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Tecnologia

A inteligência artificial pode fazer a economia disparar até 2030 — mas existe um detalhe que muda completamente essa história

Um novo modelo econômico colocou três futuros possíveis para a inteligência artificial lado a lado. Todos prometem crescimento, mas um deles revela uma transformação desconfortável para milhões de trabalhadores.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma gigantesca máquina de produtividade capaz de transformar empresas, acelerar pesquisas e criar novas oportunidades. Mas existe outra pergunta, bem menos confortável: quem ficará com a riqueza produzida por essa revolução? Um novo estudo da Anthropic tentou colocar números nessa incerteza e descobriu que, dependendo da velocidade da transformação, 2030 pode trazer uma economia muito maior acompanhada de uma mudança profunda no mercado de trabalho.

Três caminhos levam a 2030, mas eles terminam em lugares muito diferentes

O estudo foi desenvolvido pela equipe econômica da Anthropic, empresa responsável pelo Claude, e transforma diferentes hipóteses sobre o avanço da IA em três cenários para a economia dos Estados Unidos.

Em vez de considerar cada profissão como uma unidade indivisível, o modelo separa os empregos em tarefas. Algumas podem ser aceleradas pela inteligência artificial, outras completamente automatizadas e determinadas atividades podem continuar dependendo essencialmente de humanos.

No cenário mais moderado, a IA seguiria uma trajetória parecida com a de outras grandes tecnologias, como a internet em seus primeiros anos. Nesse caso, o Produto Interno Bruto dos Estados Unidos chegaria a 2030 apenas 1,6% acima da trajetória prevista sem os efeitos adicionais da IA, enquanto o desemprego sofreria pouca alteração.

O segundo cenário já muda bastante a fotografia.

Com uma adoção muito mais intensa, o crescimento econômico poderia atingir cerca de 5,4% ao ano. Até 2030, a economia seria aproximadamente 8,3% maior do que na projeção de referência.

Mas é o terceiro caminho que mostra até onde essa transformação poderia chegar.

Nesse cenário extremo, sistemas avançados assumiriam aproximadamente metade do trabalho cognitivo realizado atualmente. A economia poderia crescer a impressionantes 15% ao ano. O problema é o que aconteceria paralelamente com determinados trabalhadores: o desemprego entre profissionais ligados a atividades cognitivas poderia chegar a 17,9%.

A economia cresce, mas isso não significa que os salários acompanhem

A inteligência artificial pode fazer a economia disparar até 2030 — mas existe um detalhe que muda completamente essa história
© Pexels

É justamente aqui que aparece uma das conclusões mais provocadoras do estudo.

Nos três cenários, a inteligência artificial aumenta a produção econômica. Porém, quanto mais intensa é a automação, maior pode ser a transferência da renda gerada pelo trabalho para o capital.

Atualmente, segundo os parâmetros utilizados pelo modelo, aproximadamente 60% da renda produzida pela economia americana fica com trabalhadores na forma de remuneração, enquanto cerca de 40% corresponde ao capital.

No cenário intermediário, a participação dos trabalhadores cairia para aproximadamente 56% até 2030. Parece uma diferença pequena, mas existe um detalhe impressionante: essa queda de quatro pontos percentuais em apenas alguns anos seria comparável ao recuo acumulado ao longo de quatro décadas desde 1980.

No cenário mais radical, a transformação seria ainda mais profunda, com a parcela destinada ao trabalho despencando para cerca de 45%.

E nem todos os trabalhadores enfrentariam a mesma situação.

Profissionais de gestão, administração, vendas e outras atividades intelectuais poderiam observar salários praticamente estagnados no cenário intermediário. Na projeção extrema, a renda real desses trabalhadores poderia cair mais de 11%.

Ou seja, a inteligência artificial poderia produzir uma situação aparentemente contraditória: uma economia crescendo em velocidade extraordinária enquanto parte dos profissionais qualificados ganha menos.

Alguns trabalhos podem se tornar inesperadamente mais valiosos

Existe, porém, outro lado dessa transformação.

Profissões que dependem diretamente do mundo físico e são mais difíceis de automatizar podem ganhar importância. Construção, serviços manuais e determinadas atividades de assistência personalizada aparecem entre aquelas potencialmente mais protegidas.

A inteligência artificial pode fazer a economia disparar até 2030 — mas existe um detalhe que muda completamente essa história
© Unsplash

No cenário mais intenso analisado pela Anthropic, os salários desses trabalhadores poderiam subir até 34%.

Isso poderia provocar uma inversão curiosa no mercado profissional. Durante décadas, trabalhadores foram incentivados a abandonar funções manuais e buscar ocupações de escritório consideradas mais qualificadas e protegidas.

A inteligência artificial pode mudar parte dessa lógica.

Se algoritmos assumirem uma parcela crescente das tarefas administrativas, analíticas e intelectuais, habilidades físicas difíceis de automatizar podem se tornar relativamente mais escassas — e, consequentemente, mais valorizadas.

O estudo não afirma que esse futuro inevitavelmente acontecerá. Trata-se de uma simulação econômica construída sobre hipóteses que podem mudar conforme a tecnologia, as empresas e os governos reajam.

E existe uma data especialmente importante nessa história.

O momento decisivo pode aparecer depois de 2027

Segundo os pesquisadores, os três cenários ainda seriam difíceis de distinguir no presente. A separação começaria a ficar mais clara depois de 2027, quando o ritmo de adoção da inteligência artificial e sua capacidade de executar tarefas complexas poderiam indicar qual trajetória está realmente surgindo.

Uma pesquisa da Morning Consult com 10.980 adultos americanos também acompanhou o trabalho. Em média, os entrevistados esperam algo próximo do cenário intermediário: uma economia aproximadamente 8% maior e desemprego perto de 5%.

Mas o modelo recebeu ressalvas importantes.

Economistas ligados ao MIT, incluindo Daron Acemoglu e David Autor, questionaram algumas premissas. Uma delas é a possibilidade de que profissões cognitivas não simplesmente desapareçam, mas sejam transformadas pela IA, criando novas tarefas complementares para humanos.

Também existem fatores difíceis de colocar em uma simulação: novas regulamentações, crises econômicas, mudanças no comportamento das empresas e até o gigantesco investimento necessário para construir centros de dados capazes de sustentar essa expansão.

Por isso, o relatório não deve ser interpretado como uma previsão fechada de 2030.

Ele funciona melhor como um mapa de possibilidades.

E talvez sua conclusão mais importante não seja descobrir exatamente quanto a economia crescerá. É perceber que produtividade, salários e emprego não necessariamente avançarão juntos.

A inteligência artificial pode criar uma quantidade extraordinária de riqueza. A questão que permanece aberta é quem estará em melhor posição para recebê-la.

[Fonte: RN]

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