Durante décadas, cartazes, reportagens na televisão e apelos públicos foram algumas das principais armas usadas pela polícia para tentar solucionar crimes antigos. Agora, investigadores americanos estão experimentando algo bem diferente. Aproveitando a popularidade gigantesca do true crime, departamentos policiais começaram a produzir seus próprios podcasts, transformando arquivos esquecidos em histórias capazes de alcançar milhares de ouvintes e, em alguns casos, provocar reviravoltas surpreendentes.
Quando uma investigação policial começa a parecer uma série

Peter Chadwick estava foragido havia quase quatro anos, acusado de matar a própria esposa, quando a polícia de Newport Beach, na Califórnia, decidiu apostar em um formato pouco convencional para pressioná-lo: um podcast.
Dez meses e 20 dias depois, Chadwick foi localizado e preso no México.
Em Illinois, outro caso chamou atenção. Karen Schepers estava desaparecida havia mais de quatro décadas quando investigadores de Elgin lançaram um podcast dedicado ao mistério. Poucas semanas depois, seu carro e seus restos mortais foram encontrados no fundo de um rio.
Agora, policiais de Aurora, no Colorado, tentam descobrir até onde essa estratégia pode chegar.
O departamento lançou um podcast dedicado ao assassinato de Chelsea Yasser, uma jovem de 21 anos encontrada morta a facadas no estacionamento de um shopping em 2016.
A ideia aproveita um fenômeno cultural difícil de ignorar. Podcasts, documentários, livros e séries sobre crimes reais conquistaram uma audiência enorme nos últimos anos. Para os investigadores, essas pessoas representam algo mais importante do que simples ouvintes: são milhares de potenciais testemunhas capazes de reconhecer nomes, lugares, veículos ou circunstâncias.
Ao contrário de uma reportagem exibida apenas uma vez, um podcast continua disponível e pode alcançar pessoas muito tempo depois de sua publicação.
Um assassinato que virou a “baleia branca” dos investigadores

O caso de Chelsea Yasser atormentou os policiais de Aurora durante anos. Tanto que os responsáveis pelo programa compararam a investigação à obsessão narrada em Moby Dick. Dessa referência nasceu o nome do podcast: White Whale.
Yasser foi mortalmente esfaqueada depois de entrar em uma van que havia parado no estacionamento. Ela conseguiu sair do veículo, mas caiu pouco depois.
Câmeras de segurança registraram a van se movimentando durante o ataque, porém as imagens eram ruins demais para revelar claramente o rosto do agressor. Material genético também foi recuperado sob as unhas da vítima, mas não encontrou correspondência nos bancos de dados disponíveis.
Enquanto os episódios eram publicados, investigadores começaram a testar novas técnicas de genealogia forense para tentar identificar aquele DNA. O próprio podcast passou a acompanhar essas novas frentes da investigação.
A vantagem estava no alcance. Alguém que não assistiu ao noticiário na época do assassinato poderia descobrir o caso dez anos depois enquanto procurava um novo programa para ouvir.
Até o fim de julho, White Whale havia acumulado 7.184 downloads. O público também enviou novas informações, incluindo pelo menos uma pista que continuava sendo analisada pelos investigadores.
Essa exposição, entretanto, traz riscos importantes.
O sucesso que também levantou uma questão delicada
Produzir um podcast exige tempo, dinheiro, equipamentos e profissionais que muitos departamentos policiais simplesmente não possuem. Existe ainda outro problema: transformar uma investigação criminal em narrativa pode colocar autoridades em um terreno juridicamente perigoso.
Foi exatamente o que aconteceu no caso de Peter Chadwick.
No primeiro episódio produzido pela polícia de Newport Beach, Chadwick foi apresentado como o homem que havia assassinado a esposa. Naquele momento, porém, ele havia sido acusado e declarado inocente, mas ainda não tinha sido julgado.
A decisão de chamá-lo diretamente de assassino provocou críticas por aparentemente ignorar a presunção de inocência. A responsável pela produção, Jennifer Manzella, defendeu na época que o objetivo era contar a história de maneira envolvente sem comprometer a investigação.
Chadwick acabou preso em agosto de 2019. Posteriormente, declarou-se culpado de assassinato em segundo grau, foi condenado e permaneceu encarcerado.
Manzella reconheceu que o podcast não foi diretamente responsável pela captura. Ainda assim, acredita que a exposição aumentou a pressão sobre o fugitivo e ampliou enormemente a visibilidade da investigação.
O programa chegou à 24ª posição no ranking do iTunes e despertou interesse de outras forças policiais.
Uma delas estava a milhares de quilômetros dali.
Dois detetives relutantes descobriram outra utilidade para os podcasts

Quando os detetives Andrew Houghton e Matthew Vartarian foram designados para uma nova unidade de casos arquivados em Elgin, Illinois, em 2024, receberam uma tarefa adicional inesperada: também deveriam produzir podcasts.
Houghton não ficou exatamente entusiasmado.
Os investigadores já estavam montando uma unidade do zero e agora precisariam aprender a transformar investigações complexas em episódios compreensíveis para o público.
Mas algo curioso aconteceu durante o processo.
Ao organizar diferentes hipóteses sobre o desaparecimento de Karen Schepers, ocorrido quando ela tinha 23 anos, os policiais perceberam que cada teoria poderia estruturar um episódio. E essa organização narrativa também ajudava a colocar a própria investigação em ordem.
O público começou a participar. Comentários nas redes sociais traziam lembranças de moradores, antigos colegas e pessoas que conheciam personagens relacionados ao caso.
Uma hipótese ganhou força: Schepers poderia ter sofrido um acidente e terminado no rio Fox.
Os investigadores localizaram uma reportagem de 1999 indicando que buscas haviam sido realizadas na região, mas não encontraram evidências claras de uma varredura completa do rio.
Dessa vez, utilizaram tecnologia moderna de sonar e mergulhadores especializados.
Em março de 2025, encontraram o carro de Schepers no fundo do rio. Dentro dele estavam seus restos mortais.
Uma ferramenta que pode mudar a forma de investigar casos antigos
O podcast não resolveu sozinho o desaparecimento. Foram técnicas policiais tradicionais, novas buscas e tecnologia especializada que permitiram encontrar Schepers.
Ainda assim, o formato trouxe algo difícil de conseguir em investigações antigas: atenção renovada.
O departamento de Elgin já chegou à terceira temporada de seu programa, apesar de Houghton admitir que produzir cada episódio exige enorme quantidade de trabalho.
Especialistas acreditam que esse tipo de iniciativa deve crescer conforme uma nova geração de policiais, acostumada a podcasts e redes sociais, assumir mais espaço dentro das corporações.
Há ainda outro possível efeito. Ao mostrar como uma investigação realmente funciona, esses programas podem aproximar o público dos bastidores da atividade policial e até ajudar departamentos a atrair novos profissionais.
Mas seu maior potencial talvez continue sendo muito mais simples.
Um assassinato ocorrido há dez anos pode ter uma testemunha que nunca percebeu possuir uma informação importante. Uma pessoa desaparecida há quatro décadas pode permanecer na memória de alguém que nunca conversou com a polícia.
Durante muito tempo, alcançar essas pessoas dependia de jornais, televisão e cartazes.
Agora, a pista capaz de reabrir um caso pode surgir enquanto alguém dirige para o trabalho com um podcast tocando nos fones de ouvido.
[Fonte: bbc]