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A estratégia japonesa que desafia o modelo de mobilidade das grandes cidades do mundo

Enquanto grandes metrópoles lutam contra congestionamentos e ruas tomadas por veículos, uma medida adotada há décadas criou um modelo urbano que continua despertando curiosidade em todo o mundo.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando se fala em Tóquio, é comum imaginar uma cidade gigantesca, repleta de pessoas, arranha-céus e trânsito intenso. Ainda assim, quem visita muitos bairros residenciais costuma notar algo surpreendente: as ruas permanecem relativamente livres de carros estacionados. O motivo não está em uma proibição radical nem em um número reduzido de automóveis, mas em um sistema que mudou completamente a relação entre os moradores e seus veículos.

Antes de comprar um carro, existe uma exigência que muda toda a lógica da cidade

Tóquio abriga milhões de habitantes e uma das economias mais movimentadas do planeta. Apesar disso, muitas ruas residenciais apresentam uma característica incomum quando comparadas a outras grandes metrópoles: praticamente não existem longas filas de veículos ocupando as calçadas ou permanecendo estacionados permanentemente nas vias.

A explicação está em uma política conhecida como Shako Shomeisho, um certificado obrigatório para registrar a maioria dos automóveis particulares no Japão. Na prática, quem deseja adquirir um carro precisa comprovar previamente que possui um local legal para estacioná-lo.

Esse espaço deve estar localizado fora da via pública, ficar a uma distância máxima de aproximadamente dois quilômetros da residência ou do local habitual de uso e possuir dimensões suficientes para acomodar completamente o veículo.

Além disso, o proprietário precisa demonstrar que realmente possui direito de utilizar essa vaga. Ela pode ser própria ou alugada, mas não basta indicar qualquer endereço. As autoridades podem verificar as medidas, o acesso e a localização antes de conceder o certificado.

O custo administrativo do procedimento é relativamente baixo. Em Tóquio, o pedido presencial custa atualmente cerca de 2.400 ienes. O verdadeiro desafio financeiro está no valor das vagas de estacionamento, extremamente disputadas em uma cidade onde cada metro quadrado possui alto valor imobiliário.

Na prática, o sistema não impede ninguém de possuir um automóvel. O objetivo é fazer com que o proprietário assuma desde o início um dos principais custos associados ao uso do carro nas grandes cidades, em vez de utilizar gratuitamente o espaço público como garagem permanente.

Apesar dessa política, isso não significa que Tóquio esteja livre dos congestionamentos. Dados do índice TomTom referentes a 2025 apontam que a cidade registrou um nível médio de congestionamento de 44,1%, superior inclusive ao observado em Madri no mesmo período. A diferença está no papel que o automóvel ocupa no cotidiano dos moradores, e não na ausência de trânsito.

Transporte público eficiente faz com que o carro deixe de ser uma necessidade

Outro ponto importante é que o Japão não proíbe completamente o estacionamento nas ruas. Existem vagas regulamentadas e áreas específicas onde estacionar é permitido. O que a legislação restringe fortemente é transformar as vias públicas em um local permanente para guardar veículos.

Quem utiliza a rua como substituta de uma garagem pode receber multas que chegam a 200 mil ienes. Esse controle ajuda a manter livres muitas ruas estreitas dos bairros residenciais, contribuindo para melhorar a circulação de pedestres, ciclistas e veículos.

O sistema também costuma gerar dúvidas em relação aos populares kei cars, os pequenos automóveis japoneses. Embora algumas regiões periféricas concedam exceções, grande parte da área metropolitana de Tóquio exige que até mesmo os proprietários desses modelos informem onde irão estacioná-los.

No entanto, o Shako Shomeisho dificilmente produziria os mesmos resultados sem outro elemento essencial: a ampla rede de transporte público da capital japonesa.

Tóquio possui uma das maiores malhas ferroviárias urbanas do mundo, com linhas frequentes e bairros planejados ao redor das estações. Isso permite que milhões de pessoas realizem praticamente todos os deslocamentos diários utilizando trens e metrôs.

Segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), cerca de 40% dos deslocamentos para o trabalho na região metropolitana são realizados por transporte público. A bicicleta também desempenha papel importante, respondendo por aproximadamente 11% desses trajetos, enquanto algumas estimativas indicam participação próxima de 14% considerando todos os deslocamentos urbanos.

Quem decide possuir um automóvel ainda precisa arcar com diversos outros custos, como impostos, seguros, combustível, pedágios e o shaken, a inspeção técnica obrigatória realizada periodicamente. Nos veículos novos, a primeira certificação vale por três anos; depois disso, a renovação passa a ocorrer a cada dois anos.

O resultado é um modelo em que possuir um carro continua sendo perfeitamente possível, mas deixa de ser uma escolha automática. Em vez de eliminar completamente os congestionamentos, Tóquio conseguiu algo talvez ainda mais importante: impedir que o automóvel dominasse o espaço urbano e garantir que trens, bicicletas e pedestres continuassem ocupando papel central na mobilidade da cidade.

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