Dor de cabeça persistente, náuseas, dificuldade para falar ou até um simples formigamento nos dedos costumam ser atribuídos ao estresse ou ao cansaço. No entanto, em situações específicas, esses sinais podem revelar um problema muito mais sério. Especialistas alertam que reconhecer os sintomas precocemente faz toda a diferença, especialmente diante de um avanço terapêutico que promete transformar o tratamento de um dos tumores cerebrais mais desafiadores.
O tumor que pode começar de forma discreta

Os gliomas estão entre os tumores cerebrais mais frequentes e se desenvolvem a partir das chamadas células da glia, responsáveis por dar suporte e proteção aos neurônios. Quando essas células passam a crescer de maneira descontrolada, formam uma massa que pode comprimir o cérebro ou a medula espinhal, comprometendo funções importantes do organismo.
Os sintomas variam conforme a região afetada e a velocidade de crescimento do tumor. Enquanto alguns casos evoluem rapidamente, outros permanecem silenciosos por anos antes de provocar manifestações mais evidentes.
Entre os sinais que merecem atenção estão dores de cabeça persistentes, crises convulsivas, náuseas, vômitos, dificuldades para falar, fraqueza muscular e dormência em partes do corpo, como dedos, pernas ou um lado do rosto. Como esses sintomas também aparecem em outras condições, o diagnóstico costuma depender de exames de imagem, principalmente a ressonância magnética.
Os especialistas destacam que existem diversos subtipos de glioma. Alguns afetam principalmente adultos, outros são mais comuns em crianças. Há ainda uma categoria considerada de baixo grau, que costuma atingir pessoas entre 30 e 40 anos e apresenta crescimento lento, embora possa se tornar mais agressiva com o passar do tempo.
A genética passou a definir o tratamento
Os avanços da medicina mostraram que nem todos os gliomas são iguais. Hoje, além da análise do tumor, os médicos investigam alterações genéticas que ajudam a determinar o comportamento da doença e a melhor estratégia terapêutica.
Nos gliomas de baixo grau, uma das alterações mais importantes envolve mutações nos genes IDH1 e IDH2. Identificar essa característica permite selecionar pacientes que podem se beneficiar de terapias direcionadas.
Segundo especialistas, cerca de 1.800 adultos recebem diagnóstico de glioma por ano na Argentina. A maioria apresenta tumores de alto grau, normalmente em pessoas com idade média de 65 anos. Já os gliomas de baixo grau com mutação de IDH representam aproximadamente 10% dos casos adultos e costumam surgir antes dos 40 anos.
Em crianças, a realidade é diferente. São diagnosticados aproximadamente 250 casos anuais, sendo que a maior parte corresponde aos gliomas de baixo grau. No entanto, a mutação de IDH é muito menos frequente na população pediátrica, o que explica por que os tratamentos podem variar bastante entre adultos e jovens.
Um novo medicamento pode prolongar o controle da doença
Durante décadas, o tratamento dos gliomas de baixo grau praticamente não mudou. Cirurgia, radioterapia e quimioterapia permaneceram como as principais alternativas disponíveis.
Esse cenário começou a mudar com a aprovação de um medicamento capaz de bloquear as enzimas IDH1 e IDH2 alteradas, responsáveis por estimular o crescimento das células tumorais. A nova terapia é indicada para pacientes com mais de 12 anos que já passaram pela cirurgia para retirada do tumor.
Os resultados do estudo clínico que embasou a aprovação chamaram a atenção da comunidade médica. O tratamento reduziu em 61% o risco de progressão da doença, retardou o crescimento do tumor e prolongou significativamente o período antes de uma nova evolução.
Os pacientes que utilizaram o medicamento apresentaram sobrevida livre de progressão de 27,7 meses, enquanto aqueles que receberam placebo registraram média de 11,1 meses.
Especialistas consideram esse avanço um marco após quase 25 anos sem mudanças relevantes no tratamento dos gliomas de baixo grau. Ainda assim, reforçam que a cirurgia continua sendo a primeira etapa terapêutica, buscando remover a maior quantidade possível do tumor com segurança.
O sucesso do tratamento depende da combinação entre exames de imagem, análise molecular e acompanhamento por uma equipe multidisciplinar. Quanto mais detalhado for o perfil genético do tumor, maiores são as chances de definir a estratégia mais adequada para cada paciente e ampliar o tempo de controle da doença.
[Fonte: Clarin]