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Ciência

O que acontece no cérebro ao rezar o Pai-Nosso intriga a ciência e um padre psicólogo explica o fenômeno

Um padre italiano com formação em psicologia chamou atenção ao relacionar oração, atividade cerebral e resposta ao estresse. Para ele, porém, os efeitos observados contam apenas parte da história.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Rezar pode parecer, para muitas pessoas, simplesmente repetir palavras aprendidas desde a infância. Mas a oração envolve processos de atenção, memória, emoção e reflexão que também despertam o interesse da ciência. É justamente nesse encontro entre espiritualidade e funcionamento cerebral que um padre e psicólogo italiano ganhou espaço nas redes sociais, ao explicar o que determinadas pesquisas sugerem sobre os efeitos de práticas religiosas no cérebro.

Rezar não significa apenas repetir uma oração conhecida

O que acontece no cérebro ao rezar o Pai-Nosso intriga a ciência e um padre psicólogo explica o fenômeno
© Diana Simumpande – Unsplash

Quando se fala em oração cristã, é comum pensar imediatamente no Pai-Nosso, na Ave-Maria ou em outras fórmulas tradicionais. Essa prática, conhecida como oração vocal, porém, representa apenas uma das diferentes maneiras de rezar dentro da tradição cristã.

Ao longo dos séculos, diferentes santos defenderam que a oração poderia assumir formas muito mais amplas. Santo Agostinho associava o canto à oração, enquanto São Josemaria Escrivá relacionava o estudo realizado com determinada disposição interior a uma forma de rezar.

A própria prática das obras de misericórdia, como acompanhar uma pessoa doente, ajudar alguém em dificuldade ou exercitar a paciência, também pode adquirir dimensão espiritual para os fiéis.

Entre essas diferentes possibilidades está a chamada oração mental, entendida na tradição católica como um diálogo íntimo com Deus. Nesse tipo de prática, entram em jogo memória, inteligência, imaginação e vontade.

Ela também não depende necessariamente de um lugar específico. Pode acontecer diante de um sacrário, dentro de um ônibus, durante uma caminhada ou no silêncio do quarto antes de dormir.

Mas é justamente o que ocorre durante esses momentos de concentração e recolhimento que começou a despertar outro tipo de interesse.

Um padre psicólogo decidiu olhar para a oração pelo cérebro

O que acontece no cérebro ao rezar o Pai-Nosso intriga a ciência e um padre psicólogo explica o fenômeno
© YouTube

Don Cosimo Schena é sacerdote católico italiano, mas sua trajetória possui uma característica que ajuda a explicar sua abordagem nas redes sociais: ele também estudou psicologia clínica.

Com centenas de milhares de seguidores, Schena publica conteúdos nos quais aproxima temas ligados à fé, à oração e à psicologia. Em uma de suas reflexões recentes, chamou atenção ao abordar aquilo que acontece no cérebro durante a oração.

Segundo o sacerdote, pesquisas que analisam práticas contemplativas e religiosas indicam mudanças na atividade de regiões cerebrais associadas às emoções, à atenção e ao controle do comportamento.

Entre elas está a amígdala, estrutura cerebral envolvida no processamento de ameaças e medo. Estados de relaxamento e determinadas práticas contemplativas podem estar associados a alterações em sua atividade e a uma resposta menos intensa ao estresse.

Outra região frequentemente discutida nesse contexto é o córtex pré-frontal, relacionado a processos como tomada de decisões, atenção, planejamento e controle dos impulsos.

Isso não significa, porém, que simplesmente pronunciar uma oração produza automaticamente um resultado neurológico específico ou idêntico em todas as pessoas. Os efeitos podem depender da forma de oração, do grau de concentração, da experiência religiosa e de outros fatores.

Para Schena, entretanto, existe uma maneira particularmente interessante de interpretar essas mudanças.

A chamada “biologia da paz” por trás da oração

O sacerdote descreve esse fenômeno como uma espécie de “biologia da paz”. Em sua interpretação, durante uma oração profunda a pessoa não estaria apenas pronunciando palavras, mas conduzindo corpo e mente para longe de um estado permanente de alerta.

A atenção deixa de permanecer concentrada exclusivamente em ameaças e preocupações e pode se voltar para sentimentos como confiança, gratidão e esperança.

Essa mudança também ajuda a compreender por que práticas contemplativas, religiosas ou não, são frequentemente associadas a sensações de tranquilidade e regulação emocional.

O que acontece no cérebro ao rezar o Pai-Nosso intriga a ciência e um padre psicólogo explica o fenômeno
© Ruly Nurul Ihsan – Pexels

Do ponto de vista psicológico, momentos de silêncio, concentração e reflexão podem favorecer uma interrupção temporária do fluxo de preocupações que acompanha situações de estresse. A respiração pode ficar mais regular e a atenção passa a ser direcionada para um objeto específico, como uma oração.

Schena interpreta esse processo a partir de duas perspectivas diferentes.

A ciência pode observar alterações fisiológicas, atividade cerebral e respostas emocionais. A fé, por sua vez, atribui significado espiritual à experiência.

É nesse ponto que o sacerdote estabelece a distinção que tornou sua reflexão especialmente popular.

Onde termina a explicação científica e começa a experiência religiosa

Para Don Cosimo, aquilo que a ciência descreve como bem-estar não esgota o significado que a oração possui para quem acredita em Deus.

Uma pessoa sem fé também pode experimentar calma durante momentos de introspecção, silêncio ou meditação. Os mecanismos fisiológicos envolvidos não são exclusivos dos cristãos nem demonstram, por si mesmos, a existência de uma realidade sobrenatural.

Para um fiel, entretanto, a experiência possui outra dimensão.

Schena resume essa diferença afirmando que aquilo que a ciência pode chamar de bem-estar é interpretado pelo cristão como presença de Deus.

A distinção é importante porque estudos sobre atividade cerebral conseguem investigar o que acontece fisiologicamente durante determinadas experiências, mas não podem estabelecer cientificamente o significado espiritual atribuído a elas.

O próprio sacerdote também faz uma ressalva fundamental: transformar a oração simplesmente em uma técnica de relaxamento seria perder seu objetivo religioso.

Na tradição cristã, a finalidade não é apenas reduzir ansiedade, controlar impulsos ou produzir tranquilidade física. Esses efeitos podem eventualmente acompanhar a prática, mas não constituem sua razão principal.

Para Schena, o centro continua sendo o encontro com Deus.

E talvez seja justamente aí que ciência e religião observem o mesmo momento por perspectivas completamente diferentes: enquanto uma tenta compreender o que muda no cérebro, a outra procura explicar o que essa transformação significa para quem está rezando.

[Fonte: abc]

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