Para chegar a Marte algum dia, primeiro é preciso aprender a sobreviver na Terra em situações que quase ninguém enfrentaria voluntariamente. É justamente isso que dez candidatos a astronauta da NASA estão fazendo. Eles voam em jatos supersônicos, mergulham com trajes especiais, estudam rochas, enfrentam câmaras de baixa pressão e treinam para aterrissagens inesperadas. Tudo para uma carreira na qual um pequeno erro pode acontecer a milhões de quilômetros de casa.
Mais de 8 mil pessoas tentaram chegar até aqui

A atual turma de candidatos a astronauta da NASA foi escolhida entre mais de 8 mil inscritos.
São pilotos de testes militares, engenheiros, uma médica e uma cientista com trajetórias bastante diferentes, mas que agora compartilham o mesmo objetivo: completar quase dois anos de treinamento no Centro Espacial Johnson, em Houston.
A formação é necessária antes que eles possam integrar oficialmente o corpo ativo de astronautas.
Se concluírem o programa conforme o planejado, estarão elegíveis para receber futuras designações de voo. Isso pode significar trabalhar na órbita baixa da Terra, participar de missões do programa Artemis à Lua ou, mais adiante, contribuir para a exploração humana de Marte.
E o treinamento deixa claro por que simplesmente ser cientista, engenheiro ou excelente piloto não basta.
Um astronauta precisa saber fazer um pouco de praticamente tudo.
Voar a velocidades supersônicas faz parte da rotina

Uma das etapas coloca os candidatos dentro dos T-38, jatos supersônicos utilizados há décadas no treinamento de astronautas americanos.
A intenção não é apenas ensinar alguém a pilotar.
Voar nessas aeronaves obriga os tripulantes a processar informações rapidamente, comunicar-se com precisão e tomar decisões enquanto enfrentam uma carga de trabalho elevada.
São habilidades bastante úteis quando você está dentro de uma espaçonave e alguma coisa não acontece conforme o planejado.
A turma também participou de voos nos WB-57, aeronaves da NASA capazes de operar em grandes altitudes.
Depois vem uma experiência ainda menos confortável.
Usando trajes e capacetes de voo, os candidatos entram em câmaras especiais capazes de reproduzir desde condições semelhantes às encontradas ao nível do mar até pressões próximas ao vácuo.
O objetivo é entender os riscos associados a ambientes extremos e praticar os protocolos necessários caso algo dê errado.
Para chegar à Lua, eles precisam aprender a olhar para pedras
Uma das disciplinas aparentemente mais simples talvez seja também uma das mais importantes: geologia.
Em maio, os candidatos deixaram as salas de aula de Houston e viajaram ao Monumento Nacional Río Grande del Norte, no Novo México.
Depois, parte da turma participou de exercícios na Islândia.
Ali, o terreno vulcânico funciona como uma espécie de laboratório natural para aquilo que futuros astronautas poderão encontrar fora da Terra.
Eles aprendem a observar formações geológicas, reconhecer características importantes, coletar amostras, utilizar ferramentas e registrar informações que cientistas poderão analisar posteriormente.
Isso será particularmente relevante para futuras missões Artemis.
Um astronauta caminhando pela Lua não poderá simplesmente recolher qualquer pedra interessante. Será necessário identificar rapidamente quais amostras podem responder às perguntas científicas mais importantes da missão.
E Marte torna esse desafio ainda maior.
Existe até treinamento para cair no lugar errado
Nem toda missão termina exatamente onde estava planejado.
Por isso, os candidatos também precisam aprender a sobreviver caso uma espaçonave aterrisse em uma região remota.
O programa inclui exercícios de sobrevivência em terra e na água.
Parte dessa preparação acontece no gigantesco Laboratório de Flutuabilidade Neutra, em Houston, uma enorme piscina utilizada pela NASA para simular algumas das condições experimentadas durante atividades extraveiculares.
É ali que astronautas treinam procedimentos semelhantes aos realizados durante caminhadas espaciais.
Os candidatos também praticam situações de sobrevivência aquática, tomada de decisões sob pressão e coordenação de equipes.
A lógica é simples: uma pessoa capaz de operar equipamentos extremamente sofisticados no espaço também precisa saber o que fazer se terminar uma missão esperando resgate em um ambiente hostil.
Eles também precisam aprender a consertar aquilo que pode quebrar
No espaço não existe assistência técnica na esquina.
Por isso, a formação inclui sistemas de espaçonaves, robótica, procedimentos de emergência, manutenção e reparos.
Os candidatos aprendem ainda a operar tecnologias como o Canadarm2, braço robótico utilizado na Estação Espacial Internacional para movimentar equipamentos e auxiliar determinadas operações.
Há também treinamento intercultural e linguístico.
Missões espaciais são cada vez mais internacionais, o que significa trabalhar durante longos períodos com pessoas de diferentes países, idiomas e culturas.
A preparação, portanto, não testa apenas músculos ou conhecimento técnico.
Ela também avalia comunicação, capacidade de adaptação, resistência psicológica e trabalho em equipe.
Marte ainda está longe, mas o treinamento começa agora
Concluir esse programa não significa receber imediatamente uma passagem para Marte.
Depois da graduação prevista para 2027, os candidatos entrarão no corpo ativo de astronautas e ficarão disponíveis para futuras missões.
Alguns poderão trabalhar em pesquisas na Estação Espacial Internacional. Outros poderão participar das próximas etapas do programa Artemis e da construção de uma presença humana mais duradoura ao redor e sobre a Lua.
A NASA vê essa experiência lunar como parte do caminho para algo muito mais ambicioso: preparar tecnologias, procedimentos e pessoas para futuras expedições humanas a Marte.
E é por isso que atividades aparentemente desconectadas — pilotar um T-38, identificar uma rocha na Islândia ou sobreviver dentro de uma piscina — fazem parte da mesma preparação.
Antes de colocar seres humanos a milhões de quilômetros da Terra, a agência precisa ter certeza de que eles conseguem lidar com quase qualquer situação.
Porque em uma futura missão a Marte, voltar rapidamente para casa simplesmente não será uma opção.
[Fonte: Infobae]