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Ciência

O que existe por trás dos 99% de sucesso na ovodoação e por que o número não significa o que muitos imaginam

Uma taxa de sucesso próxima de 100% chama atenção, mas o resultado envolve muito mais do que uma única tentativa. Laboratório, seleção e experiência ajudam a explicar esse número.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando uma clínica de reprodução assistida apresenta uma taxa de sucesso de 99% em tratamentos com ovodoação, é natural imaginar uma chance quase absoluta de gravidez logo na primeira tentativa. A realidade é mais complexa. Por trás desse percentual existe uma combinação de laboratório especializado, tecnologia, seleção de doadoras, análises genéticas e resultados acumulados ao longo de diferentes tentativas. Entender como essa estatística é calculada é essencial antes de interpretá-la como uma garantia individual.

O número de 99% esconde um detalhe fundamental sobre o tratamento

A taxa de gravidez é um dos fatores considerados por pacientes na escolha de uma clínica para realizar fertilização in vitro com ovodoação. Segundo Marcos Ferrando, diretor do IVI Bilbao, os resultados dependem significativamente da qualidade do laboratório de embriologia, dos protocolos adotados, da tecnologia disponível e da experiência acumulada pelas equipes.

É justamente nesse contexto que aparece um número particularmente chamativo: 99% de taxa de gravidez em ovodoação.

Mas isso não significa que 99 em cada 100 pacientes engravidem na primeira transferência embrionária.

De acordo com Ferrando, o percentual corresponde ao resultado acumulado depois de até três doações diferentes de óvulos. A chance já pode ser elevada em uma transferência individual, mas algumas pacientes necessitam de novas tentativas.

É a soma desses resultados que permite alcançar o percentual anunciado.

A distinção é importante porque taxas acumuladas e taxas obtidas por transferência representam medidas diferentes. Além disso, gravidez não é necessariamente equivalente a nascimento de um bebê, outro indicador relevante na avaliação de tratamentos de reprodução assistida.

Segundo a clínica, taxas elevadas e consistentes são justamente o que possibilita estruturar programas de garantia de gravidez para determinadas pacientes.

Banco próprio de óvulos pode mudar a forma como todo o processo é controlado

O que existe por trás dos 99% de sucesso na ovodoação e por que o número não significa o que muitos imaginam
© Pexels

Na ovodoação, os óvulos utilizados são provenientes de uma doadora anônima. Uma das diferenças entre clínicas está na maneira como essas doadoras são selecionadas e como os óvulos chegam ao laboratório.

Centros com banco próprio realizam internamente o recrutamento, avaliação e acompanhamento das doadoras. Isso permite controlar desde os protocolos de estimulação ovariana e coleta até as condições utilizadas para congelar e posteriormente descongelar os óvulos.

Outra vantagem operacional é a disponibilidade. Um banco de grande volume pode reduzir ou eliminar períodos de espera para encontrar uma doadora adequada.

Quando os óvulos vêm de um banco externo, por outro lado, parte desses procedimentos fica sob responsabilidade de outro centro ou biobanco.

O tamanho da rede também pode influenciar o chamado matching, processo utilizado para selecionar uma doadora compatível com as características da paciente.

No caso do IVI, a rede utiliza doadoras disponíveis em diferentes clínicas na Espanha, aumentando o universo considerado durante a seleção.

Inteligência artificial e genética também entraram na escolha das doadoras

A seleção atualmente pode ir muito além de características como cor dos olhos, cabelo ou origem étnica.

O IVI utiliza um sistema denominado Perfect Match 360, que acrescenta ferramentas tecnológicas ao processo.

Uma delas é o Bioscan, sistema que utiliza inteligência artificial para analisar aproximadamente 12 mil pontos faciais a partir de uma fotografia da paciente. O objetivo é identificar, dentro da base disponível, uma doadora com maior semelhança física.

Outra etapa envolve um teste de compatibilidade genética.

A análise procura milhares de variantes associadas a doenças hereditárias recessivas para reduzir a probabilidade de determinadas combinações genéticas entre a doadora e o outro progenitor biológico.

Esses procedimentos não eliminam todos os riscos genéticos nem permitem prever todas as características de uma futura criança. Eles funcionam como ferramentas adicionais dentro de um processo médico mais amplo.

Quando continuar tentando com os próprios óvulos deixa de ser a melhor estratégia

Existe ainda uma decisão muito mais delicada do que escolher laboratório ou doadora: determinar quando considerar a ovodoação.

Segundo Ferrando, insistir repetidamente em tratamentos utilizando óvulos próprios quando a probabilidade de nascimento é extremamente baixa pode aumentar o desgaste emocional, financeiro e físico sem elevar proporcionalmente as chances de sucesso.

Entre as situações em que a alternativa pode ser discutida estão casos de insuficiência ovariana precoce ou menopausa, reserva ovariana muito baixa em idades mais avançadas e repetidas falhas de fertilização in vitro relacionadas à baixa qualidade dos óvulos ou embriões.

Isso não significa, porém, que exista uma idade ou diagnóstico capaz de determinar automaticamente a mesma decisão para todas as pacientes.

Cada situação precisa ser avaliada individualmente, considerando histórico reprodutivo, idade, condições clínicas, resultados anteriores e expectativas.

Existe também um componente que os números não conseguem representar. Para muitas mulheres e famílias, aceitar a utilização de óvulos de uma doadora envolve um processo emocional complexo e pode exigir tempo, acompanhamento e informação.

Por isso, uma taxa de 99% pode ser impressionante, mas não conta toda a história. Por trás dela estão diferentes tentativas, critérios de seleção, tecnologia laboratorial e decisões profundamente individuais. Mais do que observar um percentual isolado, compreender exatamente o que ele mede é uma das etapas mais importantes antes de comparar tratamentos de reprodução assistida.

[Fonte: La vanguardia]

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