Abrir um aplicativo de mapas e perceber que sua localização está completamente errada ao entrar em um shopping, estacionamento ou estação é uma situação comum. O problema não está no celular, mas na própria tecnologia usada pelos sistemas de navegação atuais. Agora, um experimento realizado com um satélite em órbita baixa mostrou que existe uma alternativa capaz de funcionar justamente onde o GPS costuma perder precisão.
Por que o GPS encontra dificuldades dentro de edifícios
Os sistemas de navegação por satélite revolucionaram a forma como nos deslocamos, mas ainda possuem uma limitação importante: eles dependem de sinais muito fracos que percorrem dezenas de milhares de quilômetros antes de chegar à Terra.
Embora seja comum chamar qualquer sistema de localização de GPS, os smartphones atuais utilizam diversas constelações de satélites, como GPS, Galileo, GLONASS e BeiDou. Todos oferecem excelente desempenho em áreas abertas, mas enfrentam dificuldades quando o usuário entra em prédios, estacionamentos subterrâneos, centros comerciais ou locais cercados por grandes estruturas.
Nesses ambientes, paredes, tetos e estruturas metálicas reduzem a intensidade do sinal e provocam reflexos que confundem os receptores. Como consequência, a posição exibida pode apresentar erros significativos ou simplesmente deixar de ser calculada.
Foi justamente para tentar resolver esse problema que uma empresa desenvolveu um novo sistema de navegação baseado em satélites muito mais próximos da superfície terrestre. Em vez de operar a cerca de 20 mil quilômetros de altitude, como ocorre com o GPS tradicional, a proposta utiliza satélites em órbita baixa, a aproximadamente 1.080 quilômetros da Terra.
Essa diferença reduz consideravelmente a distância percorrida pelo sinal, permitindo transmissões mais fortes e aumentando as chances de atravessar obstáculos que normalmente impedem a recepção.
Um único satélite conseguiu calcular uma posição dentro de um prédio
O primeiro satélite experimental do projeto foi lançado em junho de 2025 e continua sendo utilizado em testes de validação. Em um dos experimentos mais recentes, realizado em Montreal, um receptor instalado dentro de um edifício conseguiu captar o sinal enviado pelo satélite enquanto um equipamento de comparação não conseguiu detectar nenhum satélite GPS convencional.
Os pesquisadores observaram que o novo sinal chegava ao local com potência entre 10 e 15 decibéis superior à dos sistemas tradicionais. Isso não significa que ele consiga atravessar qualquer tipo de construção, já que concreto armado, estruturas metálicas e outros fatores continuam influenciando a recepção. Ainda assim, o teste demonstrou que sinais provenientes da órbita baixa conseguem alcançar locais onde o GPS frequentemente falha.
Na primeira demonstração, a posição calculada apresentou um erro horizontal de aproximadamente 39 metros. Embora essa precisão ainda esteja distante do ideal para aplicações cotidianas, ela foi suficiente para comprovar que o sistema consegue estimar uma localização mesmo em ambientes fechados.
Em outras medições realizadas próximas a janelas e escadas, a margem de erro caiu para poucos metros. Porém, nesses casos os algoritmos já possuíam uma estimativa inicial da posição, o que facilita significativamente o cálculo.
Outro diferencial da tecnologia é a forma como ela determina a localização. Enquanto os sistemas convencionais dependem da recepção simultânea de vários satélites, esse novo método aproveita o rápido movimento dos satélites em órbita baixa e a variação da frequência do sinal causada pelo efeito Doppler. Com isso, torna-se possível calcular uma posição utilizando apenas um satélite durante sua passagem.
A tecnologia ainda está no começo, mas mostra um futuro promissor
Apesar dos resultados animadores, a nova solução ainda está longe de substituir o GPS tradicional. Atualmente existe apenas um satélite operacional para testes, enquanto a proposta prevê a construção de uma constelação com mais de 250 unidades para garantir cobertura contínua.
A empresa responsável já iniciou a produção em larga escala e pretende lançar novos satélites ao longo dos próximos anos. Nas fases iniciais, o sistema deverá atender principalmente aplicações de logística, rastreamento de equipamentos, sincronização de redes e dispositivos conectados.
Mesmo assim, a demonstração representa um avanço importante. Se a constelação for concluída e os receptores forem adaptados para essa tecnologia, localizar pessoas, veículos e equipamentos dentro de edifícios poderá deixar de ser um dos maiores desafios da navegação por satélite. O experimento mostrou que o sinal consegue chegar onde antes praticamente desaparecia. Agora, o próximo passo será transformar esse avanço em uma solução disponível para o dia a dia.