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Ciência

O Brasil tem biomassa, experiência e escala: agora quer se tornar uma potência global no combustível sustentável para aviação

A corrida pela descarbonização do transporte aéreo pode abrir uma nova fronteira econômica para o Brasil. Com enorme disponibilidade de biomassa e décadas de experiência em biocombustíveis, o país é apontado pela IATA como um dos candidatos mais promissores para liderar a produção mundial de combustível sustentável de aviação (SAF). O desafio, porém, vai muito além da produção: passa pela construção de uma gigantesca rede logística.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante a Assembleia Geral Anual da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), realizada no Rio de Janeiro, o Brasil foi destacado como um dos países com maior potencial para se tornar referência global na produção de combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla SAF (Sustainable Aviation Fuel).

O combustível é considerado uma das principais apostas da indústria aérea para reduzir as emissões de carbono nas próximas décadas. E, segundo especialistas, o Brasil reúne características difíceis de encontrar em outros lugares do mundo: vasta disponibilidade de matérias-primas, tradição em biocombustíveis e capacidade de expansão em larga escala.

Mas transformar esse potencial em realidade exigirá investimentos bilionários em infraestrutura, transporte e logística.

A demanda global por SAF será gigantesca

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© Pexels

A aviação comercial enfrenta um dos maiores desafios de sua história. As companhias aéreas se comprometeram a alcançar emissões líquidas zero de dióxido de carbono até 2050, e o SAF é considerado peça fundamental para atingir essa meta.

Estimativas da IATA apontam que o setor precisará de cerca de 500 milhões de toneladas de combustível sustentável por ano até meados do século.

Nesse cenário, o Brasil surge como um dos poucos países capazes de produzir volumes relevantes em escala global.

As projeções indicam que o país poderá contar com aproximadamente 180 milhões de toneladas de biomassa disponíveis em 2050. Esse volume seria suficiente para gerar cerca de 60 milhões de toneladas de SAF, uma quantidade capaz de atender uma parcela significativa da demanda internacional.

O verdadeiro desafio está na logística

Embora a abundância de matéria-prima seja uma vantagem importante, ela não garante, por si só, o sucesso da indústria.

Grande parte da biomassa, dos óleos vegetais e dos resíduos agrícolas utilizados na produção do SAF está localizada longe dos principais centros industriais, refinarias e aeroportos internacionais.

Por isso, a logística se tornou uma das principais preocupações do setor.

A IATA destaca que será necessário criar novas cadeias de suprimentos capazes de conectar áreas produtoras, instalações de processamento, refinarias, centros de armazenamento e pontos de distribuição.

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, essa integração exigirá corredores logísticos eficientes para reduzir custos e garantir o abastecimento contínuo das futuras plantas de produção.

Uma oportunidade para infraestrutura e transporte

O crescimento da indústria de SAF poderá impulsionar investimentos em diversos segmentos da economia.

Entre eles estão a construção de terminais especializados de armazenamento, ampliação de sistemas de distribuição, novas instalações de refino e a criação de hubs logísticos dedicados ao transporte de combustíveis sustentáveis.

Segundo estimativas apresentadas pela IATA, o Brasil poderá dispor de cerca de 18 milhões de toneladas de matérias-primas já em 2030, provenientes principalmente do etanol de cana-de-açúcar, óleos vegetais e resíduos agrícolas.

Esse volume teria potencial para gerar aproximadamente 12 milhões de toneladas de SAF por ano.

Para efeito de comparação, essa capacidade corresponde a cinco vezes a produção global estimada para 2026, calculada em cerca de 2,4 milhões de toneladas.

O legado do etanol pode acelerar a transição

Metanol
© Fahroni – Canva Pro

Outro fator que fortalece a posição brasileira é a experiência acumulada ao longo de décadas com o setor de biocombustíveis.

A infraestrutura já existente para produção e distribuição de etanol oferece uma base importante para a expansão do SAF, especialmente em tecnologias que convertem o etanol em combustível para aviação.

Essa vantagem reduz parte dos obstáculos enfrentados por outros países que ainda precisam construir praticamente toda a cadeia produtiva do zero.

Além disso, o conhecimento técnico desenvolvido pelo setor energético brasileiro pode acelerar a adoção de processos industriais mais eficientes e competitivos.

De consumidor a exportador global

Caso os investimentos avancem conforme o esperado, o Brasil poderá não apenas abastecer sua própria demanda aérea, mas também se transformar em um grande exportador de combustível sustentável.

Isso abriria novas oportunidades para os setores agrícola, energético, industrial e logístico, além de fortalecer a posição do país em uma das cadeias produtivas mais estratégicas da transição energética global.

Para que esse cenário se concretize, a IATA considera fundamentais políticas públicas de incentivo, linhas de financiamento, segurança regulatória e alinhamento com padrões internacionais de sustentabilidade.

A entidade também vê com bons olhos iniciativas como os certificados negociáveis de SAF previstos no programa brasileiro Combustível do Futuro, que podem facilitar a integração do mercado nacional a programas globais de redução de emissões, como o CORSIA.

Se conseguir transformar seu potencial em capacidade produtiva, o Brasil poderá ocupar um espaço de destaque na nova economia verde. E, dessa vez, a vantagem competitiva não estará apenas nos campos agrícolas, mas também nas estradas, ferrovias, refinarias, portos e aeroportos que conectarão toda essa cadeia ao restante do mundo.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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