O Radiotelescópio Chino-Argentino (CART) prometia transformar a América do Sul em protagonista da radioastronomia global. Com uma antena de 40 metros de diâmetro e tecnologia de ponta, o projeto já estava quase concluído. Porém, desde junho de 2025, quando o acordo bilateral que o sustentava expirou, reina um silêncio administrativo que pode condenar a iniciativa ao abandono, apesar de contar com mais de 95% de financiamento chinês.
Uma máquina para ouvir o universo
Localizado a mais de 2.300 metros de altitude, em Barreal, Calingasta, o CART foi concebido como parte de uma rede internacional de observatórios. Com sua sensibilidade, poderia captar sinais de explosões de supernovas, galáxias ativas e sistemas estelares exóticos, além de realizar medições geodésicas de alta precisão. Isso permitiria desde acompanhar o movimento das placas tectônicas até melhorar a navegação por satélite no hemisfério sul.
“A importância é imensa”, destaca a astrônoma Gloria Dubner. “Seria um instrumento de referência para toda a América Latina, colocando a região em diálogo direto com a comunidade científica global.”
Um acordo que se apagou sem aviso
O problema não é técnico nem financeiro: a China investiu 36 milhões de dólares, enquanto a Argentina aportou infraestrutura e pessoal. O entrave é político. O convênio original, firmado em 2015 entre o Conicet, a Universidade Nacional de San Juan (UNSJ) e os Observatórios Astronômicos Nacionais da Academia Chinesa de Ciências, venceu em junho e não foi renovado.
Segundo Jorge Castro, decano da Faculdade de Ciências Exatas da UNSJ, a universidade tentou manter o projeto ativo com acordos próprios, mas a falta de respaldo do governo nacional e do Conicet deixou tudo em suspenso. “O projeto ficou no ar. É um silêncio de rádio absoluto”, lamenta.
A antena parada sob o céu andino
Enquanto as autoridades não se pronunciam, a antena principal já montada permanece inativa. Componentes essenciais, que chegaram em setembro, seguem retidos na alfândega. Cada mês de espera aumenta o risco de danos, atrasos e perda de credibilidade internacional. “Seria um cientificídio deixar este projeto morrer”, afirma Castro.
Além das observações, o CART teria papel crucial na formação de jovens pesquisadores, abrindo caminho para que a Argentina desenvolvesse especialistas em radioastronomia, área em que possui pouca infraestrutura. A cooperação com a antena argentino-brasileira LLAMA poderia ainda criar um sistema de observação sem precedentes na região.
Entre ciência e geopolítica
Embora alguns setores políticos expressem desconfiança em relação a projetos chineses no país, pesquisadores insistem que o CART é um empreendimento civil e de acesso aberto. “A ciência não tem fronteiras”, defende Castro. “Aqui convivem colaborações com Rússia, França e Estados Unidos. O importante é cooperar.”
O verdadeiro temor da comunidade científica não vem de pressões externas, mas da falta de decisão interna, que pode fazer a Argentina perder uma oportunidade histórica de liderar pesquisas de ponta.
O risco de perder uma década de trabalho
O projeto nasceu de uma colaboração em 2004 e, formalizado em 2015, deveria iniciar operações em 2026. Mas a demora já mina a confiança internacional. “Se este radiotelescópio não sair do papel, será uma perda irreparável de prestígio e de futuro científico”, alerta Dubner.
A decisão que definirá o futuro da ciência
Mais que uma estrutura metálica, o CART simboliza a chance de a Argentina se afirmar como polo científico global. Sua paralisação não significaria apenas perder um radiotelescópio, mas encerrar um capítulo de cooperação internacional e desenvolvimento científico.
Nas montanhas de San Juan, a antena monumental permanece imóvel, esperando. Cada dia sem resposta é um dia a menos para que a ciência argentina possa finalmente ouvir o céu.