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Ciência

Novo remédio contra câncer de pâncreas dobra sobrevida e faz especialista de Harvard falar em mudança histórica

Daraxonrasib foi aprovado pela FDA após pacientes atingirem sobrevida mediana de 13,2 meses, contra 6,7 meses com a quimioterapia padrão.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Um dos cânceres mais difíceis de tratar acaba de ganhar uma nova arma. O daraxonrasib, medicamento que atua diretamente sobre mutações da família RAS, recebeu aprovação da FDA nos Estados Unidos após apresentar resultados expressivos em pacientes com câncer de pâncreas avançado.

Para Brian Wolpin, professor de medicina e especialista em câncer de pâncreas do Dana-Farber Cancer Institute e da Harvard Medical School, o avanço pode representar o começo de uma transformação profunda.

“Creio firmemente que, dentro de cinco anos — e certamente dentro de dez —, não reconheceremos a forma como tratávamos o câncer de pâncreas antes”, afirmou o pesquisador à Harvard Gazette.

Pacientes viveram quase o dobro do tempo

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© Kanchanachitkhamma

O resultado que chamou atenção veio do ensaio clínico global de fase 3 RASolute 302, liderado por Wolpin.

Entre os pacientes que receberam daraxonrasib, a sobrevida mediana chegou a 13,2 meses. No grupo tratado com quimioterapia padrão, foi de 6,7 meses.

Isso não significa que o medicamento cure o câncer de pâncreas. O estudo foi realizado em pacientes com doença avançada que já haviam recebido quimioterapia.

Mesmo assim, a diferença representa um avanço importante para um tumor que historicamente apresenta poucas opções terapêuticas.

Wolpin afirmou que havia um considerável pessimismo na comunidade científica sobre a possibilidade de novos medicamentos apresentarem bons resultados contra esse câncer.

A aprovação, segundo ele, demonstra que pesquisas rigorosas podem produzir avanços até mesmo contra alguns dos tumores mais agressivos.

O daraxonrasib foi desenvolvido pela empresa norte-americana Revolution Medicines.

Os números mostram por que esse câncer é tão difícil

A importância do novo tratamento fica mais clara quando observamos as estatísticas da doença.

Segundo estimativas do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI), mais de 67 mil pessoas devem receber um diagnóstico de câncer de pâncreas no país em 2026. Quase 57 mil devem morrer em consequência da doença no mesmo período.

A taxa de sobrevivência em cinco anos é de apenas 13,7%, uma das menores entre os principais tipos de câncer.

Wolpin conhece essa realidade desde o início de sua carreira.

Há pouco mais de duas décadas, quando começou sua formação em oncologia no Dana-Farber, ele viu diversos pacientes com câncer de pâncreas metastático morrerem em aproximadamente três meses.

Inicialmente, pensou que fossem casos excepcionais. Depois percebeu que aquilo era comum.

A experiência ajudou a direcionar sua carreira para o estudo da doença.

Uma pílula no lugar de horas recebendo quimioterapia

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© Pexels

O daraxonrasib também apresenta uma diferença prática importante.

O medicamento é administrado por via oral, em um comprimido tomado uma vez por dia.

Isso pode evitar algumas das etapas associadas à quimioterapia intravenosa, como permanecer durante horas em centros de infusão, utilizar bombas de medicamentos ou depender de determinados tipos de acesso por cateter.

Segundo Wolpin, os efeitos adversos também tendem a ser mais leves do que aqueles associados à quimioterapia convencional.

Para o pesquisador, aumentar a sobrevivência é fundamental, mas preservar a qualidade de vida durante o tratamento também precisa fazer parte do objetivo.

As primeiras pistas de que o medicamento poderia funcionar surgiram ainda nos testes iniciais.

Durante o ensaio de fase 1, desenvolvido principalmente para avaliar segurança e determinar a dose adequada, alguns pacientes que receberam doses relativamente baixas relataram redução ou desaparecimento da dor abdominal poucas semanas depois de iniciar o tratamento.

Como o câncer de pâncreas pode provocar dores intensas, a melhora levantou uma hipótese animadora: os tumores poderiam estar diminuindo.

Exames de imagem realizados posteriormente mostraram redução da carga tumoral em alguns desses pacientes.

O medicamento ataca um dos maiores alvos do câncer: KRAS

A grande inovação do daraxonrasib está em seu mecanismo de ação.

O medicamento foi desenvolvido para bloquear proteínas da família RAS, que durante décadas estiveram entre os alvos mais difíceis da oncologia.

O gene KRAS apresenta mutações em até 95% dos casos de câncer de pâncreas. Alterações em KRAS e em outros integrantes da família RAS, como NRAS e HRAS, também aparecem em diferentes tumores, incluindo câncer de pulmão, colorretal e melanoma.

Durante muito tempo, KRAS chegou a ser considerado praticamente impossível de atingir com medicamentos.

Sua estrutura molecular dificultava encontrar substâncias capazes de se ligar à proteína e interromper sua atividade.

Esse cenário começou a mudar com o desenvolvimento de medicamentos contra uma mutação específica chamada KRAS G12C, encontrada principalmente em determinados cânceres de pulmão e colorretais.

O problema é que essa não é a principal mutação encontrada nos tumores pancreáticos.

Daraxonrasib tenta atacar várias mutações de uma vez

É justamente nesse ponto que o novo medicamento se diferencia.

O daraxonrasib foi projetado como um inibidor multisseletivo de RAS. Em vez de atingir apenas uma mutação específica, ele consegue bloquear a sinalização de várias formas mutadas dessas proteínas.

Isso inclui algumas das alterações mais comuns encontradas no câncer de pâncreas.

Na prática, o medicamento ataca diretamente um dos principais mecanismos genéticos que impulsionam o crescimento desse tumor.

E os pesquisadores acreditam que ainda existe espaço para melhorar os resultados.

Próximo passo é usar o tratamento mais cedo

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© Pexels

O RASolute 302 avaliou pessoas com câncer avançado que já haviam passado por quimioterapia.

Mas dados preliminares levantaram uma possibilidade ainda mais interessante: o daraxonrasib pode funcionar melhor quando administrado mais cedo, antes de o paciente receber uma primeira linha de quimioterapia.

Novos ensaios clínicos de fase 3 estão avaliando essa hipótese.

Se os resultados forem positivos, o medicamento poderá ocupar uma posição ainda mais importante no tratamento da doença.

Para Wolpin, a aprovação atual representa apenas o começo.

“Este é um primeiro passo crucial que abrirá um grande número de novas abordagens para o tratamento da doença”, afirmou.

Depois de décadas em que o câncer de pâncreas resistiu a grande parte das novas estratégias terapêuticas, atacar diretamente as mutações de RAS pode finalmente ter aberto uma porta que a oncologia tentava destrancar há muito tempo.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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