As maiores erupções vulcânicas da história não parecem ter acontecido de maneira completamente aleatória. Ao reconstruir centenas de milhões de anos de atividade geológica e compará-los com imagens indiretas das profundezas terrestres, pesquisadores encontraram uma conexão que atravessa o tempo. A pista não está nos vulcões em si, mas em estruturas gigantescas escondidas muito abaixo da superfície, onde o manto encontra a região próxima ao núcleo.
O padrão estava escondido em 300 milhões de anos de história
Um vulcão pode parecer um fenômeno isolado: uma montanha entra em atividade, libera magma e gases e, depois, volta ao silêncio. Mas as maiores erupções da Terra podem ter uma história muito mais profunda.
Para investigar isso, pesquisadores da Austrália e da França reconstruíram a distribuição de grandes episódios vulcânicos ocorridos ao longo dos últimos 300 milhões de anos. Depois, compararam esses registros com diferentes modelos que tentam reconstruir o movimento do manto terrestre.
O resultado chamou atenção porque as erupções não se distribuíram de maneira completamente aleatória.
O estudo encontrou uma relação estatística entre os locais reconstruídos das grandes erupções e as trajetórias de estruturas conhecidas como plumas do manto. Essas plumas são grandes colunas de material quente que sobem lentamente através do interior do planeta e podem alimentar enormes volumes de magma na superfície.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores compararam três bases de dados de erupções, quatro modelos de tomografia sísmica e seis reconstruções do fluxo global do manto. A combinação permitiu testar se o padrão continuava aparecendo mesmo quando os modelos utilizados eram diferentes.
E foi justamente quando os cientistas olharam ainda mais para baixo que a história ficou mais interessante.

Duas estruturas gigantes podem estar por trás das plumas
As plumas não parecem surgir simplesmente de qualquer ponto do manto. Os modelos indicam uma ligação com enormes estruturas situadas na base do manto, próximas à fronteira entre o manto e o núcleo, a cerca de 2.900 quilômetros abaixo da superfície.
Essas regiões são conhecidas como Large Low Shear Velocity Provinces, ou LLSVPs. Existem duas grandes estruturas desse tipo, aproximadamente opostas uma à outra: uma sob a região da África e outra sob o Pacífico. Elas são tão gigantescas que suas dimensões podem ser medidas em milhares de quilômetros.
A ideia central é que essas estruturas profundas funcionariam como regiões capazes de gerar ou alimentar as plumas que atravessam o manto.
Mas há um detalhe importante: as grandes erupções não aparecem necessariamente exatamente sobre o centro dessas estruturas.
O novo estudo indica que muitos dos eventos vulcânicos reconstruídos estão associados às regiões próximas às estruturas basais móveis, enquanto os modelos de plumas mostram os caminhos pelos quais o material quente poderia subir em direção à superfície.
Isso muda a maneira de imaginar a conexão entre o que acontece no fundo da Terra e o que vemos na superfície.
Em vez de pensar em um vulcão como uma estrutura essencialmente local, ele pode ser a manifestação final de um processo que começou milhares de quilômetros abaixo.
O que isso pode revelar sobre futuras erupções
A descoberta não significa que os cientistas agora conseguem prever a próxima supererupção com data e localização. O manto terrestre continua sendo uma das regiões mais difíceis de estudar diretamente.
Ninguém consegue simplesmente perfurar até essas profundidades. Para reconstruir sua estrutura, os pesquisadores dependem principalmente de métodos indiretos, como a tomografia sísmica, que utiliza o comportamento das ondas produzidas por terremotos para criar imagens do interior do planeta.
Os modelos de dinâmica do manto acrescentam outra peça ao quebra-cabeça: permitem simular como materiais quentes e densos podem se deslocar ao longo de milhões de anos.
O estudo mostrou que as grandes erupções analisadas estão mais relacionadas estatisticamente às estruturas profundas e às plumas modeladas do que seria esperado por uma distribuição aleatória. Os autores também encontraram uma associação particularmente forte entre as erupções e estruturas basais móveis.
Isso abre uma possibilidade interessante para o futuro.
Se os pesquisadores conseguirem compreender melhor como essas estruturas se deslocam, como as plumas nascem e como chegam à superfície, talvez seja possível melhorar os modelos de risco vulcânico em escalas de tempo muito maiores.
Mas existe uma grande diferença entre entender um padrão geológico e prever uma catástrofe específica.
A principal descoberta está em outro lugar: algumas das maiores erupções da história terrestre parecem carregar a assinatura de processos que começaram nas regiões mais profundas do planeta.
Durante 300 milhões de anos, a superfície mudou, os continentes se moveram e vulcões surgiram e desapareceram. Ainda assim, uma conexão entre essas erupções e estruturas gigantes escondidas no interior da Terra continua aparecendo nos modelos.
As maiores explosões vulcânicas podem, portanto, ser apenas a ponta de uma história que começa quase 3.000 quilômetros abaixo dos nossos pés.