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Ciência

“Canibalismo celeste”: Vênus pode ter engolido sua própria lua

Pesquisadores propõem uma nova explicação para Vênus não ter uma lua: o planeta pode ter destruído e engolido seu próprio satélite há bilhões de anos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Vênus é frequentemente chamado de “gêmeo da Terra” por ter tamanho, massa e estrutura semelhantes ao nosso planeta. Mas existe uma diferença bastante evidente entre os dois: enquanto a Terra possui uma grande Lua, Vênus está completamente sozinho.

Agora, uma equipe de astrofísicos da Universidade da Califórnia em Riverside apresentou uma hipótese intrigante para explicar essa ausência. Vênus pode ter tido uma lua no passado, mas sua rotação extremamente lenta teria condenado o satélite a uma espiral fatal até colidir com o planeta.

Vênus pode ter devorado sua própria lua

UnNão é Vênus: o planeta que fica mais perto da Terra em média surpreendeu até pela explicação
© Unsplash

A ideia foi apresentada em um estudo publicado no The Astrophysical Journal e oferece uma alternativa às principais explicações propostas até agora para a ausência de uma lua em Vênus.

Segundo Stephen Kane, astrofísico e principal autor da pesquisa, caso Vênus tenha realmente possuído uma lua, dificilmente conseguiria mantê-la durante bilhões de anos.

“Se teve uma lua, e é provável que tenha tido em algum momento, não poderia tê-la conservado”, explicou Kane. Segundo o pesquisador, o satélite acabaria colidindo com o planeta em uma escala de tempo relativamente curta.

Para testar essa possibilidade, os cientistas realizaram simulações computacionais baseadas na física planetária. Os modelos reproduziram o comportamento gravitacional de hipotéticas luas de Vênus com diferentes tamanhos.

O resultado foi semelhante em praticamente todos os cenários: mais cedo ou mais tarde, o satélite terminava sua trajetória colidindo com o planeta.

A rotação extremamente lenta de Vênus seria a responsável

O fator decisivo está na velocidade de rotação do planeta.

Vênus leva cerca de 243 dias terrestres para completar uma única rotação em torno do próprio eixo. É tão lento que um dia venusiano dura mais do que o próprio ano do planeta, que corresponde a aproximadamente 225 dias terrestres.

A Terra apresenta uma situação completamente diferente. Nosso planeta completa uma rotação em aproximadamente 24 horas.

Essa diferença influencia diretamente a maneira como um planeta troca energia com seu satélite.

No caso da Terra, parte da energia de rotação é transferida para a Lua. Como consequência, nosso satélite natural está se afastando lentamente do planeta, a uma velocidade de aproximadamente 4 centímetros por ano.

Esse deslocamento é medido com grande precisão graças aos refletores instalados na superfície lunar pelas missões Apollo, incluindo os deixados pelos astronautas da Apollo 11 em 1969.

Em Vênus, porém, a dinâmica seria diferente. Sua rotação extremamente lenta poderia fazer uma antiga lua perder energia orbital e se aproximar gradualmente até atingir o planeta.

O impacto pode ter acontecido há bilhões de anos

Segundo Kane, caso Vênus realmente tenha possuído uma lua, sua destruição provavelmente aconteceu durante o primeiro bilhão de anos da história do planeta.

Vênus tem aproximadamente 4,5 bilhões de anos, idade semelhante à da Terra e do restante do Sistema Solar.

Até agora, cientistas trabalhavam principalmente com duas possibilidades para explicar sua ausência de satélites: Vênus nunca teria formado uma lua ou teria perdido uma após uma gigantesca colisão com outro objeto celeste.

A nova hipótese acrescenta uma terceira possibilidade: o planeta conseguiu formar ou capturar uma lua, mas sua própria dinâmica orbital acabou destruindo o satélite.

O início do Sistema Solar foi extremamente violento

Um Planeta Gigante Pode Ter Sido Expulso Do Sistema Solar Há Bilhões De Anos
© Imagem gerada por inteligência artificial – Gizmodo BR

Ainda não existem evidências diretas de que uma lua tenha orbitado Vênus. Mesmo assim, os pesquisadores consideram plausível que o planeta tenha participado das enormes colisões que marcaram os primeiros momentos do Sistema Solar.

Naquela época, grandes corpos rochosos e protoplanetas circulavam pelo Sistema Solar interior e frequentemente colidiam entre si.

Uma dessas colisões gigantescas é considerada a principal explicação para a formação da Lua terrestre.

Por estar mais próximo do Sol, Vênus também pode ter enfrentado um ambiente ainda mais caótico e uma quantidade significativa de impactos durante sua juventude.

Entender Vênus também pode revelar o futuro da Terra

Hoje, Vênus é um dos ambientes mais extremos do Sistema Solar. Embora seja rochoso e tenha dimensões semelhantes às da Terra, sua atmosfera densa e rica em dióxido de carbono criou um efeito estufa descontrolado.

A temperatura na superfície chega a aproximadamente 471 °C, quente o suficiente para derreter chumbo.

Por isso, estudar a evolução de Vênus ajuda os cientistas a compreender por que dois planetas inicialmente semelhantes seguiram caminhos tão diferentes.

Novas respostas podem surgir nas próximas missões da NASA destinadas ao planeta. DAVINCI e VERITAS deverão investigar sua atmosfera, superfície e história geológica, oferecendo novas pistas sobre como Vênus evoluiu — e talvez até sobre o destino de uma lua que desapareceu bilhões de anos atrás.

 

[ Fonte: DW ]

 

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