Logo após o anúncio do cardeal Robert Francis Prevost como novo papa, nesta quinta-feira (8), internautas passaram a relacionar o momento com uma profecia do capítulo 13 do Apocalipse, o último livro da Bíblia. O fato de Leão XIV ser americano e o número do capítulo parecer simbolicamente ligado ao nome escolhido reacendeu especulações conspiratórias sobre o “fim dos tempos”.
A besta da terra e a besta do mar
¹¹ E vi subir da terra outra besta, e tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro; e falava como o dragão.
Apocalipse 13:11
— Antonio mauricio Gomes neto (@Antoniomau24315) May 8, 2025
O capítulo 13 do Apocalipse descreve o surgimento de duas figuras simbólicas: uma besta que emerge do mar, representando o poder político, e outra que surge da terra, associada ao poder religioso. A interpretação conspiratória que circula nas redes diz que a eleição de um papa dos Estados Unidos — considerado o país mais poderoso do mundo — seria o cumprimento dessa profecia.
Além disso, apontam que o nome “Leão” remete à descrição da besta no versículo 2 (“…e sua boca como a de um leão…”) e que o número romano XIV sucede o número 13 — capítulo que trata do surgimento das bestas.
“Invenções perigosas e alienadoras”
Na Escatologia Adventista do Sétimo Dia, a Besta-Fera Terrestre (Apocalipse 13:11-18) são os Estados Unidos da América, que farão uma aliança com a Besta-Fera Marinha (Apocalipse 13:1-10): o Papado. Bem, agora o Papa é americano…será???
— Jose Maede (@jose_maede) May 8, 2025
Para o pastor Kenner Terra, da Igreja Batista Água Branca, doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, essas associações não têm base teológica e refletem uma forma distorcida de leitura bíblica. Ele critica duramente essas interpretações:
“Toda teoria da conspiração conecta imagens de forma aparentemente lógica, mas que não fazem sentido. Pegam o nome Leão, o número 13, o fato de ele ser papa — e começam as invenções, que para mim são muito perversas, perigosas e alienadoras.”
Segundo Terra, o texto de Apocalipse 13 é, na verdade, uma crítica velada ao imperador romano Nero César, feita pelo autor João, usando símbolos do seu tempo para driblar a censura e comunicar resistência.
O que diz o texto do Apocalipse?
O livro do Apocalipse, escrito no século I d.C., traz uma linguagem simbólica repleta de metáforas e imagens fortes. O versículo 1 descreve a besta do mar com sete cabeças e dez chifres, enquanto o versículo 11 menciona outra besta que “tinha boca como de leão”. Já o versículo 18 fala do famoso número 666:
“Aqui está a sabedoria: Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta, porque é número de homem; e o seu número é 666.”
Nas redes, esses trechos estão sendo usados para alimentar especulações que tentam vincular o novo papa ao “anticristo”.
Papa como anticristo: uma visão histórica
Kenner Terra lembra que essa ideia de associar o papa ao anticristo não é nova. Desde a Reforma Protestante, em determinados períodos da história, líderes católicos foram alvo de interpretações semelhantes.
A cultura pop também ajudou a popularizar essas imagens — como na canção da banda Iron Maiden sobre o número da besta. No entanto, especialistas reforçam que interpretar literalmente esses símbolos pode levar a equívocos perigosos.
Apocalipse não é previsão do futuro
Para Terra, o livro do Apocalipse não deve ser lido como uma previsão exata do futuro, mas sim como uma forma de resistência simbólica do cristianismo primitivo frente ao império romano.
“João faz uma crítica ao império. Ele usa imagens do seu tempo para falar de opressão e esperança. É um texto sobre fé em tempos de crise, não sobre adivinhações.”
Fonte: G1.Globo