Durante décadas, robôs humanoides armados fizeram parte apenas da ficção científica. Agora, esse cenário começa a ganhar contornos reais. Uma empresa norte-americana já colocou seu principal modelo em testes próximos a uma zona de guerra e trabalha em novos recursos que podem ampliar significativamente suas funções militares. Embora a tecnologia ainda esteja em estágio experimental, especialistas acreditam que ela pode representar um marco na evolução dos conflitos armados.
O primeiro passo já foi dado, mas os robôs ainda estão longe de substituir soldados
A startup americana Foundation Future Industries, criada em 2024, está desenvolvendo uma nova geração de robôs humanoides capazes de atuar em ambientes projetados para pessoas. O objetivo inicial não é colocá-los diretamente em combate, mas utilizá-los em tarefas consideradas perigosas, como reconhecimento de terreno, transporte de suprimentos, inspeção de instalações e apoio logístico.
Seu principal projeto é o Phantom MK-1, um robô de aparência humana desenvolvido para operar tanto em ambientes industriais quanto em operações militares.
Em fevereiro de 2026, duas unidades do equipamento foram enviadas para a Ucrânia com a missão de realizar testes em condições próximas às linhas de frente. Segundo a empresa, os robôs foram utilizados para atividades de reconhecimento, coleta de informações e avaliação operacional.
Isso não significa que tenham participado de confrontos ou realizado ataques de forma autônoma. Pelo menos nesta fase, sua função permaneceu restrita a tarefas de apoio e exploração de áreas potencialmente perigosas.
Mesmo assim, a empresa já confirmou que estuda incorporar ao projeto aquilo que chama de “capacidades cinéticas”, expressão utilizada no setor militar para se referir ao uso de força física ou armamentos.
Até o momento, a Foundation não revelou quais sistemas pretende integrar nem como eles funcionarão. Em demonstrações públicas realizadas nos Estados Unidos, o Phantom apareceu segurando pistolas, espingardas e réplicas de fuzis, mas isso está muito distante de comprovar capacidade real de combate.
Na prática, robôs humanoides ainda enfrentam dificuldades importantes. Caminhar sobre escombros, atravessar portas bloqueadas, operar sob chuva intensa ou manipular objetos com precisão continuam sendo desafios tecnológicos que limitam sua utilização em cenários reais de guerra.
Enquanto isso, a empresa trabalha no desenvolvimento do Phantom MK-2, versão que deverá contar com maior resistência à água e à poeira, sistemas eletrônicos aprimorados e baterias de maior autonomia.
O maior debate não é a tecnologia, mas quem terá o controle sobre ela
Além do avanço tecnológico, outro aspecto chamou atenção no projeto: a participação de Eric Trump, filho do presidente dos Estados Unidos, como investidor e consultor estratégico da empresa.
A Foundation também divulgou contratos governamentais avaliados em aproximadamente 24 milhões de dólares. No entanto, investigações posteriores indicaram que parte desses acordos foi herdada após aquisições de outras empresas ou firmada em parceria com instituições de pesquisa, e não obtida diretamente pela startup.
Segundo seus desenvolvedores, a principal vantagem dos robôs militares seria reduzir a exposição de soldados em operações de alto risco. Um humanoide poderia entrar primeiro em edifícios suspeitos, transportar munições, inspecionar bunkers ou avaliar áreas contaminadas antes da chegada das tropas.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam para um efeito colateral preocupante. Quanto menor o risco humano envolvido em uma operação militar, menor também pode ser o custo político de iniciar ações armadas.
É justamente por isso que o debate internacional deixou de se concentrar apenas no formato desses robôs e passou a discutir uma questão muito mais importante: quem será responsável por decidir quando utilizar força letal?
Atualmente, as normas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos determinam que sistemas autônomos ou semiautônomos mantenham níveis adequados de supervisão humana durante qualquer decisão relacionada ao uso de armas. Além disso, esses equipamentos precisam passar por rigorosos testes de segurança, resistência, proteção contra ataques cibernéticos e funcionamento em ambientes reais antes de serem utilizados operacionalmente.
Organizações internacionais, como a ONU e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, também defendem regras globais que garantam a presença obrigatória de controle humano sobre sistemas capazes de empregar força letal.
Entre as principais preocupações estão erros de identificação de alvos, ataques contra civis, vulnerabilidades a invasões cibernéticas e a dificuldade de definir responsabilidades legais caso uma máquina cometa um erro.
Por enquanto, o Phantom está muito distante da imagem dos robôs totalmente autônomos retratados no cinema. Ainda é uma plataforma experimental, pesada, limitada e dependente de supervisão humana. Mesmo assim, sua presença em um cenário real de conflito mostra que a transformação tecnológica dos campos de batalha já começou — e o futuro da guerra poderá ser muito diferente do que conhecemos hoje.