Adam tinha apenas 5 anos quando o mundo ao seu redor desmoronou. Antes da guerra, era uma criança alegre, falante e cheia de energia. Gostava de brincar ao ar livre e conversar com todos à sua volta. Mas depois de testemunhar a morte do próprio pai durante um bombardeio em Gaza, algo mudou drasticamente: Adam parou de falar.
O caso dele não é isolado.
Psicólogos e profissionais humanitários que atuam na Faixa de Gaza relatam um número crescente de crianças que perderam completamente a capacidade de se comunicar após experiências traumáticas extremas.
Segundo a psicoterapeuta infantil norueguesa Katrin Glatz Brubakk, que trabalhou em Gaza em missões da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), o nível de trauma enfrentado pelas crianças é diferente de tudo que ela viu em mais de uma década atuando em zonas de conflito.
“Não existe nenhuma criança em Gaza que não esteja traumatizada”, afirmou à BBC Mundo.
O silêncio como resposta ao horror

Brubakk explica que o silêncio não é uma decisão consciente das crianças, mas uma reação neurológica ao sofrimento extremo.
Quando o cérebro infantil permanece em estado constante de medo, insegurança e estresse, algumas crianças entram em colapso emocional. Em vez de gritar, chorar ou demonstrar agitação, simplesmente se desligam do mundo.
“O sistema nervoso parece dizer: ‘eu não aguento mais’”, explicou a terapeuta.
Nesses casos, o cérebro reduz ao máximo as interações externas como mecanismo de autoproteção. A fala, que depende de conexão emocional e segurança, acaba desaparecendo.
Enquanto algumas crianças apresentam crises de pânico, agressividade ou insônia, outras mergulham em um sofrimento silencioso que muitas vezes passa despercebido em meio ao caos da guerra.
Uma geração inteira crescendo sob trauma extremo

Desde o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023, mais de um milhão de crianças foram expostas repetidamente à violência, segundo organizações internacionais.
Bombardeios, deslocamentos forçados, perda de familiares, fome, destruição de escolas e hospitais passaram a fazer parte da rotina diária.
Muitas crianças viram corpos mutilados, sangue nas ruas e até restos humanos espalhados após explosões.
“Alguns me contaram que ajudaram a recolher partes de corpos ou pedaços de cérebro no chão”, relatou Brubakk.
Além da violência física, existe outro dano profundo: a destruição completa da sensação de segurança.
As crianças de Gaza não sabem se estarão vivas no dia seguinte. Não possuem um quarto seguro, uma escola protegida ou qualquer espaço onde possam relaxar sem medo de morrer.
E isso, segundo especialistas, altera profundamente o desenvolvimento cerebral infantil.
O caso de Adam
Adam e sua família haviam sido obrigados a fugir de casa e passaram a viver em barracas improvisadas.
Certo dia, ele e o pai foram visitar os avós em uma área considerada segura. Sem aviso prévio, um projétil explodiu próximo aos dois.
Adam ficou gravemente ferido e perdeu uma das pernas. Seu pai também sofreu ferimentos severos.
Os dois foram levados para um hospital superlotado, onde acabaram colocados no chão da emergência por falta de leitos. Foi ali, deitado ao lado do filho, que o pai de Adam morreu.
A criança testemunhou o momento exato em que ele deu o último suspiro.
Depois disso, Adam deixou de falar.
Mal comia, evitava contato visual e não queria interagir com ninguém. Às vezes, sussurrava poucas palavras para a mãe, mas permanecia praticamente isolado do mundo.
O trauma modifica fisicamente o cérebro
Segundo Brubakk, traumas extremos e prolongados podem provocar alterações reais na estrutura cerebral das crianças.
A amígdala — região responsável pelas emoções intensas e pelo sistema de alerta — tende a aumentar de tamanho em crianças traumatizadas.
Ao mesmo tempo, a corteza pré-frontal, área ligada à resolução de problemas, controle emocional, planejamento e interação social, pode ficar subdesenvolvida.
Isso significa que o trauma não afeta apenas emoções momentâneas. Ele pode comprometer toda a capacidade futura da criança de aprender, confiar nos outros e desenvolver relações saudáveis.
A terapeuta chama isso de “lesões cognitivas da guerra”.
Como reconstruir a confiança de uma criança
Em Gaza, Brubakk descobriu que pequenas interações podem representar enormes avanços.
No caso de Adam, ela visitava o quarto diariamente mesmo quando ele se recusava a olhar ou responder.
Até que um dia, o menino sussurrou para a mãe: “Manda essa mulher embora. Eu não gosto dela.”
Para a terapeuta, aquilo foi uma vitória.
“Fiquei muito feliz porque significava que Adam estava começando a interagir novamente com o mundo.”
Pouco depois, ele fez contato visual pela primeira vez.
A partir daí, pequenas conversas, curiosidades e brincadeiras começaram lentamente a reconstruir alguma confiança emocional.
As “bolhas de esperança”
Outro recurso utilizado pela equipe de MSF eram brincadeiras simples com bolhas de sabão.
Brubakk as chama de “bolhas de esperança”.
Segundo ela, observar bolhas coloridas ajuda as crianças a saírem temporariamente do estado constante de alerta provocado pelo trauma.
Além disso, fazer bolhas grandes exige respiração lenta e profunda — algo que ajuda a acalmar o sistema nervoso e reduzir a atividade da amígdala cerebral.
Em um ambiente dominado pelo medo, o simples ato de brincar pode se tornar uma ferramenta terapêutica poderosa.
“Estamos destruindo uma geração inteira”
Para Brubakk, o que acontece em Gaza vai muito além de uma crise humanitária momentânea.
Ela acredita que o mundo está testemunhando danos psicológicos profundos que acompanharão milhares de crianças pelo resto da vida.
A terapeuta afirma que nunca viu um nível de destruição comparável ao de Gaza em seus 12 anos trabalhando em guerras, terremotos e campos de refugiados.
“Não existe nenhum lugar seguro. Tudo foi destruído.”
Mesmo assim, ela destaca algo que continua impressionando profundamente: a capacidade de muitas famílias de ainda oferecer carinho, amor e proteção emocional aos filhos em meio ao horror.
Mas, para ela, apenas uma solução pode realmente interromper esse sofrimento.
“As crianças de Gaza precisam de paz verdadeira”, afirmou. “Caso contrário, estaremos destruindo toda uma geração.”
[ Fonte: BBC ]