Pular para o conteúdo
Ciência

Você aprendeu que tinha cinco sentidos, mas seu corpo usa outros o tempo todo sem que você perceba

Visão, audição, olfato, paladar e tato contam apenas parte da história. O cérebro recebe sinais de outros sistemas essenciais que trabalham silenciosamente durante praticamente todo o dia.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Feche os olhos e tente tocar a ponta do nariz. Você provavelmente consegue sem precisar enxergar a própria mão. Agora pense em como permanece em pé sem calcular conscientemente cada movimento ou como percebe que está com fome antes mesmo de olhar para o relógio. Nenhuma dessas habilidades cabe perfeitamente nos cinco sentidos ensinados na escola. A neurociência mostra que nosso mapa sensorial é muito mais sofisticado do que aquela lista clássica sugere.

A lista que aprendemos na escola ficou pequena demais

Visão, audição, olfato, paladar e tato. A classificação tradicional dos cinco sentidos atravessou séculos e continua sendo uma das primeiras lições sobre o corpo humano ensinadas às crianças.

Você aprendeu que tinha cinco sentidos, mas seu corpo usa outros o tempo todo sem que você perceba
© Nhia Moua – Unsplash

O problema é que ela não descreve toda a maneira como percebemos o mundo — e muito menos aquilo que acontece dentro de nós.

A ideia remonta à tradição de classificação associada a Aristóteles. Hoje, a neurociência trabalha com modalidades sensoriais adicionais, embora o número exato de “sentidos” dependa de como eles são definidos e agrupados.

Uma das mais fascinantes é a propriocepção.

É ela que permite ao cérebro saber onde estão braços, pernas e outras partes do corpo sem depender constantemente dos olhos. Receptores presentes em músculos, tendões e articulações fornecem informações sobre posição, movimento, alongamento e tensão.

É por isso que você consegue caminhar sem observar os próprios pés a cada passo, levar um copo à boca ou digitar enquanto olha para a tela.

Experimente fechar os olhos e levantar um braço. Mesmo sem enxergá-lo, você sabe aproximadamente onde ele está.

Seu cérebro recebeu a informação por um caminho que não aparece na famosa lista dos cinco sentidos.

E esse é apenas o começo.

Existe um sistema observando silenciosamente o interior do seu corpo

Outro sentido pouco lembrado recebe o nome de interocepção. Em vez de monitorar principalmente o mundo externo, ele ajuda o cérebro a perceber sinais provenientes do próprio organismo.

Batimentos cardíacos, respiração, fome, sede, saciedade e diferentes sensações viscerais fazem parte desse fluxo constante de informações.

Na maior parte do tempo, tudo acontece sem chamar atenção.

Você não passa o dia pensando conscientemente na frequência com que respira ou verificando a todo instante se precisa beber água. O organismo monitora continuamente diversos sinais internos e utiliza essas informações para ajustar comportamento e funções fisiológicas.

A interocepção também tem relação com aspectos emocionais e cognitivos. Informações produzidas dentro do corpo podem participar da maneira como experimentamos emoções e tomamos determinadas decisões.

Pense naquele frio na barriga antes de uma situação importante ou no coração acelerado durante um momento de tensão. A experiência emocional não acontece apenas como um pensamento abstrato: o cérebro também recebe e interpreta aquilo que está ocorrendo fisicamente.

Isso ajuda a explicar por que prestar atenção à respiração ou aos batimentos cardíacos pode alterar a percepção que temos do próprio estado corporal.

Mas existe ainda outro sistema trabalhando praticamente sem descanso — e basta ele apresentar algum problema para percebermos imediatamente sua importância.

Você não cai a cada passo graças a outro mecanismo escondido

Você aprendeu que tinha cinco sentidos, mas seu corpo usa outros o tempo todo sem que você perceba
© Sergey Ochkanov – Pexels

O sistema vestibular participa da manutenção do equilíbrio e da postura. Seus principais órgãos sensoriais estão localizados no ouvido interno e respondem aos movimentos da cabeça e às forças relacionadas à gravidade.

Essas informações são combinadas com sinais da visão e da propriocepção para que o cérebro ajuste continuamente nossos movimentos.

Em condições normais, quase ninguém pensa nisso.

A importância fica evidente quando o sistema não funciona adequadamente. Alterações vestibulares podem produzir vertigem, tontura e aquela desagradável sensação de que o ambiente está se movimentando mesmo quando estamos parados.

Há ainda outras modalidades que tornam a famosa lista dos cinco sentidos ainda mais insuficiente.

A termocepção permite detectar temperatura, enquanto a nocicepção está relacionada à detecção de estímulos potencialmente prejudiciais e à experiência do sistema de dor. Dependendo da classificação utilizada, cinestesia e outras capacidades perceptivas também podem aparecer separadamente.

Isso explica por que simplesmente afirmar que humanos possuem “sete”, “oito” ou qualquer outro número fechado de sentidos pode ser problemático.

Tudo depende da fronteira usada para decidir quando um mecanismo sensorial merece ser considerado um sentido independente.

Seu cérebro recebe muito mais informação do que você imagina

A grande mudança trazida pela neurociência não está necessariamente em substituir a velha lista de cinco sentidos por outra com um número definitivo.

Está em perceber que nosso cérebro administra uma rede de informações muito mais ampla.

Enquanto os olhos detectam luz e os ouvidos respondem a ondas sonoras, receptores espalhados pelo organismo informam posição corporal, temperatura, tensão muscular e acontecimentos internos. O sistema vestibular acompanha movimentos e orientação da cabeça.

Esses sinais trabalham juntos.

Quando você se levanta da cadeira, atravessa uma sala, pega um objeto e bebe um copo de água, vários sistemas sensoriais estão operando simultaneamente. Alguns observam o ambiente; outros acompanham cada mudança ocorrida dentro do corpo.

Talvez por isso a velha história dos cinco sentidos continue tão útil para começar a explicar nossa relação com o mundo, mas seja insuficiente para encerrá-la.

A parte mais intrigante é justamente aquela que quase nunca percebemos.

Enquanto você lê estas palavras, seu cérebro não está apenas enxergando letras na tela. Ele sabe aproximadamente onde estão suas mãos, monitora a posição da cabeça, recebe informações do coração, acompanha a respiração e verifica inúmeros sinais corporais.

Você nunca precisou aprender conscientemente a usar esses “sentidos escondidos”.

Eles já estavam trabalhando muito antes de alguém lhe ensinar que existiam apenas cinco.

[Fonte: Azteca]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados