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Ciência

Um experimento tentou descobrir se a consciência pode sair do corpo — mas o resultado mais estranho não estava no teste

Cientistas montaram um experimento rigoroso para colocar uma experiência humana extraordinária à prova. O resultado esperado não apareceu, mas dois participantes perceberam algo que ninguém estava procurando.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Flutuar acima do próprio corpo, atravessar mentalmente uma sala e observar acontecimentos de uma perspectiva impossível. Relatos assim acompanham a humanidade há muito tempo, mas transformar essas experiências em algo verificável é outra história. Um grupo de pesquisadores decidiu encarar justamente esse desafio com um experimento cuidadosamente controlado. A hipótese principal não passou pelo teste. Só que, no meio das sessões, aconteceu algo bem mais difícil de ignorar.

Três salas foram usadas para eliminar as pistas mais óbvias

A pesquisa foi conduzida pela neurocientista Marina Weiler, da Divisão de Estudos Perceptivos da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, e contou com 21 pessoas experientes em técnicas destinadas a provocar experiências extracorporais.

O experimento, realizado no Brasil, utilizou três ambientes separados.

Em uma sala ficava o participante. Em outra permaneciam os pesquisadores. Uma terceira abrigava um computador que exibia a imagem que deveria ser identificada durante a suposta experiência extracorporal.

A tela estava posicionada de maneira que ninguém pudesse simplesmente enxergá-la de outro cômodo.

Havia ainda outro cuidado importante: nem os pesquisadores sabiam qual imagem apareceria. A seleção era automatizada, e o objetivo só seria conhecido pela equipe meses depois, durante a análise dos resultados.

Dos 21 participantes, 13 apresentaram alguma descrição daquilo que acreditavam ter percebido. Dez disseram ter conseguido vivenciar uma experiência extracorporal durante a sessão.

Era então o momento de responder à grande pergunta: alguém havia visto a imagem escondida?

O teste principal entregou uma resposta bastante clara

Para evitar que um avaliador humano interpretasse subjetivamente as descrições, os cientistas recorreram a um modelo de linguagem.

O sistema comparou cada relato com um conjunto de 100 imagens possíveis e classificou aquelas que mais se aproximavam semanticamente do que havia sido descrito.

Se os participantes realmente tivessem percebido o alvo escondido, seria esperado que a imagem correta aparecesse repetidamente entre as primeiras posições.

Isso não aconteceu.

Os alvos verdadeiros ficaram entre as posições 16 e 92 nas diferentes tentativas. Considerados em conjunto, os resultados não foram melhores do que aquilo que poderia ser obtido pelo acaso.

Os pesquisadores também verificaram se o próprio método de comparação funcionava. Quando forneciam ao sistema descrições realmente precisas das imagens, os alvos corretos eram identificados.

Até esse momento, portanto, o experimento parecia ter chegado a uma conclusão pouco misteriosa: não havia evidência de que os participantes tivessem conseguido perceber a imagem escondida.

Então surgiram dois relatos que não faziam parte da pergunta original.

Dois participantes olharam para o lugar “errado”

Sem terem sido solicitados a fazer isso, dois voluntários descreveram acontecimentos na sala onde estavam os pesquisadores.

E alguns detalhes chamaram a atenção.

Um deles relatou uma configuração em que uma pessoa trabalhava diante de um computador à esquerda, enquanto outra lia mais ao fundo. Em outra sessão, um participante descreveu uma organização diferente, incluindo alguém tomando notas à direita e outra pessoa utilizando um computador à esquerda.

Quando os cientistas verificaram os registros, descobriram que as descrições correspondiam à disposição real da equipe durante aquelas sessões.

O detalhe se tornou ainda mais intrigante porque aquelas não eram necessariamente as posições habituais dos pesquisadores.

Isso poderia parecer uma confirmação espetacular da experiência extracorporal. Mas os próprios autores não chegaram nem perto de fazer essa afirmação.

Essas observações não estavam previstas no protocolo, não constituíam o alvo oficial do teste e não passaram por uma avaliação estatística criada antecipadamente para verificar essa hipótese.

Em ciência, essa diferença é enorme.

Uma coincidência encontrada depois que os dados já existem pode servir para formular uma nova pergunta. Ela não possui o mesmo peso de um resultado obtido em um teste desenhado especificamente para verificar aquela possibilidade.

A ciência já conseguiu provocar sensações parecidas

Experiências extracorporais também são estudadas por outro caminho.

Pesquisas anteriores conseguiram induzir sensações semelhantes em pessoas saudáveis utilizando realidade virtual e conflitos entre informações visuais e corporais. Esses experimentos indicam que nossa sensação de estar localizada dentro do próprio corpo depende da integração de diferentes sinais sensoriais.

Quando eles entram em conflito, o cérebro pode produzir uma percepção extremamente convincente de deslocamento do “eu”.

Isso não resolve, entretanto, a pergunta específica levantada pelo novo trabalho.

Os dois relatos inesperados podem ter explicações convencionais ainda não identificadas, podem ser coincidências ou podem apontar para alguma variável que mereça novos testes.

Existe inclusive um precedente histórico curioso. Experimentos realizados décadas atrás com Robert Monroe também produziram uma situação em que o alvo oficial não foi identificado, mas o participante relatou inesperadamente a presença de uma pessoa próxima aos pesquisadores. Na época, o próprio responsável pelo estudo reconheceu que explicações normais não podiam ser descartadas.

O próximo experimento pode ser muito mais interessante

Em vez de apresentar os resultados como prova de que a consciência abandona fisicamente o corpo, Weiler e seus colegas enxergam neles uma oportunidade para melhorar futuros testes.

Uma possibilidade seria abandonar imagens estáticas pouco memoráveis.

Os pesquisadores sugerem utilizar alvos mais chamativos ou emocionalmente marcantes, incluindo elementos escondidos fáceis de descrever, como uma peça de roupa de cor intensa. Dessa forma, seria possível definir previamente exatamente aquilo que precisaria ser identificado.

É aí que o inesperado resultado ganha importância.

O experimento não demonstrou que pessoas conseguem enxergar locais inacessíveis durante experiências extracorporais. Seu teste principal, na verdade, não encontrou desempenho superior ao acaso.

Mas os dois relatos espontâneos deixaram uma hipótese que agora pode ser colocada à prova corretamente.

E talvez essa seja a parte mais fascinante da ciência: às vezes, uma experiência não responde à pergunta que os pesquisadores fizeram.

Em compensação, deixa uma pergunta muito melhor para o próximo experimento.

[Fonte: DW]

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