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Ciência

Spray nasal contra o Alzheimer fica mais promissor após melhorar memória em testes

Tratamento aplicado pelo nariz levou milhões de vesículas derivadas da placenta até o cérebro, reduziu proteínas associadas ao Alzheimer e melhorou a memória de camundongos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Um spray nasal experimental apresentou resultados promissores contra alguns dos processos envolvidos na doença de Alzheimer. Em testes com camundongos, partículas microscópicas conseguiram chegar ao cérebro e alterar a atividade de células relacionadas à inflamação e à preservação das conexões entre os neurônios.

O tratamento melhorou diferentes medidas de memória e reduziu o acúmulo da proteína beta-amiloide. Apesar dos resultados, a pesquisa ainda está na fase pré-clínica e não há evidências de que a abordagem funcione da mesma maneira em seres humanos.

Milhões de pequenas partículas chegam ao cérebro pelo nariz

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© FreePik

O tratamento utiliza estruturas conhecidas como vesículas extracelulares. Elas são partículas minúsculas produzidas e liberadas naturalmente pelas células como parte de seu sistema de comunicação.

Na prática, funcionam como pequenos pacotes capazes de transportar proteínas e moléculas de RNA de uma célula para outra.

No experimento, os pesquisadores colocaram cerca de 100 milhões dessas vesículas em quatro microlitros de solução por aplicação. Depois, administraram o líquido diretamente nas narinas dos camundongos.

Os cientistas observaram que as partículas conseguiram alcançar diferentes regiões do hipocampo, área cerebral essencial para a memória e particularmente vulnerável durante o desenvolvimento do Alzheimer.

Além disso, as vesículas foram incorporadas tanto por neurônios quanto pela microglia, conjunto de células imunológicas responsáveis por monitorar e proteger o tecido cerebral.

Tratamento reduziu sinais de inflamação

É justamente sobre a microglia que parte do efeito do tratamento parece acontecer.

Durante o Alzheimer, essas células podem permanecer excessivamente ativadas. Esse estado favorece uma inflamação persistente que, com o tempo, pode prejudicar os neurônios e suas conexões.

Nos animais tratados com o spray nasal, os pesquisadores encontraram menos microglia reativa e sinais de melhor preservação das conexões neuronais.

Também observaram redução de marcadores de inflamação no hipocampo e aumento de proteínas relacionadas à plasticidade neuronal — capacidade do cérebro de modificar e reorganizar suas conexões.

Outro resultado chamou atenção: os níveis da proteína beta-amiloide diminuíram.

Por outro lado, o tratamento não provocou mudanças significativas na fosforilação da proteína tau, outro processo fortemente associado à doença de Alzheimer.

O segredo pode estar no que as vesículas transportam

Parte dos efeitos observados parece estar relacionada ao conteúdo dessas partículas.

As vesículas carregam substâncias capazes de modificar a atividade de outras células, incluindo moléculas envolvidas no controle das respostas inflamatórias.

A hipótese dos pesquisadores é que, ao chegar ao cérebro, essa carga molecular altera o comportamento da microglia e reduz algumas das condições que podem prejudicar os neurônios durante a progressão da doença.

As vesículas utilizadas no experimento foram obtidas de células da membrana amniótica humana, um dos tecidos associados à placenta.

Essas células já despertam interesse científico, entre outros motivos, por sua capacidade de modular respostas do sistema imunológico. Para produzir as vesículas, os pesquisadores cultivaram as células em laboratório e posteriormente coletaram as partículas liberadas por elas.

Segundo Salvatore Fusco, um dos autores do estudo, os resultados reforçam a necessidade de investigar o Alzheimer não apenas pelo acúmulo de substâncias tóxicas, como beta-amiloide e tau.

Também seria necessário compreender melhor o ambiente em que os neurônios vivem, incluindo células como microglia e astrócitos e os sinais moleculares trocados entre elas, capazes de influenciar o funcionamento das sinapses.

Experimento começou antes do aparecimento dos sintomas

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© Magnific

O principal experimento teve uma abordagem preventiva.

Os cientistas começaram a administrar o tratamento quando os camundongos tinham três meses de idade e ainda não apresentavam deterioração cognitiva. As aplicações foram realizadas duas vezes por semana até os animais completarem nove meses.

O grupo também realizou um teste mais curto em camundongos de nove meses, quando alterações relacionadas ao Alzheimer já estavam presentes.

Depois de um mês de tratamento, esses animais apresentaram melhora em um teste de reconhecimento de objetos. No entanto, não houve melhora significativa em outro experimento destinado a avaliar a memória espacial.

A diferença sugere que o momento em que o tratamento começa pode ter importância para seus efeitos, embora ainda sejam necessários novos estudos para entender essa relação.

Ainda estamos longe de um spray contra o Alzheimer nas farmácias

Os resultados foram publicados na revista científica Translational Neurodegeneration e são considerados pré-clínicos.

Isso significa que o spray nasal ainda não representa um tratamento disponível contra o Alzheimer. Também não há evidências de que os benefícios observados nos camundongos possam ser reproduzidos em pessoas.

Mesmo assim, os pesquisadores acreditam que as vesículas extracelulares podem abrir uma nova frente para terapias capazes de atuar simultaneamente sobre diferentes processos relacionados à doença.

Antes disso, será necessário identificar com maior precisão quais componentes transportados pelas vesículas são responsáveis pelos efeitos, aperfeiçoar a forma de administração e, principalmente, avaliar sua segurança e eficácia em seres humanos.

 

[ Fonte: Wired ]

 

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