Depois da obsessão das redes sociais por consumir cada vez mais proteínas, uma nova tendência alimentar ganhou espaço: o “fibermaxxing”. A ideia é aumentar o consumo diário de fibras, especialmente por meio de frutas, verduras, legumes, grãos integrais, sementes e oleaginosas.
A moda tem respaldo em uma preocupação real. Grande parte da população mundial consome menos fibras do que o recomendado, especialmente em países onde alimentos ultraprocessados ocupam uma parcela importante da dieta.
Isso pode afetar não apenas o funcionamento do intestino, mas também os trilhões de microrganismos que vivem nele.
Pesquisadores investigam cada vez mais como a relação entre fibras e microbioma pode influenciar inflamação, obesidade, diabetes, doenças intestinais e até câncer colorretal.
As fibras alimentam as bactérias do intestino

As fibras são carboidratos de origem vegetal que nosso organismo não consegue digerir completamente. Hoje, cientistas consideram características como fermentabilidade, viscosidade e capacidade de reter água para entender seus diferentes efeitos no organismo.
E justamente aquilo que nós não conseguimos digerir pode virar alimento para nossos micróbios.
Determinadas bactérias intestinais fermentam fibras e produzem moléculas conhecidas como ácidos graxos de cadeia curta, incluindo acetato, propionato e butirato.
Essas substâncias participam de diferentes processos metabólicos e podem ajudar a controlar a inflamação.
Um estudo com mais de 300 homens encontrou uma associação entre maior ingestão de fibras, especialmente provenientes de frutas, alterações favoráveis no microbioma e níveis menores de proteína C reativa, um marcador relacionado à inflamação crônica.
Pouca fibra pode deixar o intestino mais vulnerável
Experimentos com animais ajudam a mostrar o que pode acontecer quando os micróbios ficam sem sua principal fonte de fibras.
Em um estudo, pesquisadores transplantaram microbiomas humanos para camundongos e ofereceram dietas com diferentes quantidades de fibras.
Quando faltavam fibras, determinadas bactérias começaram a utilizar como alimento o próprio muco que protege o intestino.
O resultado foi o enfraquecimento dessa barreira. Quando os animais foram posteriormente expostos a um patógeno, desenvolveram quadros mais graves de inflamação intestinal.
O fenômeno ajuda a explicar por que pesquisadores estão tão interessados no butirato. Estudos indicam que ácidos graxos produzidos pela fermentação das fibras interagem com células imunológicas e podem reduzir moléculas associadas à inflamação.
Algumas fibras podem até influenciar a saciedade
Outro campo de pesquisa envolve metabolismo e controle do peso.
A inulina, encontrada em alimentos como alho, cebola, trigo, aspargos, banana e raiz de chicória, serve como alimento para determinadas bactérias intestinais.
Sua fermentação pode favorecer processos relacionados à produção de GLP-1, hormônio envolvido na sensação de saciedade e também utilizado como alvo de medicamentos modernos contra diabetes e obesidade.
Isso não significa, porém, que comer fibras produza o mesmo efeito de medicamentos como Ozempic.
Os mecanismos possuem pontos em comum, mas a intensidade e a forma de ação são diferentes. Ainda assim, entender essa relação pode ajudar cientistas a descobrir novas maneiras de influenciar naturalmente o metabolismo através do microbioma.
Alimentos integrais parecem ser a melhor escolha

Nem toda fibra necessariamente produz o mesmo efeito.
Um dos principais desafios científicos atuais é descobrir quais tipos são mais interessantes para diferentes objetivos.
Alimentos como feijão, lentilha, frutas, verduras, cereais integrais, sementes e oleaginosas fornecem diferentes tipos de fibras dentro de uma estrutura alimentar complexa.
Já suplementos isolados podem não reproduzir todos os efeitos encontrados quando a fibra permanece integrada ao alimento original.
Por isso, pesquisadores defendem priorizar alimentos integrais ou minimamente processados antes de recorrer automaticamente a pós e comprimidos.
No futuro, cada pessoa poderá receber uma fibra diferente
Existe ainda uma complicação fascinante: nossos microbiomas não são iguais.
Um tipo de fibra pode produzir uma resposta intensa em determinada pessoa e quase nenhuma em outra. Pesquisadores já observaram diferenças individuais na produção de butirato e em marcadores relacionados à inflamação.
Em um estudo recente, determinados participantes apresentaram alterações na pressão arterial ao consumir fibra de goma de acácia, mas o resultado dependia da capacidade de seu microbioma de metabolizar aquela fibra.
Algoritmos de aprendizado de máquina conseguiram até prever algumas dessas respostas.
A possibilidade abre caminho para uma futura nutrição personalizada, na qual a composição do microbioma ajudaria a determinar quais fibras seriam mais adequadas para cada indivíduo.
Essa tecnologia ainda está distante da rotina dos consultórios. Por enquanto, a recomendação é muito mais simples: consumir uma variedade maior de alimentos vegetais ricos em fibras.
Afinal, quando colocamos feijão, frutas, verduras ou grãos integrais no prato, não estamos alimentando apenas nosso próprio organismo. Estamos servindo o jantar para trilhões de micróbios que também podem ter bastante influência sobre nossa saúde.
[ Fonte: Wired ]