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Ciência

Orcas e golfinhos cruzaram um ponto sem volta na evolução e nunca retornarão à terra firme

Um estudo com mais de 5.600 espécies de mamíferos indica que os cetáceos ultrapassaram um limite evolutivo irreversível. Depois de milhões de anos de adaptações, o oceano se tornou seu habitat definitivo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Ao observar uma orca mostrando a nadadeira ou um golfinho acompanhando um barco, é difícil imaginar que seus ancestrais caminhavam sobre a terra. Mas eles caminhavam. Ao longo de milhões de anos, esses animais passaram por transformações profundas até se tornarem completamente aquáticos.

Isso levanta uma pergunta curiosa: seria possível que seus descendentes voltassem algum dia à terra firme?

Segundo pesquisadores da Universidade de Friburgo, da Universidade de Gotemburgo e do Swiss Institute of Bioinformatics, a resposta é praticamente não. Um estudo publicado na Proceedings of the Royal Society B analisou 5.635 espécies de mamíferos atuais e recentemente extintos e identificou um verdadeiro ponto evolutivo sem retorno.

Existe um limite entre viver na água e poder voltar à terra

Orcas E Golfinhos Cruzaram Uma Fronteira Evolutiva E Não Podem Mais Voltar à Terra Firme
© Bart – Unsplash

Para entender essas mudanças, os pesquisadores dividiram os mamíferos em quatro categorias de acordo com sua dependência da água.

Na primeira estão espécies totalmente terrestres, sem adaptações aquáticas. Depois aparecem animais capazes de viver parcialmente na água, mas que continuam se movimentando normalmente em terra, como os castores.

O terceiro grupo reúne espécies com mobilidade terrestre limitada, como pinípedes e lontras-marinhas. Por último estão os mamíferos completamente aquáticos, incluindo baleias, golfinhos, orcas e sirênios.

Dos animais analisados, 96,7% eram terrestres e apenas 3,3% apresentavam algum nível de adaptação à vida aquática.

O resultado mais interessante apareceu justamente na passagem entre os animais que ainda se movimentam normalmente em terra e aqueles cuja mobilidade terrestre já está bastante comprometida.

Antes desse limite, a evolução pode seguir nos dois sentidos. Uma linhagem semiaquática poderia, teoricamente, voltar a desenvolver um estilo de vida predominantemente terrestre.

Depois dele, porém, o caminho de volta praticamente desaparece.

Orcas e golfinhos estão muito além desse ponto

Golfinhos estão vivendo menos — e a culpa é da pesca
© Pexels

Os modelos evolutivos não encontraram evidências relevantes de linhagens altamente adaptadas à água retornando posteriormente para formas mais terrestres.

Isso é compatível com a chamada Lei de Dollo, princípio da biologia evolutiva segundo o qual características complexas perdidas durante a evolução dificilmente reaparecem exatamente como eram.

Os cetáceos estão muito além desse limite.

Isso não significa, obviamente, que uma orca seja incapaz de colocar parte do corpo fora da água ou que um golfinho não possa encalhar em uma praia. A pesquisa analisa transformações de linhagens inteiras ao longo de milhões de anos, e não o comportamento individual dos animais.

A conclusão é que baleias, orcas e golfinhos acumularam tantas adaptações à vida marinha que uma transição evolutiva de volta à terra se tornou extremamente improvável.

Viver na água também transformou o tamanho dos animais

O estudo encontrou outro padrão interessante: quanto maior a dependência da água, maior tende a ser o tamanho corporal.

Existe uma explicação física para isso. A água remove calor do corpo com muito mais eficiência que o ar. Para um mamífero de sangue quente, manter a temperatura corporal no oceano exige bastante energia.

Corpos maiores ajudam porque possuem uma relação menor entre superfície e volume, reduzindo proporcionalmente a perda de calor.

Os pesquisadores observaram uma tendência de aumento da massa corporal nas linhagens que passaram da terra para ambientes aquáticos.

Também encontraram uma associação entre maior dependência da água e dietas mais carnívoras. Uma possível explicação está nas elevadas necessidades energéticas de animais grandes e ativos que precisam manter a temperatura corporal no ambiente marinho.

O oceano é o único caminho para os cetáceos

Fratura Sob O Oceano1
© Marcin Jucha – Shutterstock

A descoberta também traz implicações importantes para a conservação.

Se os cetáceos ultrapassaram um ponto evolutivo sem retorno, eles não possuem uma alternativa terrestre diante de mudanças drásticas nos oceanos. Sua sobrevivência depende completamente da manutenção de ambientes marinhos habitáveis.

Poluição, sobrepesca, ruído submarino, aquecimento dos oceanos e acidificação representam ameaças que esses animais não podem simplesmente evitar migrando para outro tipo de ambiente.

O geneticista Virag Sharma destacou que o estudo oferece evidências importantes sobre uma questão antiga da evolução, embora tenha ressaltado que a análise se concentra apenas nos mamíferos. Estudos semelhantes com outros grupos de vertebrados poderiam revelar se o mesmo padrão aparece em diferentes partes da árvore da vida.

Para orcas e golfinhos, porém, a história evolutiva parece ter tomado uma direção definitiva. Seus ancestrais deixaram a terra firme milhões de anos atrás — e seus descendentes provavelmente nunca voltarão.

 

[ Fonte: JaraySedal ]

 

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