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Ciência

A corrida pela Lua ganhou uma nova disputa: quem vai conseguir manter tudo funcionando?

A futura presença humana na Lua enfrenta um problema que não pode ser resolvido apenas com grandes painéis solares. China e Rússia já estudam uma alternativa muito mais ambiciosa.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Construir uma base na Lua parece, à primeira vista, um problema de foguetes, pousos e módulos habitáveis. Mas existe uma dificuldade muito mais básica: como manter tudo funcionando quando o Sol desaparece por semanas? No polo sul lunar, onde China e Rússia planejam instalar uma estação permanente, a resposta pode exigir uma tecnologia que a humanidade já utiliza na Terra, mas que ganha outra dimensão longe do planeta. E os primeiros projetos já estão sendo desenhados.

O problema que aparece quando o Sol desaparece

A China e a Rússia avançam com a Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS), uma iniciativa conjunta que pretende estabelecer uma base no polo sul da Lua.

O local foi escolhido por suas características favoráveis para futuras missões, mas existe um obstáculo que não pode ser ignorado: a noite lunar pode durar aproximadamente 14 a 15 dias terrestres.

Durante esse período, depender exclusivamente de painéis solares seria extremamente complicado. Uma base permanente precisa manter sistemas de comunicação, aquecimento, equipamentos científicos e outros componentes funcionando continuamente, inclusive quando a luz solar não estiver disponível.

Por isso, a energia nuclear entrou no planejamento.

Em março de 2024, Yuri Borisov, diretor-geral da agência espacial russa Roscosmos, afirmou que Rússia e China avaliavam instalar um reator nuclear na superfície lunar entre 2033 e 2035, justamente na época prevista para a conclusão da ILRS.

O cronograma, porém, começa antes.

A missão chinesa Chang’e-8, prevista para 2028, deverá testar tecnologias relacionadas à futura estação e ajudar a preparar o caminho para uma presença permanente, planejada a partir de 2030.

Embora Pequim ainda não tenha anunciado formalmente a aprovação definitiva do projeto do reator, apresentações de engenheiros chineses ligadas ao programa lunar já incluem a tecnologia entre os planos discutidos com os países e organizações que apoiam a ILRS.

E o mais curioso é que o conceito não parte do zero.

Um projeto lunar inspirado em uma tecnologia da Guerra Fria

Engenheiros nucleares chineses já trabalham com um projeto preliminar que combina tecnologias desenvolvidas pela NASA com uma ideia que remonta ao programa espacial soviético.

O conceito tem como uma de suas referências o TOPAZ-II, um reator nuclear utilizado em satélites durante a Guerra Fria.

A proposta chinesa prevê combustível à base de dióxido de urânio em estruturas anulares e um sistema de refrigeração que utiliza metal líquido. Uma liga de sódio e potássio conhecida como NaK-78 seria responsável por ajudar a manter o núcleo abaixo dos 600 °C.

O projeto também utiliza um moderador de nêutrons de hidreto de ítrio. Segundo os técnicos chineses, essa solução poderia apresentar vantagens em relação aos moderadores de hidreto de zircônio mais tradicionais.

Mas existe outro detalhe importante.

O reator não poderia simplesmente ser montado por astronautas como se fosse uma instalação convencional.

China e Rússia consideram que sua construção deverá ser realizada de maneira autônoma, utilizando sistemas robóticos. As condições extremas da superfície lunar, combinadas aos riscos associados à radiação e ao próprio equipamento nuclear, tornam a presença humana durante a montagem especialmente problemática.

A ideia, portanto, é enviar máquinas capazes de preparar o terreno, posicionar componentes e realizar a instalação antes que a infraestrutura habitada dependa dela.

Enquanto isso, outro país desenvolve uma solução própria.

Estados Unidos também estão entrando nessa corrida

Os Estados Unidos avançam com o programa Artemis, da NASA, que pretende levar astronautas novamente à superfície lunar e criar as bases para uma presença mais duradoura.

O planejamento americano também considera grandes sistemas solares, mas a longa noite lunar representa o mesmo desafio enfrentado por China e Rússia.

Por isso, a NASA desenvolve paralelamente o Fission Surface Power, um sistema de energia nuclear projetado para produzir aproximadamente 40 quilowatts.

A potência seria muito menor do que a necessária para uma grande base lunar permanente, mas suficiente para funcionar como uma demonstração tecnológica e testar a utilização de energia nuclear diretamente na superfície da Lua.

Assim, começa a se desenhar uma disputa tecnológica com diferentes estratégias.

China e Rússia planejam um sistema ligado à futura ILRS e contam com um projeto que recupera conceitos da tecnologia espacial soviética. Os Estados Unidos desenvolvem sua própria solução dentro do programa Artemis.

O diagnóstico, porém, é semelhante para todos: se a humanidade quiser permanecer na Lua durante longos períodos, será necessário encontrar uma fonte de energia capaz de funcionar quando o Sol não estiver disponível.

A grande incógnita agora é saber quem conseguirá transformar os projetos em hardware funcionando no ambiente lunar.

A resposta pode começar a aparecer em 2028, quando a Chang’e-8 deverá testar tecnologias fundamentais para a futura infraestrutura chinesa.

Se os planos avançarem como previsto, a próxima corrida espacial não será apenas por quem chegar primeiro à Lua. Será também por quem conseguir manter uma base funcionando quando a noite lunar chegar.

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