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Ciência

Por que as mulheres sofrem mais com enxaqueca do que os homens — e o que pode aliviar a dor

Deitar em um quarto escuro enquanto uma dor intensa e persistente parece atravessar a testa é uma experiência dolorosamente familiar para quem sofre de enxaqueca.
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Tempo de leitura: 5 minutos

A condição pode afetar profundamente a rotina, o trabalho, os relacionamentos e até a saúde mental. E existe uma diferença marcante entre os sexos: mulheres têm cerca de três vezes mais chances de sofrer crises de enxaqueca do que homens.

As razões envolvem genética, hormônios, sono, estresse e outros fatores que podem se acumular até desencadear uma crise.

Enxaqueca vai muito além da dor de cabeça

Cabeça Dói
© FreePik

A enxaqueca afeta aproximadamente uma em cada sete pessoas no mundo, o equivalente a mais de 1 bilhão de indivíduos, segundo a organização britânica Migraine Trust.

Trata-se de uma condição neurológica com forte componente genético, que torna o cérebro mais sensível a determinadas mudanças. Algumas pessoas podem carregar genes associados à enxaqueca sem nunca desenvolver crises importantes.

Em outras, diferentes fatores externos ativam determinadas vias cerebrais e provocam a liberação de substâncias neuroquímicas responsáveis pelos sintomas.

A dor de cabeça é apenas um deles. Náuseas, vômitos, tontura, dificuldade de concentração e sensação de confusão mental também podem aparecer.

Segundo Katy Munro, especialista em enxaqueca do National Migraine Centre, no Reino Unido, os sintomas podem variar inclusive na mesma pessoa.

Uma crise pode ser diferente da seguinte, e o padrão também pode mudar ao longo da vida.

O que pode desencadear uma crise

Raramente existe um único responsável. Em muitos casos, pequenos fatores vão se acumulando até ultrapassar uma espécie de limite individual e desencadear a enxaqueca.

Alterações hormonais, oscilações da glicose, noites mal dormidas e falta de descanso estão entre os fatores associados.

O estresse também desempenha um papel importante. Curiosamente, a crise pode surgir justamente quando a tensão diminui, como no início de um fim de semana depois de dias particularmente estressantes.

Mudanças no clima, incluindo temperatura, pressão atmosférica e umidade, também podem influenciar algumas pessoas. A desidratação associada a determinadas condições climáticas pode contribuir.

Além disso, problemas como deficiência de ferro, doença celíaca e hipotireoidismo podem estar relacionados ao agravamento das crises em alguns pacientes.

Por que as mulheres sofrem mais com enxaqueca

Na infância, aproximadamente 10% das crianças apresentam enxaqueca, com prevalência semelhante entre meninos e meninas. A diferença começa a aparecer durante a puberdade.

É justamente nessa fase que as oscilações dos hormônios sexuais se tornam mais importantes.

A queda acentuada do estrogênio antes da menstruação é considerada um dos motivos pelos quais algumas mulheres apresentam crises particularmente intensas nesse período.

A situação pode voltar a piorar durante a perimenopausa, fase de transição que antecede a menopausa. Nesse período, os níveis hormonais podem variar rapidamente.

Mas os hormônios não explicam tudo. Alterações no sono, estresse e mudanças na rotina também podem contribuir para aumentar a frequência das crises.

Depois da menopausa, algumas mulheres percebem redução na intensidade ou na frequência dos episódios, possivelmente porque os níveis hormonais passam a apresentar maior estabilidade.

Uma crise pode passar por quatro fases

A enxaqueca costuma ser dividida em quatro etapas, embora nem todas as pessoas apresentem todas elas.

A primeira é o pródromo, que pode funcionar como um aviso de que a crise está começando. Bocejos frequentes, fadiga intensa e dor no pescoço estão entre os possíveis sinais.

Depois pode surgir a aura, experimentada por aproximadamente um terço dos pacientes. Ela costuma durar menos de uma hora e pode provocar alterações visuais, como pontos luminosos ou linhas em zigue-zague.

Em seguida vem a fase da dor de cabeça, que pode durar de quatro a 72 horas e ser acompanhada de náuseas e vômitos.

Por último está o pósdromo, popularmente descrito como uma espécie de “ressaca da enxaqueca”. Mesmo depois que a dor diminui, cansaço e dificuldade de concentração podem permanecer por um ou dois dias.

Uma rotina mais estável pode ajudar

O café pode atrapalhar seu sono mesmo quando você consegue dormir oito horas
© Polina – Pexels

Durante muito tempo, pessoas com enxaqueca foram aconselhadas principalmente a evitar possíveis gatilhos, como cafeína ou chocolate. Hoje, especialistas também destacam a importância de manter uma rotina relativamente estável.

Observar o que aconteceu nos dois ou três dias anteriores a uma crise pode ajudar a identificar padrões.

Manter horários regulares para alimentação é importante para evitar grandes oscilações da glicose. Hábitos consistentes de sono, procurando dormir e acordar aproximadamente nos mesmos horários, também podem ajudar.

A atividade física continua sendo recomendada pelos benefícios gerais à saúde, mas algumas pessoas percebem crises após exercícios intensos. Nesses casos, hidratação e alimentação adequadas merecem atenção.

O mesmo raciocínio pode explicar as chamadas crises de fim de semana. Dormir mais tarde, mudar os horários das refeições, consumir álcool ou simplesmente relaxar depois de uma semana estressante representa uma alteração significativa da rotina.

Medicamentos e suplementos também são opções

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© Michelle Leman – Pexels

O tratamento de uma crise deve ser discutido com um profissional de saúde. Em muitos casos, agir cedo pode aumentar a eficácia dos medicamentos indicados.

Analgésicos como ibuprofeno ou aspirina podem ser utilizados em determinadas situações, enquanto medicamentos contra náuseas podem ajudar quando esse sintoma acompanha a crise. A escolha depende das características e do histórico de cada paciente.

Existem ainda os triptanos, medicamentos desenvolvidos especificamente para tratar crises de enxaqueca e que podem ser prescritos por médicos.

Algumas evidências também sugerem que suplementos como magnésio e vitamina B2, conhecida como riboflavina, podem ajudar a reduzir a frequência das crises em determinadas pessoas. O uso deve ser discutido com um profissional de saúde.

Para mulheres com enxaqueca associada ao ciclo menstrual, estratégias hormonais podem ser consideradas individualmente. Durante a perimenopausa, terapias hormonais também podem ser avaliadas conforme o quadro clínico.

Nos últimos anos, pesquisadores identificaram ainda o papel do CGRP, um peptídeo produzido naturalmente pelo organismo e envolvido nos mecanismos da enxaqueca. Já existem medicamentos desenvolvidos especificamente para bloquear sua ação ou seu receptor.

Outras alternativas incluem aplicações de toxina botulínica em casos específicos de enxaqueca crônica e abordagens complementares, como acupuntura, yoga e tai chi.

A variedade de tratamentos disponíveis aumentou consideravelmente. Por isso, pessoas que continuam sofrendo crises frequentes ou incapacitantes podem discutir diferentes estratégias com um neurologista ou outro profissional especializado em enxaqueca.

 

[ Fonte: BBC ]

 

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