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Ciência

Nem sempre é maldade: a psicologia por trás da satisfação com a derrota alheia

Existe uma reação que quase ninguém gosta de admitir: sentir um pequeno alívio quando alguém conhecido tropeça. Por trás dela pode existir muito mais do que simples maldade.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Há pensamentos que aparecem por alguns segundos e que preferimos esconder até de nós mesmos. Um amigo perde uma oportunidade, um colega comete um erro ou alguém que parecia estar sempre à frente enfrenta um problema. E, antes mesmo de conseguirmos julgar a própria reação, surge uma sensação estranha de alívio. Isso significa que somos pessoas ruins? A resposta é menos simples — e revela muito sobre como lidamos com comparação, autoestima e insegurança.

O sentimento que quase ninguém gosta de admitir

Existe até um nome para essa satisfação diante do infortúnio de outra pessoa: schadenfreude. A palavra alemã descreve justamente o prazer ou alívio provocado pelo fracasso ou pela desgraça alheia.

Mas sentir isso ocasionalmente não significa, por si só, que alguém seja cruel ou tenha prazer em machucar os outros. Algumas dessas reações surgem de maneira automática, antes que a parte racional tenha tempo de avaliar se aquele sentimento faz sentido.

Uma das explicações está na proteção da autoestima. Quando alguém se sente inseguro ou excessivamente pressionado pelos próprios resultados, descobrir que outra pessoa também falha pode diminuir momentaneamente essa tensão.

O pensamento nem sempre aparece de forma consciente. É mais parecido com uma sensação: “se até essa pessoa errou, talvez eu não esteja tão atrás assim”.

A comparação social também desempenha um papel importante. É comum avaliarmos nossas conquistas, aparência, carreira ou vida pessoal usando outras pessoas como referência. Quando alguém que consideramos mais bem-sucedido sofre um revés, a distância imaginária entre nós pode parecer menor.

Isso não melhora nossa situação de verdade. Mas, durante alguns instantes, pode mudar a maneira como enxergamos a nossa própria posição.

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© Pathdoc – Shutterstock

Quando o fracasso do outro parece colocar o mundo em ordem

A inveja pode tornar essa reação ainda mais intensa. O sucesso de alguém pode ser interpretado como uma ameaça à própria identidade, principalmente quando existe a sensação de que estamos ficando para trás.

Nesse cenário, a queda do outro pode produzir uma espécie de compensação emocional. Não necessariamente porque desejamos sofrimento, mas porque aquele acontecimento reduz temporariamente uma sensação de inferioridade.

Existe ainda uma diferença importante quando entra em cena a ideia de justiça.

Imagine alguém que enganou outras pessoas, abusou de uma posição de poder ou tratou os demais de maneira injusta. Quando essa pessoa enfrenta consequências, a satisfação pode estar menos relacionada ao sofrimento e mais à percepção de que finalmente houve algum equilíbrio.

É por isso que a reação costuma ser particularmente forte quando o alvo é visto como arrogante, poderoso ou responsável por prejudicar outras pessoas. A mente encontra uma justificativa moral para aquilo que está sentindo.

Ainda assim, compreender a origem de uma emoção não significa justificar qualquer comportamento.

Há uma distância enorme entre experimentar um pensamento passageiro e transformar esse sentimento em uma atitude deliberada. Uma coisa é sentir um pequeno alívio quando alguém fracassa. Outra é torcer constantemente contra essa pessoa, humilhá-la ou tentar provocar sua queda.

E é justamente nessa diferença que está a parte mais importante da história.

O momento em que uma reação comum pode se transformar em problema

Emoções automáticas não definem sozinhas o caráter de uma pessoa. O que acontece depois pode revelar muito mais.

Se o sentimento surge por alguns segundos e desaparece, pode funcionar até como uma pista sobre inseguranças, frustrações ou comparações que normalmente passam despercebidas. Em vez de definir quem somos, ele pode mostrar alguma coisa que precisa ser compreendida.

A situação muda quando essa satisfação se torna frequente e necessária.

Celebrar sistematicamente os fracassos dos outros, procurar erros para se sentir superior ou depender das derrotas alheias para experimentar autoestima pode indicar um padrão mais preocupante. Nesse ponto, a comparação deixa de ser uma reação ocasional e começa a influenciar a maneira como a pessoa constrói seus relacionamentos.

O sinal mais revelador talvez seja simples: se o bem-estar pessoal depende constantemente de alguém estar pior, existe um problema que merece atenção.

Uma maneira de romper esse ciclo é observar o que existe por trás da reação. É inveja? Medo de não ser bom o suficiente? Necessidade de reconhecimento? Frustração com a própria vida? Ou simplesmente a sensação de que uma injustiça foi corrigida?

Identificar a causa muda a perspectiva.

Também ajuda a desenvolver empatia, questionar pensamentos automáticos e estabelecer objetivos que não dependam da comparação permanente com outras pessoas. Afinal, o fracasso de alguém não transforma automaticamente nossa própria situação em sucesso.

Sentir aquela pequena satisfação não faz de ninguém uma pessoa má. O que realmente importa é entender de onde ela veio e decidir o que fazer com ela. Às vezes, uma emoção desconfortável não é uma sentença sobre quem somos, mas um pequeno sinal de algo dentro de nós que ainda precisa ser entendido.

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