A infidelidade costuma ser encarada como uma das maiores rupturas dentro de um relacionamento. Em relações baseadas na exclusividade, ela representa uma quebra de confiança que pode ter consequências profundas. No entanto, a neurociência propõe uma perspectiva diferente sobre o tema. Em entrevista ao podcast Tiene Sentido, o neurocientista mexicano Eduardo Calixto afirma que os mecanismos envolvidos na fidelidade vão muito além da moral ou da simples força de vontade. Eles envolvem neurotransmissores, aprendizado, experiências da infância e a forma como o cérebro constrói vínculos afetivos.
A fidelidade não nasce com o cérebro, afirma especialista

Segundo Calixto, não existe uma região específica do cérebro responsável por tornar uma pessoa fiel.
Para ele, a fidelidade é principalmente um conceito psicológico e social, desenvolvido ao longo da vida por meio da educação, dos valores culturais e das experiências pessoais.
O especialista resume essa ideia ao afirmar que a infidelidade é resultado da interação entre processos neuroquímicos, aprendizado e contexto social, e não de um mecanismo biológico isolado.
Essa visão ajuda a explicar por que pessoas criadas em ambientes diferentes podem desenvolver comportamentos completamente distintos em seus relacionamentos.
O papel da dopamina na busca por novidades
Um dos elementos centrais dessa explicação é a dopamina, neurotransmissor conhecido por participar dos circuitos cerebrais ligados ao prazer, à motivação e ao sistema de recompensa.
Segundo Calixto, quando os níveis de dopamina diminuem, o cérebro tende naturalmente a procurar novas experiências capazes de reativar essas sensações de satisfação.
Isso, porém, não significa que uma pessoa inevitavelmente se tornará infiel.
Na prática, o desejo por novidades pode ser direcionado para inúmeras atividades, como viagens, esportes, desafios profissionais, hobbies ou outras formas de estímulo, sem envolver relacionamentos amorosos.
Sentir atração por outras pessoas é normal

O neurocientista destaca que perceber alguém atraente continua sendo uma reação natural mesmo em relacionamentos estáveis e duradouros.
Na visão dele, olhar para outra pessoa e reconhecer sua beleza ou seu charme não caracteriza uma traição.
A diferença está na forma como cada indivíduo administra esses impulsos e nas escolhas que faz a partir deles.
Para Calixto, o cérebro humano permanece capaz de perceber oportunidades sociais e afetivas durante toda a vida, independentemente do compromisso assumido com um parceiro.
É possível amar duas pessoas ao mesmo tempo?

Uma das afirmações mais debatidas do especialista é que o cérebro pode desenvolver sentimentos amorosos por mais de uma pessoa simultaneamente.
Segundo ele, o amor não funciona como um interruptor que liga ou desliga exclusivamente para um único indivíduo.
Isso significa que alguém pode experimentar vínculos afetivos importantes com duas pessoas ao mesmo tempo, embora normalmente estabeleça prioridades emocionais diferentes.
Na prática, a pessoa tende a dedicar mais tempo, atenção, investimento emocional e construção de projetos à relação considerada mais significativa naquele momento.
A infância também influencia os relacionamentos
Além da biologia, Calixto atribui grande importância às experiências vividas durante a infância.
Segundo ele, crianças aprendem observando os comportamentos presentes dentro da própria família. Quando convivem com infidelidade, abandono ou mentiras frequentes, essas situações podem ser incorporadas como modelos considerados normais.
Esse processo de aprendizado social contribui para a formação de redes neurais que influenciam a maneira como o indivíduo compreenderá os relacionamentos na vida adulta.
Isso não significa que alguém esteja condenado a repetir os padrões familiares, mas indica que o ambiente exerce influência importante sobre a construção das relações afetivas.
Diferenças entre homens e mulheres ainda geram debate
Durante a entrevista, Calixto também comentou que homens e mulheres podem apresentar tendências distintas ao escolher novos parceiros.
Segundo ele, as mulheres costumariam considerar de forma mais ampla aspectos relacionados à compatibilidade emocional, enquanto os homens tenderiam a atribuir maior peso à aparência física e à juventude, especialmente após os 40 anos.
Essas interpretações, no entanto, representam a opinião do neurocientista e fazem parte de um debate que permanece aberto dentro da psicologia e das ciências do comportamento, já que diversos estudos apontam que fatores culturais, sociais e individuais também exercem forte influência sobre as escolhas afetivas.
De forma geral, a neurociência reforça que sentimentos, atração e fidelidade resultam da interação entre biologia, aprendizado e contexto de vida. Assim, compreender o funcionamento do cérebro ajuda a explicar parte do comportamento humano, mas não elimina o papel das decisões individuais e dos valores que sustentam cada relacionamento.
[ Fonte: ABC ]