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Ciência

O combustível que sai do lixo e da gordura animal pode virar uma fortuna para um país da América Latina

Enquanto o mundo acelera uma revolução energética silenciosa, novos combustíveis feitos de resíduos começam a movimentar bilhões — e um país da América do Sul pode estar diante de uma oportunidade gigantesca.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, os biocombustíveis foram associados quase exclusivamente ao milho, à soja e à cana-de-açúcar. Mas uma nova transformação energética está mudando rapidamente esse cenário. Hoje, combustíveis produzidos a partir de óleo de cozinha usado, gordura animal e resíduos orgânicos começam a ganhar espaço em aviões, navios e até máquinas agrícolas. E segundo especialistas do setor, essa corrida global pode abrir uma janela histórica para países capazes de se adaptar rápido.

A nova geração de biocombustíveis está mudando o mercado global

O combustível que sai do lixo e da gordura animal pode virar uma fortuna para um país da América Latina
© Pexels

O avanço dos biocombustíveis deixou de ser apenas uma pauta ambiental para se transformar em um enorme mercado internacional. Segundo Agustín Torroba, especialista em Biocombustíveis e Energias Renováveis do IICA, o mundo vive uma demanda praticamente infinita por alternativas aos combustíveis fósseis.

A declaração foi feita durante um congresso da Maizar, onde o especialista afirmou que a Argentina pode ocupar uma posição estratégica nesse novo cenário, desde que consiga acompanhar as tendências globais que já movimentam governos e indústrias em diversos países.

Uma das principais mudanças é o crescimento acelerado da mistura de combustíveis renováveis à gasolina e ao diesel tradicionais. Atualmente, mais de 60 países já utilizam etanol misturado à gasolina. Segundo os dados apresentados no evento, sete em cada dez litros de gasolina consumidos no mundo já contêm parte de etanol.

O biodiesel também segue expandindo rapidamente. Hoje, cerca de 50 países utilizam esse combustível para substituir parte do diesel fóssil. E o movimento não para de crescer.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o uso da mistura E-15 — com maior proporção de etanol — foi liberado durante o ano inteiro. Na Índia, o avanço impressiona ainda mais: em apenas seis anos, o país saiu praticamente do zero para atingir uma mistura de 20% de etanol na gasolina.

Enquanto isso, o Brasil já planeja elevar sua mistura para 32%, consolidando sua posição como uma das maiores referências globais em biocombustíveis.

Combustíveis feitos de resíduos começam a dominar novos setores

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Mas a grande revolução atual vai muito além dos combustíveis produzidos diretamente de cultivos agrícolas.

Um dos produtos que mais crescem no setor é o HVO, conhecido como óleo vegetal hidrogenado. Esse combustível é produzido a partir de óleo de cozinha usado, gorduras animais e outros resíduos orgânicos. Apesar da origem incomum, ele possui características extremamente parecidas com o diesel tradicional.

Segundo Torroba, o HVO já representa cerca de 30% do mercado global ligado ao biodiesel e vem sendo considerado peça importante no processo de descarbonização do transporte.

Outra aposta gigantesca é o SAF, combustível sustentável para aviação. Esse produto pode ser fabricado tanto de forma convencional quanto a partir de resíduos e óleos usados, tornando-se uma das principais apostas mundiais para reduzir as emissões do setor aéreo.

Os números impressionam. A previsão é de que o mercado global de SAF alcance entre 10 e 20 milhões de metros cúbicos até 2030. Em 2050, mesmo em projeções consideradas conservadoras, o volume pode chegar a 43 milhões de metros cúbicos.

Para efeito de comparação, todos os biocombustíveis do planeta atualmente geram cerca de 180 milhões de metros cúbicos.

Apesar desse potencial, a Argentina ainda aparece atrasada no setor. Segundo o especialista, o país não possui nenhuma planta dedicada à produção de SAF, algo que poderia limitar sua competitividade nos próximos anos.

Aviões, navios e tratores entram na nova corrida energética

O avanço dos biocombustíveis também começa a atingir áreas que até pouco tempo pareciam difíceis de transformar.

No setor marítimo, por exemplo, combustíveis renováveis vêm sendo misturados ao fuel oil tradicional em uma tentativa de reduzir a pegada de carbono dos navios. O crescimento lembra o movimento visto recentemente na aviação.

Além disso, já existem embarcações dual fuel capazes de operar com metanol ou etanol puros, dependendo do porto onde são abastecidas. Atualmente, apenas 0,3% da frota mundial utiliza esse sistema, mas a procura por novos navios desse tipo cresce rapidamente.

A agricultura também entrou nessa transformação. Segundo Torroba, o Brasil já discute o uso de misturas puras de biocombustíveis em tratores e máquinas agrícolas para reduzir as emissões do setor e melhorar a imagem ambiental dos produtos exportados.

Para o especialista, a Argentina precisaria acelerar certificações, fortalecer cadeias produtivas e participar mais ativamente das discussões internacionais sobre sustentabilidade e combustíveis limpos.

A Argentina tenta não ficar para trás na revolução energética

Ao final do congresso, também foi lançado o Movimento para a Transição Energética e a Mobilidade Sustentável, iniciativa que pretende construir uma agenda comum para transformar a matriz energética argentina.

O grupo reúne montadoras, fabricantes de máquinas agrícolas, produtores de biocombustíveis e entidades do setor agroindustrial. A proposta é evitar disputas isoladas e construir projetos de longo prazo envolvendo combustíveis renováveis, hidrogênio verde, GNC e eletromobilidade.

No fundo, o que está em jogo é uma corrida econômica global que já começou. E enquanto vários países aceleram investimentos em novas fontes de energia, cresce o temor de que quem demorar para agir possa perder espaço em um mercado que promete movimentar bilhões nas próximas décadas.

[Fonte: La Nación]

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