O medicamento semaglutida, conhecido mundialmente sob os nomes comerciais Ozempic e Wegovy, ganhou fama por auxiliar no controle do diabetes e na perda de peso. Agora, cientistas sugerem que ele pode também oferecer proteção contra a demência. Um novo estudo indica que o remédio está associado a uma queda de até 50% no risco de desenvolver a doença, especialmente entre pessoas com diabetes tipo 2.
Um potencial aliado na prevenção da demência
Pesquisadores da Case Western Reserve University, nos Estados Unidos, publicaram na Journal of Alzheimer’s Disease um estudo indicando que pacientes com diabetes tipo 2 que tomam semaglutida têm um risco significativamente menor de desenvolver demência quando comparados com aqueles que usam outros medicamentos para diabetes, como insulina ou metformina.
A análise envolveu o exame de 1,7 milhão de prontuários médicos ao longo de três anos. O grupo que usava semaglutida apresentou 40% a 50% menos casos de demência relacionada ao Alzheimer, resultado observado tanto em homens quanto em mulheres, independentemente da idade ou da presença de obesidade.
Como o semaglutida pode atuar no cérebro?
Medicamentos à base de GLP-1, como o semaglutida, foram originalmente desenvolvidos para controlar os níveis de açúcar no sangue em pacientes com diabetes tipo 2. Mais recentemente, passaram a ser usados também para emagrecimento, já que promovem saciedade e reduzem o apetite de forma eficaz.
Mas o impacto do GLP-1 vai além da balança. Estudos anteriores da mesma equipe de pesquisadores já sugeriram que esses medicamentos também podem reduzir o desejo por nicotina e opioides, e agora há indícios de que eles também podem proteger o cérebro.
A explicação está nos múltiplos fatores de risco modificáveis para demência — como obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares — que os GLP-1 ajudam a controlar. Além disso, esses medicamentos parecem reduzir inflamações crônicas, outro fator importante no desenvolvimento de doenças neurodegenerativas.
Riscos reduzidos, mas com limites
Apesar dos resultados animadores, os benefícios do semaglutida não foram observados em todos os tipos de demência. A redução de risco ficou limitada a demência vascular — a segunda mais comum após o Alzheimer. Não houve efeito significativo sobre demência por corpos de Lewy ou demência frontotemporal.
Ainda assim, os pesquisadores afirmam que os achados reforçam a ideia de que o receptor GLP-1 pode ser um alvo terapêutico promissor para prevenir a demência.
Ainda é preciso cautela
Os cientistas alertam que o estudo estabelece apenas uma correlação, e não uma relação de causa e efeito. Ou seja, os resultados indicam uma associação entre o uso do medicamento e a redução do risco de demência, mas ainda não se pode afirmar com certeza que o semaglutida previne a doença.
Para esclarecer essa relação, estão em andamento dois grandes ensaios clínicos patrocinados pela Novo Nordisk, fabricante do Ozempic e do Wegovy, que investigam os efeitos do semaglutida especificamente em pacientes com Alzheimer. Os resultados são esperados ainda este ano.
Além disso, a equipe de pesquisa planeja testar outros medicamentos da mesma classe, como o tirzepatida, que pode ser ainda mais eficaz na proteção contra demências.
Um futuro promissor para os GLP-1
O avanço das pesquisas sobre os múltiplos efeitos do semaglutida reforça a relevância crescente dos medicamentos GLP-1 não apenas no tratamento de diabetes e obesidade, mas também na prevenção de doenças crônicas complexas, como a demência.
Se os resultados forem confirmados em testes clínicos controlados, o Ozempic poderá deixar de ser apenas um sucesso no emagrecimento e se tornar uma esperança real para o cérebro envelhecido.