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Tecnologia

O alerta de um filósofo que assessora a ONU sobre IA: o maior risco pode não estar nas máquinas

Um dos especialistas escolhidos pela ONU para analisar os riscos da inteligência artificial acredita que estamos olhando para a ameaça errada, enquanto uma transformação muito mais concreta avança rapidamente.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A inteligência artificial é frequentemente cercada por previsões sobre máquinas fora de controle, empregos ameaçados e até cenários de extinção humana. Para Mark Coeckelbergh, filósofo da tecnologia e integrante de um painel internacional criado pela ONU, esse debate pode estar desviando nossa atenção de uma questão muito mais imediata. O verdadeiro desafio, argumenta, passa por quem controla essa tecnologia, como ela modifica nosso comportamento e quem poderá colher seus maiores benefícios.

A ONU reuniu especialistas para entender até onde a IA pode chegar

As Nações Unidas selecionaram 40 especialistas internacionais para formar um painel independente dedicado a estudar os riscos e impactos da inteligência artificial. Entre seus integrantes estão Yoshua Bengio, um dos nomes fundamentais no desenvolvimento da IA moderna, e Maria Ressa, vencedora do Nobel da Paz.

O grupo já colocou sobre a mesa questões como perda de controle sobre sistemas avançados, falta de transparência e possibilidade de a tecnologia ampliar desigualdades existentes.

Mark Coeckelbergh, professor da Universidade de Viena, faz parte desse grupo e propõe uma leitura diferente da narrativa mais alarmista que ganhou espaço recentemente.

Para ele, imaginar uma inteligência artificial que simplesmente assume o controle pode obscurecer problemas que já estão acontecendo. A discussão deveria incluir não apenas aquilo que as máquinas são capazes de fazer, mas quem decide como serão desenvolvidas e utilizadas.

Sua preocupação está na crescente concentração de poder tecnológico. Se poucas empresas definirem sozinhas os rumos da IA, seus interesses poderão ter um peso desproporcional sobre decisões que afetarão milhões de pessoas.

A tecnologia já está mudando nosso comportamento

O alerta de um filósofo que assessora a ONU sobre IA: o maior risco pode não estar nas máquinas
© Pexels

Coeckelbergh também questiona uma ideia aparentemente simples: a de que tecnologias são apenas ferramentas controladas por seus usuários.

Um smartphone, por exemplo, não apenas executa comandos. Ele modifica posturas, movimentos, hábitos e até a maneira como alguém circula por uma cidade. O filósofo utiliza a ideia de que a tecnologia nos “coreografa”, influenciando discretamente nossas ações.

Um aplicativo de mapas ilustra essa transformação. Caminhar por uma cidade prestando atenção às ruas e conversando com outra pessoa produz uma experiência diferente daquela em que seguimos continuamente as instruções exibidas na tela.

Nesse sentido, humanos e tecnologia já estão profundamente interligados. Para Coeckelbergh, o ponto não é rejeitar essa relação, mas decidir conscientemente quais tecnologias queremos e quais valores elas deveriam preservar.

Essa preocupação também aparece quando ele observa uma corrente do setor tecnológico interessada em superar limites físicos humanos. Para o filósofo, ampliar capacidades por meio da tecnologia não é necessariamente negativo. A pergunta essencial é qual objetivo queremos alcançar.

A IA pode entrar nas escolas sem substituir o pensamento

O alerta de um filósofo que assessora a ONU sobre IA: o maior risco pode não estar nas máquinas
© picture alliance/Getty Images

A educação é outro campo onde essa discussão se tornou urgente. A reação mais imediata diante de smartphones, telas e ferramentas de IA costuma ser proibi-los, mas Coeckelbergh considera a questão mais complexa.

Um modelo de linguagem pode produzir um trabalho escolar completo e impedir que o estudante desenvolva determinadas habilidades. Mas também pode funcionar como assistente, ajudando na pesquisa ou em tarefas específicas sem substituir o raciocínio humano.

A diferença está na maneira como a ferramenta é incorporada.

Isso exigirá mudanças na educação e também formação adequada para professores. Escolas e universidades precisarão preservar espaços nos quais os estudantes desenvolvam capacidades próprias, enquanto aprendem a utilizar sistemas inteligentes de maneira crítica.

O filósofo tampouco acredita que a IA necessariamente destruirá a criatividade. Artistas já estão experimentando essas ferramentas para produzir obras e explorar possibilidades que anteriormente não estavam disponíveis.

O desafio, portanto, não seria simplesmente escolher entre aceitar ou rejeitar a inteligência artificial, mas descobrir quais atividades podem ser ampliadas por ela sem eliminar aquilo que os humanos fazem melhor.

O risco que pode estar escondido atrás das previsões apocalípticas

É justamente nesse ponto que aparece o alerta mais contundente de Coeckelbergh.

Parte da indústria tecnológica passou a discutir publicamente cenários extremos envolvendo sistemas capazes de escapar ao controle humano. O especialista reconhece que existem problemas técnicos reais e que sistemas podem desrespeitar limites definidos por seus desenvolvedores. O próprio painel da ONU investiga essas situações.

Mas ele questiona a narrativa de que estamos inevitavelmente caminhando para um cenário apocalíptico.

Ao apresentar suas tecnologias como extraordinariamente poderosas e potencialmente perigosas, grandes empresas também reforçam a percepção de que somente elas possuem conhecimento suficiente para administrá-las. Na interpretação do filósofo, isso pode contribuir para concentrar ainda mais poder nas companhias responsáveis pelo desenvolvimento desses sistemas.

A questão central passa então a ser política e social: quem decidirá o futuro da inteligência artificial?

Para Coeckelbergh, cidadãos e governos precisam participar dessas escolhas. Caso contrário, o avanço da IA pode favorecer principalmente um pequeno grupo de empresas e executivos, enquanto os custos econômicos e sociais são distribuídos para o restante da população.

O futuro da inteligência artificial, nessa visão, não está predeterminado. E talvez seja justamente essa a parte mais importante do alerta: antes de temer uma máquina que algum dia possa assumir o controle, vale perguntar quem já está acumulando esse controle agora.

[Fonte: elDiarioAR]

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