobre questões muito maiores.
Próspera passou a representar um confronto entre inovação e soberania, entre capital privado e autoridade estatal, entre a possibilidade de criar novas regras e os limites impostos por um país.
No fim, o experimento deixou uma pergunta que vai muito além de Honduras: se uma cidade pode ser planejada para funcionar como uma empresa, quem tem a palavra final quando as regras dessa empresa entram em choque com as regras do país onde ela está localizada?