Em um cenário global em transformação, a cotação do dólar surpreendeu ao fechar esta quarta-feira no menor patamar do ano. Impulsionada por dados de inflação mais suaves nos EUA e por um acordo inesperado entre Washington e Pequim, a moeda americana perdeu força no mundo todo. No Brasil, esse movimento se soma a debates internos sobre a política fiscal e a carga tributária, colocando o ministro Fernando Haddad no centro das atenções.
Inflação dos EUA e trégua com a China derrubam o dólar

O índice de preços ao consumidor (CPI) nos Estados Unidos subiu apenas 0,1% em maio, abaixo dos 0,2% esperados pelos economistas. Em 12 meses, o avanço foi de 2,4%, também menor do que a previsão de 2,5%. Os dados reforçaram a expectativa de que o Federal Reserve (Fed) pode retomar o ciclo de cortes na taxa de juros já a partir de setembro, com possível nova redução ainda neste ano.
Com juros mais baixos, os títulos do Tesouro norte-americano perdem atratividade, o que enfraquece o dólar em relação a outras moedas. O índice do dólar, que compara o desempenho da divisa com outras seis moedas relevantes, caiu 0,23%, chegando a 98,732 pontos.
O mercado também reagiu de forma positiva ao anúncio de um novo acordo comercial entre Estados Unidos e China, feito na noite de terça-feira, em Londres. O pacto prevê redução de restrições mútuas em exportações de materiais estratégicos, como imãs de terras raras. O presidente Donald Trump confirmou a conclusão do acordo, afirmando que os EUA voltarão a aceitar estudantes chineses em suas universidades, enquanto Pequim retoma a exportação dos minerais.
Efeito no Brasil e resposta do governo
No Brasil, o dólar à vista encerrou o dia com queda de 0,53%, cotado a R$ 5,5392 — o menor valor desde outubro de 2024. Já o dólar futuro para julho recuava 0,62%, a R$ 5,5580, às 17h03. Essa valorização do real acontece em meio a sinais mistos no campo fiscal, com o governo buscando alternativas à polêmica proposta de aumento do IOF.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, participou nesta quarta de uma audiência pública na Câmara dos Deputados para discutir medidas que possam substituir parte do aumento do imposto. Ele afirmou que apresentou as novas propostas ao presidente Lula e que o governo pretende abrir o debate com o Congresso para avaliar quais iniciativas de corte de gastos contam com apoio político.
Entre as sugestões ventiladas, estão a contenção de supersalários e mudanças na aposentadoria de militares. Segundo Haddad, a intenção não é aumentar a carga tributária, mas promover justiça fiscal e compensar o impacto das propostas anteriores. Em entrevista ao Jornal Nacional, ele defendeu que todas as medidas em estudo devem priorizar projetos que já tramitam no Congresso e tenham viabilidade de aprovação rápida.
Congresso se movimenta diante da pressão
O presidente da Câmara, Hugo Motta, afirmou que o tema do gasto primário deve entrar oficialmente na pauta legislativa nos próximos dias. Ele destacou, porém, que em ano pré-eleitoral, é fundamental que qualquer proposta estrutural tenha respaldo da sociedade.
O recuo do dólar, portanto, não é apenas um reflexo de acontecimentos externos, mas também um catalisador de discussões internas urgentes. Com a cotação em queda e a política fiscal sob os holofotes, o Brasil entra em uma nova fase de negociações econômicas que pode impactar diretamente o bolso do consumidor e o rumo das contas públicas.
[Fonte: Infomoney]