Quando pensamos em ondas de calor, normalmente imaginamos temperaturas extremas em cidades, secas ou incêndios. Mas o excesso de calor também avança pelos oceanos — e seus efeitos podem ser percebidos até nos sons produzidos pelos maiores animais do planeta.
Baleias-azuis parecem cantar menos quando enfrentam períodos de temperaturas oceânicas excepcionalmente elevadas.
Uma possível explicação está diretamente relacionada à alimentação.
Quando a água esquenta, a disponibilidade e a distribuição do krill, principal fonte de alimento dessas baleias, podem mudar. Com menos comida disponível, os animais precisam dedicar mais tempo e energia à sobrevivência.
E cantar pode acabar se tornando uma prioridade menor.
Baleias reduziram seus cantos após onda de calor

Pesquisadores do Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI) conseguiram acompanhar essas mudanças utilizando hidrofones, equipamentos que funcionam como microfones submarinos e registram continuamente os sons do oceano.
Ao analisar mais de seis anos de gravações realizadas na costa da Califórnia, os cientistas identificaram uma redução considerável na atividade acústica das baleias-azuis depois de uma grande onda de calor marinha.
Em algumas áreas, a queda nos cantos chegou perto de 40%.
A mudança chamou atenção porque esses sons desempenham diferentes funções na vida das baleias, incluindo comunicação e reprodução.
O silêncio, portanto, pode revelar muito sobre as condições enfrentadas pelos animais.
O problema pode começar com o krill
Baleias-azuis precisam consumir enormes quantidades de alimento para sustentar seus corpos gigantescos.
Grande parte dessa dieta é composta por krill, pequenos crustáceos que podem formar grandes concentrações no oceano.
Para uma baleia, encontrar essas concentrações é fundamental.
Mergulhar, abrir a enorme boca e capturar alimento exige energia. Se houver pouco krill disponível, o esforço pode deixar de compensar.
Ondas de calor marinhas podem alterar a localização e a abundância dessas presas, obrigando as baleias a procurar alimento durante períodos maiores.
John Ryan, oceanógrafo biológico do MBARI, resumiu a situação de maneira simples: um animal com fome prioriza sobreviver, não cantar.
Fenômeno semelhante apareceu na Nova Zelândia
O comportamento não parece estar restrito à costa dos Estados Unidos.
Pesquisadores também observaram mudanças acústicas entre baleias-azuis na Nova Zelândia durante um período entre 2016 e 2018.
O estudo diferenciou dois tipos importantes de vocalizações.
As chamadas conhecidas como “D calls” são frequentemente associadas a comportamentos de alimentação e interação social. Já determinados padrões de canto estão mais relacionados à atividade reprodutiva.
Durante uma onda de calor marinha, os pesquisadores observaram primeiro uma redução nas vocalizações associadas à alimentação.
Posteriormente, a intensidade dos cantos também diminuiu.
Essa sequência reforça a possibilidade de que mudanças na disponibilidade de alimento possam desencadear alterações mais amplas no comportamento das baleias.
O canto pode funcionar como um termômetro do oceano

A descoberta mostra como monitorar os sons produzidos pelas baleias pode fornecer informações que seriam extremamente difíceis de obter apenas com observações visuais.
Hidrofones conseguem permanecer no oceano durante longos períodos e registrar continuamente a atividade acústica.
Se as baleias passam a cantar mais ou menos, os pesquisadores podem comparar essas mudanças com temperatura da água, disponibilidade de alimento e outros fatores ambientais.
Dessa forma, os animais acabam funcionando como uma espécie de indicador biológico das condições do ecossistema.
Ondas de calor marinhas podem afetar todo o ecossistema
O aumento da temperatura não afeta apenas as baleias.
Ondas de calor marinhas podem modificar cadeias alimentares inteiras, deslocar espécies para outras regiões e alterar a disponibilidade de nutrientes.
Para grandes predadores, essas mudanças podem significar percorrer distâncias maiores para encontrar comida.
No caso das baleias-azuis, existe ainda uma preocupação adicional: se alterações na alimentação também modificarem os cantos relacionados à reprodução, os efeitos podem ultrapassar a simples busca por alimento.
Os cientistas ainda precisam compreender melhor essa relação.
Mas uma coisa está ficando cada vez mais clara: quando o oceano esquenta demais, suas consequências não aparecem apenas nos termômetros.
Às vezes, elas podem ser percebidas justamente naquilo que deixa de ser ouvido.
[ Fonte: Huffpost ]