Pular para o conteúdo
Ciência

Físicos fizeram uma pergunta estranha sobre o tempo — e encontraram uma pequena imperfeição escondida nele

Um cálculo baseado em modelos alternativos da mecânica quântica sugere que nem mesmo o tempo seria perfeitamente preciso. O efeito é minúsculo, mas pode apontar para algo muito maior.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Seu celular, um relógio atômico e até os sistemas de navegação dependem da ideia de que o tempo pode ser medido com precisão cada vez maior. Mas e se existir um limite imposto pela própria natureza? Um grupo internacional de físicos explorou justamente essa possibilidade e chegou a um resultado intrigante: determinados modelos quânticos preveem uma incerteza fundamental no tempo. Ela é praticamente impossível de detectar hoje, mas pode ajudar a investigar um dos maiores mistérios da física moderna.

O problema começa com uma das partes mais estranhas da física

Físicos fizeram uma pergunta estranha sobre o tempo — e encontraram uma pequena imperfeição escondida nele
© Por PoorLeno (talk) – Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5854697

Para entender a descoberta, é preciso entrar rapidamente no mundo da mecânica quântica.

Nessa escala, partículas não precisam ocupar necessariamente um único estado definido antes de uma medição. Diferentes possibilidades podem ser representadas simultaneamente pela chamada função de onda.

Quando fazemos uma medição, entretanto, encontramos um resultado específico.

A interpretação desse processo, frequentemente descrito como “colapso” da função de onda, permanece no centro de debates sobre os fundamentos da física.

Desde a década de 1980, alguns pesquisadores estudam uma possibilidade diferente: talvez esse colapso não dependa necessariamente de um observador ou instrumento. Ele poderia acontecer espontaneamente como parte da própria dinâmica da natureza.

São os chamados modelos de colapso quântico.

E existe uma diferença importante entre eles e interpretações puramente conceituais da mecânica quântica: esses modelos podem produzir previsões físicas diferentes e, portanto, potencialmente testáveis.

Foi justamente aí que Nicola Bortolotti, pesquisador do Enrico Fermi Museum and Research Centre, em Roma, e seus colegas decidiram fazer uma pergunta aparentemente simples.

Se esses modelos estiverem relacionados à gravidade, o que acontece com o próprio tempo?

Os cálculos revelaram uma pequena imperfeição

A equipe analisou dois modelos diferentes.

Um deles é o conhecido modelo de Diósi-Penrose, no qual a gravidade pode desempenhar um papel no colapso de sistemas quânticos. O outro é baseado na chamada Localização Espontânea Contínua.

Neste segundo caso, os pesquisadores estabeleceram uma conexão quantitativa entre o modelo de colapso e possíveis flutuações gravitacionais do espaço-tempo.

Foi então que apareceu o resultado mais curioso.

Se esses modelos estiverem corretos, o tempo pode carregar uma quantidade extremamente pequena de incerteza intrínseca.

Isso significaria que existe um limite fundamental para a precisão com que conseguimos medir o tempo. Não seria simplesmente uma deficiência dos relógios atuais ou uma limitação tecnológica que engenheiros poderiam eliminar construindo equipamentos melhores.

A incerteza faria parte da própria física.

Antes de jogar seu relógio fora, porém, existe uma informação fundamental: o efeito calculado é extraordinariamente pequeno.

Tão pequeno que nem mesmo os relógios atômicos mais avançados disponíveis atualmente conseguiriam detectá-lo. Equipamentos previstos para o futuro próximo também continuariam muito longe da sensibilidade necessária.

Portanto, seu despertador continua seguro.

A importância da descoberta está em outro lugar.

O verdadeiro mistério aparece quando Einstein entra na história

Físicos fizeram uma pergunta estranha sobre o tempo — e encontraram uma pequena imperfeição escondida nele
© YouTube

Há mais de um século, a física convive com duas teorias extraordinariamente bem-sucedidas que não se encaixam perfeitamente.

A mecânica quântica descreve com enorme precisão partículas, átomos e fenômenos microscópicos.

Já a relatividade geral de Einstein explica a gravidade em escalas maiores e descreve espaço e tempo como partes de uma mesma estrutura dinâmica: o espaço-tempo.

O problema é que as duas teorias tratam o tempo de maneiras bastante diferentes.

Na mecânica quântica convencional, ele geralmente funciona como um parâmetro externo. Os sistemas evoluem no tempo, mas o próprio tempo não é tratado da mesma maneira que outras grandezas quânticas.

Na relatividade geral, a situação muda completamente.

Espaço e tempo fazem parte de uma estrutura que pode se deformar de acordo com a presença de matéria e energia.

Conciliar essas duas descrições é um dos grandes desafios da física contemporânea.

É por isso que uma incerteza minúscula no tempo pode ser interessante mesmo sendo impossível de perceber no cotidiano.

Ela pode oferecer uma pequena janela para investigar como gravidade, mecânica quântica e espaço-tempo estão relacionados.

Uma anomalia impossível de medir hoje ainda pode ser extremamente útil

O estudo não demonstra que o tempo realmente possui essa incerteza fundamental.

O que os pesquisadores fizeram foi mostrar uma consequência física que surgiria caso determinados modelos de colapso quântico descrevam corretamente a natureza.

Essa distinção é essencial.

Ainda assim, justamente porque esses modelos fazem previsões potencialmente diferentes da mecânica quântica convencional, experimentos de altíssima precisão podem ajudar no futuro a colocá-los à prova.

E esse talvez seja o aspecto mais fascinante do trabalho.

Uma pergunta que parece quase filosófica — “o tempo pode ser perfeitamente preciso?” — acaba transformada em algo que, pelo menos em princípio, pode ser investigado experimentalmente.

Enquanto isso, os relógios continuam funcionando normalmente.

A incerteza calculada está muitas ordens de magnitude abaixo daquilo que conseguimos medir, o que significa que não há qualquer consequência prática para a cronometragem cotidiana ou para as tecnologias atuais.

Mas a física frequentemente avança justamente assim.

Primeiro aparece uma diferença quase invisível em uma equação. Depois surgem instrumentos capazes de procurar seus efeitos. E, ocasionalmente, aquela pequena imperfeição acaba revelando que nossa descrição do Universo estava incompleta.

Desta vez, essa imperfeição pode estar escondida em algo que parecia ser apenas o cenário onde tudo acontece: o próprio tempo.

[Fonte: C3]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados