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Ciência

Uma pedra encontrada no Brasil revelou como a Terra consegue esconder água em suas profundezas

Muito abaixo da superfície, as rochas podem guardar uma quantidade extraordinária de água. A pista decisiva apareceu em um lugar improvável: dentro de um diamante.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando pensamos na água da Terra, imaginamos oceanos, rios, geleiras e aquíferos. Mas existe uma possibilidade muito mais estranha escondida centenas de quilômetros abaixo da superfície. Ali, em condições de pressão inimagináveis, certos minerais conseguem incorporar água diretamente em sua estrutura. Não existe um mar subterrâneo esperando para ser descoberto. O que existe pode ser ainda mais surpreendente: uma reserva invisível armazenada dentro das próprias rochas.

O oceano que não parece um oceano

Entre aproximadamente 410 e 660 quilômetros de profundidade, existe uma região conhecida como zona de transição do manto. Ela fica entre o manto superior e o inferior e está submetida a temperaturas e pressões muito diferentes das encontradas na superfície.

Nessas condições, minerais comuns podem assumir estruturas diferentes. É o caso da wadsleyita e da ringwoodita, formas de alta pressão do olivina capazes de incorporar hidrogênio e oxigênio em suas estruturas cristalinas.

Isso muda completamente a maneira como imaginamos a água escondida no interior do planeta.

Ela não está necessariamente acumulada em bolsões, rios subterrâneos e cavernas gigantes. Em vez disso, pode estar quimicamente incorporada aos minerais, como se a própria estrutura das rochas funcionasse como uma espécie de reservatório.

Experimentos indicam que a ringwoodita pode armazenar quantidades significativas de água. Por isso, os cientistas passaram a considerar a zona de transição um possível grande reservatório de água do interior terrestre.

É daí que surgiu a expressão popular “sexto oceano”.

Mas ela precisa ser interpretada com cuidado. Não há um oceano líquido escondido a centenas de quilômetros de profundidade. O termo serve apenas para comparar a quantidade potencial de água armazenada nas rochas com a existente nos oceanos da superfície.

E a estimativa é justamente o que torna essa história tão impressionante.

A quantidade de água pode ser muito maior do que imaginamos

Se uma pequena fração das rochas da zona de transição contiver água, o volume total pode alcançar uma escala comparável à dos oceanos terrestres.

Algumas estimativas chegaram a considerar cenários nos quais essa região poderia armazenar várias vezes a quantidade de água encontrada na superfície. Mas isso não significa que existam literalmente três ou mais oceanos completos escondidos no subsolo.

A distribuição da água provavelmente é irregular, e ainda existe bastante incerteza sobre quanto desse reservatório está realmente hidratado.

Pesquisas geofísicas, por exemplo, indicam diferenças importantes entre regiões. Um estudo baseado em condutividade elétrica estimou concentrações de água na zona de transição do Pacífico entre aproximadamente 0,1% e 0,2% em massa, mostrando que a hidratação pode variar significativamente.

Então, de onde veio a evidência de que esse mecanismo realmente acontece na natureza?

A resposta está em uma pequena inclusão mineral encontrada em um dos objetos mais duros do planeta.

O diamante brasileiro que carregava uma pista das profundezas

Em 2014, pesquisadores analisaram um diamante originário de Juína, no Mato Grosso, que havia se formado em profundidades extraordinárias.

Dentro dele encontraram algo excepcional: uma minúscula inclusão de ringwoodita.

A descoberta foi importante porque a ringwoodita era conhecida principalmente por experimentos e por estudos de materiais formados em condições de alta pressão. Encontrá-la preservada dentro de um diamante forneceu uma espécie de amostra natural das profundezas da Terra.

Mais importante ainda, análises mostraram que aquela ringwoodita continha aproximadamente 1% de água em massa. Isso forneceu evidência direta de que pelo menos algumas partes da zona de transição do manto são hidratadas.
O diamante funcionou, na prática, como uma cápsula geológica.

Ele trouxe para perto da superfície uma pequena amostra de um ambiente que normalmente está completamente fora do alcance humano.

E a descoberta também ajuda a repensar o ciclo da água.

A água da Terra pode viajar muito mais fundo do que pensávamos

O ciclo da água não precisa terminar na superfície.

Quando uma placa tectônica oceânica mergulha sob outra em um processo chamado subducção, minerais hidratados podem transportar água para dentro do planeta. Parte desse material pode chegar à zona de transição e armazenar água em minerais como wadsleyita e ringwoodita.

Depois, processos no interior da Terra podem devolver parte desse material para regiões mais rasas, inclusive por meio do vulcanismo.

Isso significa que existe um possível ciclo profundo da água, conectado à tectônica de placas e à própria evolução geológica do planeta. Pesquisas recentes continuam investigando como a água é transportada, armazenada e liberada nessas profundidades.

Portanto, chamar essa região de “sexto oceano” é uma simplificação — mas não é uma ideia completamente fantasiosa.

Não existe um mar subterrâneo onde seria possível mergulhar. Existe algo mais estranho: minerais sólidos que conseguem esconder enormes quantidades de água dentro de sua estrutura.

E uma pequena pedra preciosa encontrada no Brasil ajudou a demonstrar que esse reservatório não é apenas uma possibilidade criada em laboratório.

Centenas de quilômetros abaixo de nossos pés, a própria rocha pode estar funcionando como uma gigantesca caixa-d’água invisível da Terra.

Fonte: Nature.com

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