Quando a promessa vira armadilha
Esther tinha 18 anos quando aceitou a ajuda de uma mulher que prometeu tirá-la da Nigéria, oferecer trabalho e moradia na Europa. Expulsa de um lar adotivo violento, ela viu ali uma chance de recomeço. Em 2016, deixou Lagos rumo ao norte da África sem imaginar o que viria pela frente.
No caminho, foi traficada para a Líbia e submetida à exploração sexual. “Ela me trancou em um quarto e trouxe um homem. Ele fez sexo comigo à força. Eu ainda era virgem”, contou. Segundo Esther, o método é conhecido: aliciadores percorrem vilarejos nigerianos em busca de jovens para transformá-las em escravas sexuais durante a travessia.
Casos como o dela ajudam a entender por que, embora homens ainda sejam maioria entre migrantes irregulares (cerca de 70%, segundo a Agência Europeia para o Asilo), cresce o número de mulheres viajando sozinhas em rotas cada vez mais perigosas.
Rotas migratórias e o risco extra para mulheres

As rotas do Mediterrâneo e dos Bálcãs são notoriamente letais. Em 2024, a Organização Internacional para as Migrações registrou 3.419 mortes ou desaparecimentos de migrantes na Europa — o ano mais mortal já contabilizado. Para mulheres migrantes, o perigo vai além do afogamento ou da exaustão: inclui estupro, coerção e exploração.
ONGs relatam um aumento expressivo de mulheres adultas desacompanhadas chegando à Itália. Em 2024, a alta foi de 250% pela rota dos Bálcãs. “As experiências delas são diferentes e, muitas vezes, mais arriscadas”, afirmou uma representante da IOM. Mesmo em grupos, a proteção é instável, o que abre espaço para abusos de coiotes, traficantes e outros migrantes.
A realidade é dura: “Todos os imigrantes têm de pagar pela travessia”, explica uma ativista antitráfico. “Mas das mulheres se espera também sexo.”
Violência sexual como custo oculto da travessia
Muitas mulheres sabem do risco e tentam se preparar como podem — levando preservativos ou métodos contraceptivos para o caso de estupro. Isso dá a medida do nível de normalização do abuso. A violência acontece tanto no país de origem quanto durante a viagem, criando um ciclo difícil de romper.
Nina, do Kosovo, é um exemplo. Embora seu país seja classificado como “seguro”, ela afirma que a realidade para mulheres é outra. Ela e a irmã foram abusadas por parceiros que as forçaram à exploração sexual. Dados da OSCE indicam que 54% das mulheres no Kosovo sofreram violência psicológica, física ou sexual por parceiros íntimos desde os 15 anos.
Ao fugir para a Itália, Nina enfrentou novos ataques durante a rota pelos Bálcãs. “Mesmo no escuro, dava para ouvir os gritos”, lembra. “Eles vinham com lanternas, escolhiam quem queriam e levavam para a mata.”
Asilo, gênero e critérios desiguais
Pelo direito europeu, mulheres perseguidas por violência de gênero podem solicitar asilo — regra reforçada por decisão judicial recente e pela Convenção de Istambul, que define violência de gênero como psicológica, física e sexual, incluindo mutilação genital feminina. Na prática, porém, a aplicação é desigual.
Organizações apontam falta de capacitação de agentes de asilo para lidar com relatos sensíveis. Em casos de mutilação genital feminina, pedidos são negados sob a suposição equivocada de que o risco cessou após o procedimento. Em violências sexuais, a prova é difícil: não há marcas visíveis, e tabus culturais dificultam o relato em entrevistas rápidas com oficiais desconhecidos.
Além disso, o endurecimento das políticas migratórias após 2015–16 levou a reclassificações de países como “seguros”, o que aumenta a taxa de rejeição de pedidos — mesmo quando há histórico de abuso específico contra mulheres.
Política migratória entre compaixão e exclusão
Governos defendem limites. Parlamentares conservadores falam em priorizar apenas quem corre “risco imediato” em zonas de conflito e em praticar uma “compaixão controlada”. Críticos alertam que esse filtro ignora a violência de gênero fora de guerras declaradas e empurra mulheres para rotas mais perigosas.
O resultado é um funil: quem consegue chegar enfrenta processos longos, indeferimentos sucessivos e o Regulamento de Dublin, que obriga o pedido no primeiro país de entrada. Esther pediu asilo três vezes em países diferentes até ser reconhecida como refugiada na Itália, em 2019.
O custo humano que não aparece nas estatísticas
Quase dez anos após deixar a Nigéria, Esther questiona se a vida atual compensou o caminho. A pergunta ecoa para milhares de mulheres migrantes. Enquanto a travessia continuar cobrando sexo como pagamento e o sistema falhar em reconhecê-las, o drama seguirá invisível — até o próximo bote, a próxima floresta, o próximo pedido negado. A Europa discute números; elas vivem as cicatrizes.
[Fonte: BBC]