Durante décadas, os robôs ganharam espaço em fábricas, laboratórios e até hospitais. Agora, um novo experimento levou essa evolução a outro nível. Pesquisadores conseguiram utilizar robôs humanoides em um procedimento cirúrgico real, abrindo caminho para uma nova geração de tecnologias que poderá ampliar o acesso a cirurgias especializadas em regiões onde hoje faltam médicos ou infraestrutura.
Robôs humanoides entraram no centro cirúrgico, mas não trabalharam sozinhos
A cena lembra produções de ficção científica: dois robôs posicionados ao redor de uma mesa cirúrgica manipulam instrumentos delicados enquanto um procedimento acontece. Apesar da aparência futurista, existe um detalhe essencial: todas as ações continuam sendo comandadas por cirurgiões humanos.
O experimento foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego e descrito em um estudo publicado na revista Nature. Pela primeira vez, robôs humanoides de uso geral participaram de cirurgias laparoscópicas realizadas em animais vivos.
Os procedimentos consistiram na retirada da vesícula biliar de porcos anestesiados. Em uma das operações, um robô executou as principais etapas enquanto um cirurgião permanecia ao lado do animal prestando apoio. Na segunda, dois robôs atuaram simultaneamente no centro cirúrgico, sempre controlados remotamente por especialistas.
Diferentemente dos tradicionais robôs cirúrgicos utilizados atualmente em hospitais, o sistema empregado pelos pesquisadores não foi desenvolvido exclusivamente para medicina. A equipe adaptou robôs humanoides comerciais Unitree G1, criando uma plataforma chamada Surgie.
Com cerca de 1,5 metro de altura e aproximadamente 27 quilos, os equipamentos receberam adaptações para utilizar instrumentos laparoscópicos convencionais. Enquanto isso, o cirurgião operava uma estação de controle que reproduzia seus movimentos em tempo real e transmitia imagens do interior do paciente.
O formato humanoide também faz diferença. Como possuem braços e proporções semelhantes às de uma pessoa, esses robôs conseguem trabalhar em centros cirúrgicos tradicionais utilizando equipamentos já existentes, sem exigir grandes modificações na infraestrutura hospitalar.
A tecnologia ainda enfrenta desafios antes de chegar aos hospitais
As duas cirurgias foram concluídas com sucesso durante os testes pré-clínicos. Os robôs participaram de etapas delicadas, como afastar tecidos, realizar a dissecção da vesícula, posicionar clipes cirúrgicos e retirar o órgão por pequenas incisões.
Mesmo assim, os próprios pesquisadores destacam que a tecnologia ainda está longe de ser utilizada em pacientes humanos.
Durante os procedimentos, foi necessário interromper a operação diversas vezes para recalibrar os robôs, ajustar o posicionamento dos braços e evitar que os instrumentos colidissem. Outro desafio importante foi a pequena latência entre os movimentos realizados pelo cirurgião e a resposta dos equipamentos — um fator crítico quando se pensa em realizar cirurgias a centenas ou milhares de quilômetros de distância.
Além disso, as operações levaram mais tempo do que cirurgias realizadas com plataformas robóticas consolidadas, como o sistema Da Vinci. Ainda assim, os pesquisadores lembram que os primeiros robôs cirúrgicos também apresentavam limitações semelhantes antes de evoluírem para os equipamentos modernos.
O maior objetivo não é substituir médicos, mas ampliar seu alcance
O aspecto mais promissor do projeto talvez não seja a automação da cirurgia, mas a possibilidade de levar especialistas a lugares onde eles não podem estar fisicamente.
Enquanto plataformas robóticas tradicionais ocupam grande espaço e podem pesar centenas de quilos, um robô humanoide é muito mais compacto, portátil e versátil. Além de participar de procedimentos cirúrgicos, ele poderia auxiliar equipes médicas, organizar instrumentos, transportar materiais e desempenhar outras funções dentro do hospital.
No futuro, essa tecnologia poderá permitir que um cirurgião opere pacientes em regiões remotas, áreas afetadas por desastres naturais, bases militares ou até missões espaciais, desde que exista uma conexão de alta velocidade e profissionais locais para acompanhar o atendimento.
Entretanto, esse cenário ainda depende de muitos avanços tecnológicos, novos protocolos de segurança, aprovação de órgãos reguladores e testes clínicos em seres humanos.
O estudo demonstra que os robôs não estão prontos para substituir médicos. O verdadeiro avanço está em transformá-los em uma extensão das mãos do cirurgião, permitindo que a experiência de um especialista alcance pacientes muito além das paredes de um hospital.