Para muitas pessoas, cicatrizes não são apenas marcas físicas — elas podem impactar a autoestima, a mobilidade e até a qualidade de vida. Agora, um novo estudo conduzido por pesquisadores australianos traz esperança: um creme experimental, chamado SNT-6302, apresentou resultados animadores ao remodelar o tecido cicatricial em uma fase inicial de testes clínicos. Os resultados foram publicados na última quinta-feira na revista Science Translational Medicine.
Por que as cicatrizes são tão difíceis de tratar
Nosso corpo é eficiente em reparar lesões pequenas, mas feridas profundas ou extensas geralmente resultam na formação de tecido cicatricial rígido, que altera a textura da pele e, em alguns casos, prejudica a movimentação de músculos e articulações.
Tratamentos atuais, como cirurgias corretivas ou terapias a laser, podem melhorar a aparência das cicatrizes, mas dificilmente as eliminam. Por isso, cientistas buscam alternativas menos invasivas que consigam atuar diretamente no processo biológico de formação de cicatrizes.
O creme que “ensina” a pele a se regenerar
Desenvolvido pela empresa australiana Syntara (antiga Pharmaxis), o SNT-6302 atua inibindo as enzimas lisil oxidases, responsáveis por criar “ligações cruzadas” entre as fibras de colágeno que tornam o tecido cicatricial rígido e permanente.
Ao bloquear parcialmente essas enzimas, o medicamento parece incentivar a reorganização do colágeno e estimular a formação de tecido semelhante à pele saudável. Em outras palavras, ele pode ajudar a transformar um tecido endurecido e marcado em um tecido mais flexível e uniforme.
Como foi conduzido o estudo
O ensaio clínico de fase I envolveu 50 voluntários com cicatrizes maduras — ou seja, estabilizadas, sem inflamação ou coceira.
- Oito participantes aplicaram o creme diariamente, em um regime aberto;
- O restante foi dividido entre grupos que receberam SNT-6302 ou placebo, aplicando o tratamento três vezes por semana durante três meses.
O objetivo principal dessa fase era testar a segurança do creme, e os resultados foram positivos:
- Não houve efeitos adversos graves;
- As reações registradas foram apenas irritações leves a moderadas;
- Seis participantes abandonaram o estudo por desconforto na pele.
Resultados iniciais: sinais animadores
Apesar de ser apenas o primeiro passo, os cientistas observaram mudanças significativas no tecido cicatricial:
- Redução de 66% na atividade das enzimas lisil oxidases;
- Diminuição na produção de colágeno e proteínas totais nas áreas tratadas;
- Aumento da densidade de microvasos sanguíneos, indicando remodelação ativa da pele.
Esses resultados sugerem que o creme pode estimular o tecido cicatricial a se comportar mais como pele normal, algo que até agora era um grande desafio para a dermatologia.
O que vem a seguir
Os pesquisadores destacam que os dados são preliminares e que o tratamento ainda está longe de chegar ao mercado. No entanto, os resultados obtidos já justificam o início de ensaios clínicos de fase II, com amostras maiores e acompanhamento mais longo.
Se confirmada a eficácia, o SNT-6302 pode representar uma revolução no tratamento de cicatrizes, oferecendo uma solução menos invasiva e potencialmente mais eficaz do que os métodos atuais.
Para os cientistas, o objetivo é ambicioso: redefinir a maneira como a pele cicatriza e permitir que, no futuro, marcas consideradas permanentes possam desaparecer ou se tornarem praticamente invisíveis.