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Ciência

Ondas de calor estão deixando as baleias mais silenciosas — e cientistas tentam entender por quê

O aumento da temperatura dos oceanos pode estar modificando até o comportamento acústico das baleias. Na costa da Califórnia, pesquisadores observaram uma queda significativa nos cantos das baleias-azuis após uma intensa onda de calor marinha.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Quando pensamos em ondas de calor, normalmente imaginamos temperaturas extremas em cidades, secas ou incêndios. Mas o excesso de calor também avança pelos oceanos — e seus efeitos podem ser percebidos até nos sons produzidos pelos maiores animais do planeta.

Baleias-azuis parecem cantar menos quando enfrentam períodos de temperaturas oceânicas excepcionalmente elevadas.

Uma possível explicação está diretamente relacionada à alimentação.

Quando a água esquenta, a disponibilidade e a distribuição do krill, principal fonte de alimento dessas baleias, podem mudar. Com menos comida disponível, os animais precisam dedicar mais tempo e energia à sobrevivência.

E cantar pode acabar se tornando uma prioridade menor.

Baleias reduziram seus cantos após onda de calor

Baleias Jubarte
© Ben Phillips – Pexels

Pesquisadores do Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI) conseguiram acompanhar essas mudanças utilizando hidrofones, equipamentos que funcionam como microfones submarinos e registram continuamente os sons do oceano.

Ao analisar mais de seis anos de gravações realizadas na costa da Califórnia, os cientistas identificaram uma redução considerável na atividade acústica das baleias-azuis depois de uma grande onda de calor marinha.

Em algumas áreas, a queda nos cantos chegou perto de 40%.

A mudança chamou atenção porque esses sons desempenham diferentes funções na vida das baleias, incluindo comunicação e reprodução.

O silêncio, portanto, pode revelar muito sobre as condições enfrentadas pelos animais.

O problema pode começar com o krill

Baleias-azuis precisam consumir enormes quantidades de alimento para sustentar seus corpos gigantescos.

Grande parte dessa dieta é composta por krill, pequenos crustáceos que podem formar grandes concentrações no oceano.

Para uma baleia, encontrar essas concentrações é fundamental.

Mergulhar, abrir a enorme boca e capturar alimento exige energia. Se houver pouco krill disponível, o esforço pode deixar de compensar.

Ondas de calor marinhas podem alterar a localização e a abundância dessas presas, obrigando as baleias a procurar alimento durante períodos maiores.

John Ryan, oceanógrafo biológico do MBARI, resumiu a situação de maneira simples: um animal com fome prioriza sobreviver, não cantar.

Fenômeno semelhante apareceu na Nova Zelândia

O comportamento não parece estar restrito à costa dos Estados Unidos.

Pesquisadores também observaram mudanças acústicas entre baleias-azuis na Nova Zelândia durante um período entre 2016 e 2018.

O estudo diferenciou dois tipos importantes de vocalizações.

As chamadas conhecidas como “D calls” são frequentemente associadas a comportamentos de alimentação e interação social. Já determinados padrões de canto estão mais relacionados à atividade reprodutiva.

Durante uma onda de calor marinha, os pesquisadores observaram primeiro uma redução nas vocalizações associadas à alimentação.

Posteriormente, a intensidade dos cantos também diminuiu.

Essa sequência reforça a possibilidade de que mudanças na disponibilidade de alimento possam desencadear alterações mais amplas no comportamento das baleias.

O canto pode funcionar como um termômetro do oceano

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© Shutterstock

A descoberta mostra como monitorar os sons produzidos pelas baleias pode fornecer informações que seriam extremamente difíceis de obter apenas com observações visuais.

Hidrofones conseguem permanecer no oceano durante longos períodos e registrar continuamente a atividade acústica.

Se as baleias passam a cantar mais ou menos, os pesquisadores podem comparar essas mudanças com temperatura da água, disponibilidade de alimento e outros fatores ambientais.

Dessa forma, os animais acabam funcionando como uma espécie de indicador biológico das condições do ecossistema.

Ondas de calor marinhas podem afetar todo o ecossistema

O aumento da temperatura não afeta apenas as baleias.

Ondas de calor marinhas podem modificar cadeias alimentares inteiras, deslocar espécies para outras regiões e alterar a disponibilidade de nutrientes.

Para grandes predadores, essas mudanças podem significar percorrer distâncias maiores para encontrar comida.

No caso das baleias-azuis, existe ainda uma preocupação adicional: se alterações na alimentação também modificarem os cantos relacionados à reprodução, os efeitos podem ultrapassar a simples busca por alimento.

Os cientistas ainda precisam compreender melhor essa relação.

Mas uma coisa está ficando cada vez mais clara: quando o oceano esquenta demais, suas consequências não aparecem apenas nos termômetros.

Às vezes, elas podem ser percebidas justamente naquilo que deixa de ser ouvido.

 

[ Fonte: Huffpost ]

 

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