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Ciência

Comer mais fibras pode transformar seus micróbios intestinais — e sua saúde agradece

A ciência começa a entender como uma alimentação rica em fibras modifica o microbioma e pode ajudar a proteger contra doenças crônicas
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Tempo de leitura: 4 minutos

Depois da obsessão das redes sociais por consumir cada vez mais proteínas, uma nova tendência alimentar ganhou espaço: o “fibermaxxing”. A ideia é aumentar o consumo diário de fibras, especialmente por meio de frutas, verduras, legumes, grãos integrais, sementes e oleaginosas.

A moda tem respaldo em uma preocupação real. Grande parte da população mundial consome menos fibras do que o recomendado, especialmente em países onde alimentos ultraprocessados ocupam uma parcela importante da dieta.

Isso pode afetar não apenas o funcionamento do intestino, mas também os trilhões de microrganismos que vivem nele.

Pesquisadores investigam cada vez mais como a relação entre fibras e microbioma pode influenciar inflamação, obesidade, diabetes, doenças intestinais e até câncer colorretal.

As fibras alimentam as bactérias do intestino

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© Pexels

As fibras são carboidratos de origem vegetal que nosso organismo não consegue digerir completamente. Hoje, cientistas consideram características como fermentabilidade, viscosidade e capacidade de reter água para entender seus diferentes efeitos no organismo.

E justamente aquilo que nós não conseguimos digerir pode virar alimento para nossos micróbios.

Determinadas bactérias intestinais fermentam fibras e produzem moléculas conhecidas como ácidos graxos de cadeia curta, incluindo acetato, propionato e butirato.

Essas substâncias participam de diferentes processos metabólicos e podem ajudar a controlar a inflamação.

Um estudo com mais de 300 homens encontrou uma associação entre maior ingestão de fibras, especialmente provenientes de frutas, alterações favoráveis no microbioma e níveis menores de proteína C reativa, um marcador relacionado à inflamação crônica.

Pouca fibra pode deixar o intestino mais vulnerável

Experimentos com animais ajudam a mostrar o que pode acontecer quando os micróbios ficam sem sua principal fonte de fibras.

Em um estudo, pesquisadores transplantaram microbiomas humanos para camundongos e ofereceram dietas com diferentes quantidades de fibras.

Quando faltavam fibras, determinadas bactérias começaram a utilizar como alimento o próprio muco que protege o intestino.

O resultado foi o enfraquecimento dessa barreira. Quando os animais foram posteriormente expostos a um patógeno, desenvolveram quadros mais graves de inflamação intestinal.

O fenômeno ajuda a explicar por que pesquisadores estão tão interessados no butirato. Estudos indicam que ácidos graxos produzidos pela fermentação das fibras interagem com células imunológicas e podem reduzir moléculas associadas à inflamação.

Algumas fibras podem até influenciar a saciedade

Outro campo de pesquisa envolve metabolismo e controle do peso.

A inulina, encontrada em alimentos como alho, cebola, trigo, aspargos, banana e raiz de chicória, serve como alimento para determinadas bactérias intestinais.

Sua fermentação pode favorecer processos relacionados à produção de GLP-1, hormônio envolvido na sensação de saciedade e também utilizado como alvo de medicamentos modernos contra diabetes e obesidade.

Isso não significa, porém, que comer fibras produza o mesmo efeito de medicamentos como Ozempic.

Os mecanismos possuem pontos em comum, mas a intensidade e a forma de ação são diferentes. Ainda assim, entender essa relação pode ajudar cientistas a descobrir novas maneiras de influenciar naturalmente o metabolismo através do microbioma.

Alimentos integrais parecem ser a melhor escolha

Dieta Rica Em Fibras
© CBD

Nem toda fibra necessariamente produz o mesmo efeito.

Um dos principais desafios científicos atuais é descobrir quais tipos são mais interessantes para diferentes objetivos.

Alimentos como feijão, lentilha, frutas, verduras, cereais integrais, sementes e oleaginosas fornecem diferentes tipos de fibras dentro de uma estrutura alimentar complexa.

Já suplementos isolados podem não reproduzir todos os efeitos encontrados quando a fibra permanece integrada ao alimento original.

Por isso, pesquisadores defendem priorizar alimentos integrais ou minimamente processados antes de recorrer automaticamente a pós e comprimidos.

No futuro, cada pessoa poderá receber uma fibra diferente

Existe ainda uma complicação fascinante: nossos microbiomas não são iguais.

Um tipo de fibra pode produzir uma resposta intensa em determinada pessoa e quase nenhuma em outra. Pesquisadores já observaram diferenças individuais na produção de butirato e em marcadores relacionados à inflamação.

Em um estudo recente, determinados participantes apresentaram alterações na pressão arterial ao consumir fibra de goma de acácia, mas o resultado dependia da capacidade de seu microbioma de metabolizar aquela fibra.

Algoritmos de aprendizado de máquina conseguiram até prever algumas dessas respostas.

A possibilidade abre caminho para uma futura nutrição personalizada, na qual a composição do microbioma ajudaria a determinar quais fibras seriam mais adequadas para cada indivíduo.

Essa tecnologia ainda está distante da rotina dos consultórios. Por enquanto, a recomendação é muito mais simples: consumir uma variedade maior de alimentos vegetais ricos em fibras.

Afinal, quando colocamos feijão, frutas, verduras ou grãos integrais no prato, não estamos alimentando apenas nosso próprio organismo. Estamos servindo o jantar para trilhões de micróbios que também podem ter bastante influência sobre nossa saúde.

 

[ Fonte: Wired ]

 

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