Pular para o conteúdo
Ciência

O aumento do CO₂ pode estar provocando uma reação no organismo, sugere estudo

O aumento de um gás associado às mudanças climáticas pode estar produzindo alterações discretas na química do organismo. Um estudo de duas décadas encontrou pistas que chamam a atenção.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Quando pensamos nos efeitos das mudanças climáticas sobre os seres humanos, normalmente imaginamos ondas de calor, secas, enchentes ou problemas respiratórios. Mas existe uma consequência muito menos evidente: aquilo que está mudando na atmosfera também pode estar sendo refletido dentro do nosso organismo. Uma análise de milhares de pessoas nos Estados Unidos encontrou alterações em componentes do sangue ao longo de duas décadas. A explicação possível é tão silenciosa quanto surpreendente.

Uma mudança na atmosfera que apareceu nos exames

A pesquisa, publicada na revista Air Quality, Atmosphere and Health, analisou dados de aproximadamente 7 mil pessoas nos Estados Unidos coletados entre 1999 e 2020. Nesse período, a concentração de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera aumentou de forma significativa.

Os pesquisadores observaram que os níveis de bicarbonato no sangue também apresentaram uma tendência de crescimento. O aumento foi de aproximadamente 7% durante o período analisado.

O bicarbonato desempenha uma função essencial no organismo: ajuda a controlar a acidez do sangue e funciona como um dos principais sistemas de equilíbrio químico do corpo. Quando o dióxido de carbono aumenta, processos relacionados à sua regulação podem provocar mudanças nesse sistema.

Phil Bierwirth, da Universidade Nacional Australiana, e Alexander Larcombe, da Universidade Curtin, compararam os marcadores sanguíneos com a evolução das concentrações atmosféricas de CO₂.

Em 1999, a atmosfera apresentava cerca de 369 partes por milhão (ppm). Em 2020, o número havia chegado a aproximadamente 420 ppm, enquanto os níveis atuais estão próximos de 425 ppm. Antes da Revolução Industrial, a concentração permanecia durante milhares de anos em torno de 280 ppm.

A coincidência entre as duas tendências levou os pesquisadores a levantar uma hipótese importante: o organismo humano pode estar realizando ajustes fisiológicos para lidar com uma atmosfera que contém cada vez mais dióxido de carbono.

O sangue não foi o único lugar onde algo mudou

A alteração no bicarbonato chamou atenção, mas não foi o único sinal encontrado nos dados. Durante o mesmo período, os níveis sanguíneos de cálcio e fósforo apresentaram tendência de queda.

Os pesquisadores consideram que os fenômenos podem estar relacionados. Uma das possibilidades é que parte do carbono seja incorporada aos ossos na forma de carbonato, processo que envolve minerais como cálcio e fósforo.

Isso, porém, não significa que o aumento atual do CO₂ esteja provocando uma deficiência generalizada desses minerais na população. Os próprios pesquisadores ressaltam que efeitos graves provavelmente exigiriam exposições muito superiores às encontradas atualmente.

A importância do resultado está justamente em outro ponto: mesmo sem apresentar uma consequência clínica evidente, o organismo parece mostrar sinais mensuráveis de adaptação às mudanças ambientais.

Essa possibilidade ganha relevância porque o dióxido de carbono não é apenas um indicador das mudanças climáticas. Em concentrações elevadas, ele também pode afetar diretamente a fisiologia humana.

Ambientes pouco ventilados, por exemplo, podem acumular CO₂. Estudos anteriores associaram concentrações moderadamente elevadas a sintomas como dor de cabeça, cansaço, dificuldade de concentração e alterações na capacidade de tomada de decisões.

A grande pergunta é até onde o corpo consegue compensar

A novidade desse estudo está na escala temporal. Em vez de observar pessoas submetidas a uma concentração elevada de CO₂ durante algumas horas ou dias, os pesquisadores analisaram mudanças populacionais ao longo de aproximadamente 20 anos.

Experimentos com animais também já levantaram possíveis relações entre níveis elevados do gás e processos como inflamação, estresse oxidativo e alterações em tecidos e ossos. Ainda assim, não existe evidência suficiente para afirmar que a exposição atmosférica atual esteja causando esses problemas diretamente nos seres humanos.

É justamente por isso que os autores não apresentam o trabalho como prova de uma crise de saúde provocada pelo CO₂. O estudo identifica uma associação e propõe uma hipótese que precisará ser investigada em pesquisas futuras.

A questão pode se tornar ainda mais importante se as concentrações atmosféricas continuarem subindo. Alguns cenários climáticos projetam níveis superiores a 500 ppm nas próximas décadas caso as emissões não sejam reduzidas de maneira significativa.

Isso levanta uma dúvida incômoda: se o corpo já está fazendo ajustes mensuráveis agora, qual será o limite dessa capacidade de adaptação?

A pesquisa, portanto, acrescenta uma dimensão diferente ao debate climático. O aumento do CO₂ não está apenas relacionado ao aquecimento do planeta, aos oceanos ou aos ecossistemas. Pode também estar criando mudanças discretas na química interna do organismo.

Ainda não sabemos se essas alterações terão consequências relevantes para a saúde no futuro. Mas o fato de elas poderem ser detectadas nos dados já deixa uma mensagem clara: as mudanças na atmosfera podem estar chegando ao corpo humano de uma maneira muito mais do que imaginávamos.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados